A minha geração cresceu com a Rua Sésamo aos fins-de-semana e a música dos Patinhos antes de dormir. Contudo, nos últimos 25 anos os ecrãs evoluíram de uma forma que, nessa altura, era inimaginável. Hoje temos plataformas de streaming sem pausas, onde escolhemos o que vemos e quando, e os ecrãs, antes fixos num móvel da sala, passaram a ser pequenos, portáteis e táteis, acompanhando-nos 24/7.
Se é verdade que, quando nós eramos crianças, já existiam ecrãs – para as crianças de agora, a realidade é 100% diferente. E se há 5/10 anos podíamos dizer que não sabíamos se existiam consequências dessa exposição, agora já não é assim.
Hoje existe muita investigação nesta área: crianças expostas a ecrãs brincam menos e passam mais tempo sentadas ou paradas (iniciando hábitos de sedentarismo por vezes antes de começarem a andar). Têm uma capacidade de concentração diminuída e o controlo de impulsos dificultado. As crianças podem inclusive deixar de conseguir “estar aborrecidas” – e, por mais incrível que pareça, sem aborrecimento, não existe criatividade, uma das qualidades que mais devemos preservar nos mais pequenos. Estão também descritos atrasos na linguagem, dificuldades na interação social e problemas de sono… A lista é extensa e, admitamos, preocupante.
Não é, assim, de espantar que, um pouco por todo o mundo, as sociedades de pediatria tenham emitido orientações acerca do que pode ser considerada uma “exposição a ecrãs saudável”. Sim – porque apesar de existirem canais com “baby” no nome, isso não é suficiente para fazermos escolhas informadas enquanto pais, educadores e médicos.
Quer isto dizer que os ecrãs têm de ser evitados a todo o custo?! Como, neste mundo cada vez mais digital?
No meio de tudo, existem boas notícias! Temos cada vez mais consensos acerca de como podemos tornar esta “iniciação digital” o mais positiva possível.
A Sociedade Americana de Pediatria criou, por exemplo, os 5Cs da utilização digital, para guiar famílias, educadores e médicos em cada faixa etária:
– Criança: necessidades de cada idade e como os ecrãs a influenciam;
– Conteúdo: o que é considerado adequado e com alguma “utilidade” para cada idade;
– Calma: como as crianças se acalmam e adormecem;
– “Crowding Out”: o que os ecrãs estão a impedir;
– Comunicação: como educar para uso responsável.
Existem ainda algumas “regras de ouro”:
– Quanto menos interativo e maior for o ecrã, melhor (especialmente para crianças mais pequenas);
– Abaixo dos 2 anos, a exposição a ecrãs tem interesse mínimo (exceto videochamadas familiares);
– Os pais devem ver os conteúdos com as crianças – além de potencialmente divertido, desta maneira veem como elas reagem ao que estão a ver e criam espaço para que possam fazer perguntas e comentários sobre o que está a acontecer.
Acima de tudo, para crianças saudáveis precisamos de pais, educadores e profissionais de saúde (bem) informados. Espero que este artigo, mesmo que sucinto, contribua para isso mesmo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.