Portugal atravessa um momento político decisivo. As eleições presidenciais de 2026 ainda parecem distantes, mas o tabuleiro já está em movimento.
André Ventura, líder do Chega, assumiu o centro do palco ao anunciar a sua candidatura, declarando que o objetivo é chegar à segunda volta contra um “representante do espaço socialista”, como o almirante Gouveia e Melo, provável nome apoiado por esse setor político.
A mensagem não é apenas eleitoral: Ventura fala como quem se coloca na condição de “salvador” de Portugal. Mas o que oferece ao eleitorado não é um projeto consistente de desenvolvimento nacional, e sim um roteiro em que o medo desempenha o papel principal.
Esse medo tem alvos concretos. O discurso de Ventura voltou a assentar-se na oposição entre “portugueses de bem” e “os outros”: imigrantes, elites políticas, instituições democráticas. É uma estratégia antiga, mas que continua eficaz em tempos de incerteza social e económica.
A retórica populista cria a ilusão de que os problemas do país decorrem da presença de grupos minoritários ou de uma elite conspiratória, em vez de serem fruto de desigualdades estruturais, de falta de investimento em serviços públicos e da incapacidade histórica de promover coesão social.
Ventura, ao colocar-se como a “salvação nacional”, tenta encarnar esse papel messiânico, transformando a política num palco de medo e ressentimento. A experiência europeia mostra o perigo desse caminho.
O cenário internacional é testemunha de discursos semelhantes crescerem em França, Itália, Hungria e mais recentemente até na Holanda, onde forças políticas de extrema-direita se consolidaram explorando o mesmo mecanismo: medo do outro, do estrangeiro, do diferente.
A estratégia é clara: quanto mais se amplifica a insegurança, mais fácil se torna justificar medidas autoritárias, cortes em direitos fundamentais e o enfraquecimento de instituições democráticas. Ventura parece beber dessa mesma fonte e, com habilidade, traduz esse receituário para a realidade portuguesa.
Mas é preciso dizer com clareza: os imigrantes não são a causa da precariedade da habitação em Lisboa, do colapso em listas de espera no Serviço Nacional de Saúde ou da pressão sobre salários. O que está em jogo são décadas de políticas públicas mal calibradas, de orçamentos limitados, de reformas que nunca enfrentaram os problemas de fundo.
Ao transformar o imigrante em vítima conveniente, Ventura não só engana o eleitorado, como desvia o debate das verdadeiras soluções. E, pior, mina a possibilidade de construção de uma sociedade integrada, que reconheça a diversidade como riqueza e não como ameaça.
Não se trata de negar que Portugal enfrenta dificuldades sérias. A desigualdade social é gritante; os jovens saem do país por falta de perspetivas; a habitação tornou-se um problema quase insolúvel para quem aufere salários médios; o sistema de saúde luta para manter médicos e enfermeiros.
Mas a solução para esses dilemas não virá de um discurso que divide e coloca cidadãos uns contra os outros. A política não pode ser um concurso de culpas, muito menos um exercício de estigmatização. O que se espera de quem almeja liderar um país é a capacidade de propor saídas, de unir, de mobilizar energias coletivas em favor de um futuro melhor.
Ventura, no entanto, insiste em apresentar-se como o candidato que “ousa dizer o que os outros não dizem”. Essa estratégia, à primeira vista, soa a franqueza política; mas, ao escrutínio, revela-se um expediente retórico para normalizar preconceitos e dar legitimidade a um discurso que desumaniza parte da população. É a política do inimigo: se não existe um problema claro, cria-se um adversário conveniente — muitas vezes sem voz para se defender, como os imigrantes ou minorias sociais.
Aqui reside a responsabilidade das forças democráticas. Não basta rejeitar Ventura em comunicados ou editoriais indignados. É preciso construir uma alternativa robusta, que fale à vida real das pessoas. Que ofereça soluções palpáveis para a habitação, que dê respostas à crise climática, que valorize o trabalho e garanta dignidade aos reformados.
O combate ao populismo não se faz apenas com a denúncia do seu caráter divisionista, mas sobretudo com políticas públicas que devolvam confiança ao eleitorado. Só assim se retira espaço da política do medo.
A imprensa e a sociedade civil também têm um papel crucial. É indispensável expor as contradições e exageros de Ventura, mas sem cair na armadilha de transformar cada provocação em manchete gratuita. A cobertura deve ser responsável, contextualizada, baseada em factos e não em slogans. A democracia fortalece-se quando o debate público não se deixa pautar pelo sensacionalismo, mas pelo compromisso com a verdade e com os direitos de todos.
Por fim, a candidatura de André Ventura é um teste para Portugal. Não apenas um teste eleitoral, mas um teste à maturidade da democracia portuguesa. Resistirá o país à sedução fácil do discurso simplista, que promete soluções rápidas para problemas complexos? Ou sucumbirá à política que transforma vizinhos em estranhos e cidadãos em chivos expiatórios?
Portugal merece mais do que a política do medo. O futuro do país não pode ser construído com base na exclusão, mas sim na solidariedade, na justiça e na coragem de enfrentar os problemas de frente, sem recorrer a pretextos convenientes.
Ventura oferece o atalho perigoso da xenofobia como projeto político; cabe à sociedade portuguesa recusar esse caminho e reafirmar que a democracia, para ser verdadeira, deve ser inclusiva, plural e capaz de unir — não de dividir.
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