A Europa está confrontada com uma segunda vaga de COVID que parece imparável, com recordes diários nacionais a ser sucessivamente batidos, com valores que têm chegado a 50 mil novos casos por dia. A França, por exemplo, comparando com o mês de abril passado, tem agora, nalguns dias, cerca de 20 vezes mais casos, o que ilustra bem a atual dimensão da pandemia.
Portugal não fugiu a esta alarmante evolução. O número de novos casos na última semana de outubro foi o quíntuplo do verificado no pico da primeira vaga, em que atingimos 759 casos diários na média semanal, de 30 de março a 5 de abril. Na passada semana e até sexta-feira, atingimos a média de 3717 casos por dia, com um record diário perto dos 4700 casos no último dia.
A evolução da gravidade dos infetados tem sido, todavia, muito menos significativa. Entre o pico da primeira vaga, em meados de abril, e a passada semana, tivemos um aumento de doentes internados de 44,5%, com uma existência média diária de 1795.
Em cuidados intensivos, a evolução tem sido ainda menos pronunciada. Só na passada semana ultrapassamos o pico da primeira vaga que era, em abril, de 245 doentes internados por dia, em média semanal. Estamos agora com cerca de 260 doentes em UCI o que representa uma evolução de apenas 6,1%. A nossa taxa de doentes críticos sobre os doentes ativos é hoje de 0,49%, o que nos posiciona razoavelmente bem quando nos comparamos com os países da EU a 15. Do mesmo modo, quando analisamos o peso dos doentes críticos por milhão de habitantes, o nosso valor é de 26,4, quando a Bélgica tem 91,7, a Espanha 51,4, a França 48,3, a Holanda e o Luxemburgo 33,3, a Áustria 29,1 e a Itália 27,3.
É por estas razões que ainda não entramos em rutura no SNS, mas com a caminhada imparável do vírus, lá chegaremos, inexoravelmente, se nada for feito para o travar.
Quanto aos óbitos, importa começar por referir que apresentamos sempre uma taxa de letalidade substancialmente mais baixa à da maioria dos países que constituem o coração da Europa. Atingimos os valor mais elevados em maio/junho (um pouco acima dos 4%) em claro contraste com países como a Espanha, Itália, França, Reino Unido, Holanda, Bélgica ou Suécia, que tiveram taxas de letalidade de 12 a 16%. Hoje estamos com uma letalidade já abaixo dos 2%, e aqueles países com valores entre os 2,5 e os 7%, o que ilustra bem a alteração verificada no impacto do vírus neste indicador. Haverá razões que explicam esta mudança, algumas do lado dos infetados, mais jovens e mais saudáveis, outras do lado dos profissionais e da curva de aprendizagem que traziam da primeira vaga, outras ainda do lado do próprio vírus, mais transmissível agora, mas menos agressivo. O caso português tem aqui uma especificidade favorável porque as nossas taxas de letalidade continuam a ser mais baixas do que na maioria dos países com que habitualmente nos comparamos.
Atingimos o pico dos óbitos, na primeira vaga, em meados de abril, com uma média diária de 30 casos. Mais tarde conseguimos reduzir esse valor, durante várias semanas para 3 óbitos diários, passando a 6 em meados de setembro. Na semana que passou atingimos a média diária semanal do pico da primeira vaga (30 mortes por dia), valor que vai naturalmente aumentar em função do aumento do número de infetados.
Chegou a hora do poder político voltar a intervir. O trabalho dos profissionais e o acervo de conhecimentos técnicos que são diariamente produzidos por instancias nacionais e internacionais, não são manifestamente suficientes para controlar a situação. Percebo que apontar erros de percurso ao governo e às autoridades de saúde pode ser salutar e construtivo, quando não é mera barganha política. Mas não foram essas falhas que nos conduziram ao cenário atual. O vírus tem os seus atributos e move-se a alta velocidade. Combatê-lo exige um novo conjunto de medidas de intervenção política que o consigam travar. O confinamento das populações, seja de natureza local, regional ou nacional, em períodos do dia ou nas 24 horas, deve ser urgentemente equacionado com determinação. Se isso não for feito (e convém ter presente que o seu impacto pode demorar mais 15 dias) os números continuarão a subir, os óbitos aumentarão necessariamente, os hospitais entrarão em rutura e os doentes não COVID ficarão irremediavelmente para trás. Isto será catastrófico para todos nós e vale mais um sacrifício de semanas do que a perda irremediável de um país. Aí chegados não há Economia que se salve…
No atual contexto parece-me que o recolher noturno obrigatório em todo o país, em períodos sucessivamente prolongados, se necessário, de uma semana, seria a solução menos penalizadora para a Economia e para as nossas vidas. Evitaríamos convívios noturnos, festas ou visitas familiares e de amigos, jantares prolongados, em casa, entre amigos, ou nos restaurantes, espetáculos atá mais tarde,etc.
E isto não traria especiais prejuízos à atividade económica, que manteria normalmente o seu funcionamento habitual.
O tempo urge como nunca, e cada dia de inação é fatal para muitas famílias e para o SNS. E os custos da doença sobem em espiral. Tenhamos esperança.