Passos Coelho fala quase todas as semanas e diz sempre a mesma coisa: é a ladainha das reformas, o discurso contra os imigrantes e o ataque a Luís Montenegro.
A repetição incessante dos mesmos temas cansa. Portanto, para que se continue a falar do que ele diz, tem de aumentar o volume, dizendo coisas cada vez mais chocantes. No fundo, imita os populistas, os originais que, nas suas palavras, prefere às imitações.
A expectativa para o próximo espetáculo de ressentimento e desespero − já agendado − não será o que vai dizer, mas sim como conseguirá chocar ainda mais e dizer coisas mais tremendistas sobre os mesmos assuntos.
Claro que repetirá a necessidade das reformas.
Nem eu nem ninguém ainda percebeu de que fala o homem quando fala de reformas. Diz que a economia precisa de crescer, que temos de ser mais produtivos e estou certo de que acha que temos de ter melhor saúde, educação, bons serviços públicos e que os impostos são muito altos − esqueçamos que disse que paga 42% de IRS, sendo impossível pagar essa taxa com o salário que afirmou ganhar.
O que nunca diz é como isso se faz. Chega a ser espetacular vê-lo falar de reformas com um ar de quem está a revelar o terceiro segredo de Fátima sem dizer uma palavra sobre como essas coisas se levam a cabo. Às tantas, está apenas a pensar na continuação das únicas que empreendeu: cortes cegos nas pensões e reformas, aumento de impostos, e continue o amável leitor, se for capaz.
Também trará a imigração, e vai ser um grande desafio conseguir ser ainda mais radical, porque o último discurso foi uma coisa de causar inveja aos trumpistas ou à extrema-direita alemã.
Não importa muito lembrar o quanto o seu discurso mudou neste tema – quem não se lembra de como ele dizia que a imigração era fundamental para o País. Para ser franco, nem neste nem em muitos outros. Digamos que Passos Coelho muda de opinião com bastante assiduidade. Estou convencido de que até de clube de futebol já deve ter mudado. Nada contra, claro está.
Neste campo, o crescendo da violência do discurso é impressionante. Desta vez, chegou ao ponto de enunciar a teoria conspirativa da grande substituição. Assim mesmo. Com um ar chalaceiro, disse que era connosco decidir se queríamos ou não que acabassem os portugueses e nos tornássemos um outro povo qualquer. Até disse que isso já tinha acontecido, enquanto chamava a atenção para as autênticas invasões de imigrantes que estão a acontecer na Europa.
Para não variar, não explicou que país tinha visto a sua população substituída nem apresentou números sobre a tal grande invasão. É normal que não o tenha feito, porque não há registo dessa substituição em lado nenhum, nem a imigração na Europa está a bater qualquer recorde.
Portugal, de facto, teve um enorme fluxo migratório nos últimos dez anos, mas há uma explicação simples para isso: necessidade. Necessidade de mão de obra para suportar o desenvolvimento económico (lembro que não há desemprego, logo não há imigrantes a mais; aliás, já se sente o impacto das limitações à imigração, porque há falta de mão de obra em muitos setores) e aquele detalhe de não termos portugueses suficientes para trabalhar e pagar a nossa Segurança Social.
Fico sempre na dúvida sobre se Passos Coelho sabe isso ou se quer apenas ser um populista autêntico ou uma imitação.
Foi curioso ninguém ter ligado muito a esta parte do discurso. Talvez seja uma prova de que o volume está a atingir o máximo.
E, claro, tivemos o ataque do costume a Luís Montenegro. Uma espécie de pináculo da intervenção do antigo primeiro-ministro.
Passos Coelho quer mesmo muito que continuemos a dar atenção às suas palavras. Dizer que Montenegro é imobilista aceita-se; imitador de populista e político postiço, vá que não vá; chamar-lhe prostituto sem carácter já é capaz de estar ligeiramente para lá das marcas. Um troll de rede social não faria melhor, e nem aquele ar de monge para lá do pecado transforma insultos em comentários aceitáveis.
O ressentimento e o desespero são maus conselheiros.
Passos Coelho não aceita tanta ingratidão. É o País que não tem vários feriados para o homenagear e agradecer aquilo que ele acha ter sido o seu extraordinário desempenho como primeiro-ministro. É o PSD que não o leva em andor para a presidência do partido. É Luís Montenegro que, de cada vez que fala, não explica que Portugal só não está na miséria porque teve Passos no poder.
Depois há o desespero. O ex-líder do PSD quer voltar a ser primeiro-ministro, mas a realidade teima em não o ajudar.
Não quer voltar pela via democrática normal, ou seja, candidatar-se à liderança do partido de que ainda é militante, porque pensa que isso fere a sua dignidade. Sabe também que o PSD se tornou um partido de pequenos caciques, liderado pelo duo dinâmico de doutorados em caciquismo Montenegro e Soares, que o têm hermeticamente fechado.
Por outro lado, não desconhece que a aliança que tanto deseja com André Ventura pode ser popular dentro do partido, mas os eleitores tradicionais do PSD rejeitam-na − as presidenciais não deixaram dúvidas sobre esse assunto. Ou seja, por muito que lhe custe, ele precisa mais de Ventura do que Ventura precisa dele. Mal ou bem, o populista genuíno tem mais votos do que ele.
Para piorar, a estratégia da direita Observador resultou no objetivo de radicalizar a direita, mas parece estar a falhar no de tomar o poder no PSD. O plano B dessa estratégia seria destruir o partido, mas também não está a correr bem.
Restaria lançar um partido (os mais fiéis até já lhe deram nome), mas Passos Coelho não quer, com certeza, ser um novo Santana Lopes.
Talvez sonhe com a intervenção do Ministério Público. Todos sabemos que é sempre uma possibilidade. Oh, se sabemos.
Seja como for, não é nada bonito o espetáculo que Passos Coelho anda a dar. Nem para ele, nem para a preservação da dignidade dos lugares que, bem ou mal, ocupou.
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