Uma chama-se Joana. Outra Laura. Há uma Berenice. E muitas que não me lembro já como se chamam. Algumas têm mesmo o meu nome. Há as que estudaram em sítios exóticos ou em lugares onde nunca estive, há as que têm várias profissões espalhadas pelo País e as que estão emigradas. Há umas solteiras, outras viúvas, todas à procura do amor. Nenhuma, claro, casada. Mas todas têm as minhas fotografias. São fotos que tirei de férias ou em trabalho, imagens antigas e recentes. São os meus olhos, a minha boca, o meu cabelo. As mesmas roupas e acessórios, a pose que eu fiz. Tudo ali tirado de contexto parece que já não me pertence. Olho para estas estranhas e não me revejo. Quem são a Joana, a Laura e a Berenice? Que vidas são estas?
Aparentemente, há uma fábrica destes meus clones. E eu só vou sabendo porque quase não passa um dia em que não receba o aviso, por mensagem ou numa conversa. “Tens mais um perfil falso.” E de vez em quando, a intrigante interrogação: “Olha lá, esta és tu?” Não sou. Olho para elas e sei que sou e não sou. E lá me vejo obrigada a explicar que não, não sou e a pedir por favor que denunciem.
Há um amigo virtual que fez da caça a estes clones um passatempo. Volta e meia, vem-me com um relatório. “Hoje já foram dois.” Ou então: “Esta semana, está calmo, ainda não apanhei nenhum.” E eu, que nunca perguntei que método usa, quase o imagino de caçadeira ao ombro, andando camuflado pela folhagem digital, a montar tocaias a estes espectros. Ou talvez ele ande de pistola de fumigar em punho, pulverizando venenos para transformar em pó estas baratas que saem de todos os buracos da internet. Acho que nunca lhe vou perguntar, para não estragar o mistério. E limito-me a agradecer esta vigilância quixotesca e gentil. Ainda há cavalheiros.
Há umas semanas, uma rapariga apareceu-me no Instagram para me contar que o pai andava há que tempos a conversar com alguém pensando falar comigo. A ela cheirou-lhe a esturro e veio confirmar comigo, que sou a que tem o meu nome no perfil e uma rodelinha azul, que passei a pagar à Meta como quem paga proteção à máfia para me distinguir de todas as que não sou eu. Passado algum tempo, um homem qualquer queria saber se era mesmo comigo que andava a trocar mensagens no WhatsApp. Não era, claro. “Logo vi”, respondeu ele. Mas a verdade é que não viu logo, porque pelos vistos ainda andou uns tempos naquilo. E eu sem fazer ideia de que ando para aí a falar com estranhos sabe-se lá a dizer-lhes o quê. Que direi eu a esta gente? Certamente, promessas de amor e sexo em troca de dinheiro. Não sei se é isto, mas é isto que imagino. A solidão e o desejo sempre foram bons engodos. E talvez ainda haja mais homens que continuam a falar com estes meus falsos avatares do que os esquemas que eu desmonto e denuncio. Nunca vou saber.
Encontrei hoje uma notícia com o George Clooney a dizer que não gostava de andar a fazer publicidade a tampões 20 anos depois de morrer. Sorri, porque achei que até era uma boa maneira de vender tampões. Mas tive um arrepio quando vi o Expresso a noticiar “o ecrã da vida eterna”, que promete não a salvação mas a criação de um thanabot, um sistema que, com a ajuda da IA, recria a imagem, a voz e até a personalidade de quem morreu para que falemos com os mortos sem mesas de pé de galo. Segundo o jornal, o mercado para esta tecnologia do luto valia cerca de 20 mil milhões de euros em 2024 e há previsões que dizem que poderá chegar aos 70 mil milhões em 2034. Pagamos muito para ser enganados.
Ontem, recebi uma avalanche de mensagens a alertar-me para mais um perfil falso. “És tu? Não és mesmo tu, pois não?” Logo depois de assegurar uma e outra vez que não, pensei: quem sou eu? O que é que faz com que eu seja eu nesta versão digital e desmaterializada? Como é que garanto a alguém que eu sou eu e as outras não? E se além das fotografias que me roubam, usarem também a minha voz e a minha imagem para dizer e fazer o que não disse nem fiz? “Estabelece com a família e amigos um código para confirmarem que és tu”, recomendou uma amiga, muito prática. Pelos, vistos agora precisamos de PIN para nos validarmos. “E quem não me conhece?”, perguntei eu, para a seguir me lembrar da tal rodela azul que eu pago. “Isso é só até conseguirem reproduzir esse selo”, contrapôs ela, mais cética.
E, se um dia, uma destas Lauras ou Berenices aparecer para tomar conta da minha vida? E se uma delas conseguir convencer toda a gente de que sou eu, melhor do que eu mesma? Poderá alguém inventar-me melhor do que me inventei? Poderá alguém ser mais convincente do que eu a representar o meu papel? E o que serei eu quando ninguém acreditar no que sou?
Se os avatares ganham vida, movidos a Inteligência Artificial, que versão de nós é aquela que reproduzem? Os mortos dos thanabots vivem para lá dos que lhes serviram de mote. Vivendo, constroem o que o original nunca foi? E como é que se impede que se apropriem da nossa cara, da nossa voz, dos nossos gestos e trejeitos e nos transformem numa marioneta digital? Isto já não é a pós-verdade. É uma crise existencial.
Duvido de mim. Os anos todos que andei para aqui a viver, a ler, a rir e a chorar, a ganhar tiques e manias, a desenvolver estilos e gostos, amores e embirrações podem estar a uns minutos (e muito gasto de energia e água em sistemas de IA) de uma reprodução automática. Terei ao menos direitos de autora sobre mim própria?