Bastou o Governo ter optado por deixar cair o Orçamento do Estado (OE) – sabendo que com isso o Presidente da República convocaria eleições –, para que o coro afinado dos que nunca se conformaram com a solução política dos últimos anos alinhasse discurso. Rapidamente surgiram as recauchutadas preocupações com a estabilidade política (como se a atual solução não tivesse durado seis anos!) ou com a governabilidade do País (em sentido contrário à governabilidade da vida dos portugueses, cada vez mais difícil) a exigir ou maioria absoluta ou um bloco central.
Há um certo desespero nos setores que, há várias décadas, dominam a vida nacional, seja política seja económica. Desde 2015, foi abalada a paz duradoura desses grandes interesses económicos e iniciada uma nova fase, em que forças políticas à esquerda passaram a condicionar e a influenciar algumas importantes decisões. Foi um período em que se conseguiu não só a travagem de medidas profundamente negativas (por exemplo, novas privatizações) como a reposição de direitos retirados no período da Troika e alguns avanços bastante importantes, em particular para trabalhadores e pensionistas, traduzindo-se, aliás, num período de crescimento económico.
É certo que isso não significou a mudança efetiva das orientações políticas estruturantes, facto que foi estreitando o espaço para avanços mais significativos, por dependerem de opções que o Governo de António Costa nunca quis equacionar. Os parcos avanços admitidos nas negociações para o Orçamento de 2022, em particular com o PCP, contrastaram com a inamovibilidade em questões mais substanciais para a vida das pessoas, que tornavam os ganhos pouco significativos. Para o PS, tratava-se apenas de mudar alguma coisa para que ficasse tudo na mesma (aliás, pior).
Convocadas as eleições, os ressabiados com a chamada Geringonça desdobram-se agora em esforços para tentar garantir que em caso algum se repetirão acordos como os dos últimos seis anos. O melhor mesmo era o resultado de as próximas eleições ser uma maioria absoluta que desse rédea solta ao PS, para fazer o que fez quando não teve travão à esquerda: uma política de direita. Como a dita maioria absoluta não é previsível (e já diz o povo: quem não tem cão caça com gato), ei-los a lançar em todas as direções a palavra de ordem do bloco central.
A forma concreta pode variar; pode ser formal ou informal, com ou sem participação no Governo, assumida às claras ou combinada em segredo, ou simplesmente com a aprovação dos Orçamentos e outra legislação estruturante, sempre convenientemente salpicada com este ou aquele episódio de encarniçada divergência para manter as aparências. Já vimos o filme. Marcelo deu o próprio exemplo, lembrando como assegurou a viabilização de dois Orçamentos de governos PS. Obteve, aliás, no mesmo período o acordo deste partido para, em 1997, realizar uma muito negativa revisão constitucional e aplaudiu as várias privatizações aprovadas pelo governo do Partido Socialista.
Os últimos seis anos permitiram acabar com dois embustes da política portuguesa: o de que as eleições legislativas são para escolher um primeiro-ministro, porque ficou claro que o que conta é a correlação de forças no Parlamento (e a possibilidade de entendimento entre as mesmas), e o de que há partidos com representação parlamentar aos quais é vedada a possibilidade de influenciar a governação.
É com esse património democrático reforçado que vão ocorrer as eleições a 30 de janeiro, cujos resultados vão determinar, em boa parte, as decisões futuras, a partir da correlação de forças na Assembleia da República. O resto vai depender em particular do posicionamento do Partido Socialista; se vai voltar ao regaço da direita ou se admite rever alguns dos seus dogmas na política económica, social, laboral e orçamental.
Parafraseando uma frase que é já (e justamente) célebre: o PS só não faz uma política de esquerda se não quiser. Até agora não quis!
(Opinião publicada na VISÃO 1497 de 11 de novembro)
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.