1974 é um marco histórico na história da oncologia e, em particular, na história – e ensinamentos – do cancro da mama feminina.
Betty Ford e, poucos meses depois, Happy Rockefeller, mulheres do presidente e vice-Presidente (designado) dos Estados Unidos da América, publicitaram que lhes tido sido diagnosticado cancro da mama e iriam seguir os tratamentos recomendados. Não foram as primeiras mulheres com alguma notoriedade a tornar pública a sua situação clínica (por exemplo, Shirley Temple Black tinha-o feito no ano anterior), mas a sua enorme visibilidade mediática (e a sua longa sobrevivência após o diagnóstico e o tratamento) foi fundamental para a maneira como a sociedade doravante encarou e enfrentou o cancro.
Na verdade, esta atitude teve um papel fundamental para que a sociedade começasse a falar abertamente em “cancro”, que conhecesse e reconhecesse a vantagem de adotar atitudes preventivas secundárias de diagnóstico precoce, que o investimento em recursos de diagnóstico e terapêuticos (sua existência e qualidade) seria rentável, que a investigação científica teria retornos a curto, médio e longo prazo, que o aumento do número de “sobreviventes” seria progressivo e constante, que seria necessário o apoio à reinserção social e laboral daqueles.
Assim, no cancro da mama, talvez aquela localização tumoral que tem “liderado” a História da “luta contra o cancro” no mundo, instituiu-se ou reforçou-se o papel do diagnóstico precoce, com organização de programas de rastreio organizados e estruturados, de âmbito populacional e universais para a população-alvo (de acordo com a melhor evidência científica de benefício-risco), sustentáveis, com critérios de qualidade explícitos.
Instituiu-se ou reforçou-se a necessidade de esquemas terapêuticos padronizados, a multidisciplinaridade na sua aplicação, a ênfase em tratamento atempado e de qualidade, em centros com experiência e recursos adequados.
Instituiu-se ou reforçou-se a capacidade de responder emocional, física, económica e financeiramente às necessidades dos doentes e seus familiares, no tempo e âmbito necessários à sua recuperação parcial ou total, individual e coletivamente, de modo a os reinserir com cidadãos úteis para a sociedade.
Permitiu que a investigação, seja ela fundamental, translacional ou clínica, se tornasse mais visível, com enorme avanço, por exemplo, na área do cancro hereditário.
Mostrou que é possível encontrar respostas para as várias áreas da prevenção ao longo da história natural da doença, desde a diminuição da probabilidade de surgir a doença (seja nos chamados “hábitos de vida saudáveis” seja n identificação de fatores de risco específicos) até à utilidade dos cuidados paliativos (hoje já com um significado diferente de “cuidados de morte”).
Todas as outras localizações tumorais têm beneficiado com esta história de progressivo e paulatino sucesso, desde aquelas que têm seguido um caminho paralelo, por exemplo, o cancro do colo do útero e o cancro colorretal, como aquelas mais “atrasadas”, por exemplo, o cancro do fígado, do ovário e do útero, do pâncreas, com maior dificuldade na prevenção primária e secundária, fatores fundamentais de uma maior letalidade. Mas estamos a falar, não de uma doença, mas de um conjunto de doenças que podem surgir em diferentes localizações e, mesmo, na mesma localização anatómica, diferentes fatores de risco, variados procedimentos diagnósticos, terapêuticos e de acompanhamento, diversas consequências e mecanismos de minimização ou resolução.
Ao falar-se em “literacia em saúde” estamos a enquadrar todas estas características que permitem uma melhoria da “informação”, que facilitam o “conhecimento” e conduzem a “sabedoria” na resposta individual e coletiva às necessidades particulares e gerais, a todos os níveis.
Ao FALAR-se e ENFRENTAR-se o “problema”, é mais fácil encontrar e implementar “soluções”. A cada vez maior visibilidade mediática sobre o cancro permite reduzir o medo aumentando o comportamento preventivo consciente das populações, celebrando as conquistas que a sociedade tem alcançado na prevenção da doença.
Que a história e o caminho feitos a nível do cancro da mama feminina, bem como de outros cancros, seja um exemplo de como podemos ultrapassar os problemas, individual e coletivamente, nas várias áreas da nossa vida.
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