Durante séculos, o vinho foi muitas coisas em simultâneo. Alimento e liturgia. Comércio e paisagem. Identidade, celebração e conversa. Foi também, naturalmente, álcool. Mas talvez nunca tenha sido apenas isso. E é por isso que a pergunta merece ser feita sem ironia, sem nostalgia e sem condescendência: pode haver vinho sem álcool e continuar a existir vinho?
A resposta instintiva é conhecida. Para quem cresceu com vinho na mesa, retirar o álcool parece retirar uma parte da alma do produto. O vinho nasce da fermentação. É o resultado de uma transformação ao mesmo tempo biológica e cultural, em que a uva deixa de ser fruto para se tornar memória líquida de um ano, de uma terra e de uma decisão humana. Nessa visão, o álcool não é um acessório que se pode remover sem consequências. É parte da arquitetura do vinho, da sua textura, do seu aroma, da sua persistência e da sua verdade.
Mas há uma segunda resposta, menos sentimental e talvez mais inquietante.
Se o vinho é também um gesto social, uma linguagem de mesa, um modo de pertença e uma forma de participar num ritual coletivo, então o vinho sem álcool pode não ser a negação do vinho. Pode ser a tentativa, ainda imperfeita mas sincera, de preservar parte da sua experiência num mundo que está genuinamente a mudar.
E o mundo está mesmo a mudar.
Queda de consumo e solenidade excessiva
O consumo global de vinho recua. As gerações mais novas bebem de forma diferente, ou simplesmente bebem menos. Há mais atenção à saúde, mais consciência sobre os efeitos do álcool, mais interesse pela moderação como escolha e não como renúncia. E há, sobretudo, menos paciência para os códigos fechados que durante muito tempo mantiveram o consumidor comum à distância de um universo que às vezes parece falar apenas para os já iniciados.
O problema, neste sentido, pode não ser apenas o álcool. Pode ser também a solenidade excessiva com que, por vezes, se fala de vinho. A seriedade que funciona como barreira em vez de funcionar como convite.
O vinho sem álcool nasce precisamente neste cruzamento. Entre uma indústria pressionada pela queda do consumo e um consumidor que não quer necessariamente abandonar o vinho, mas quer poder escolher quando, quanto e como o bebe. Quer participar no brinde sem carregar o peso da intoxicação. Quer acompanhar uma refeição sem comprometer o resto do dia. Quer estar incluído sem ter de justificar a sua moderação.
O que procuramos quando levantamos um copo? Se procuramos apenas álcool, então talvez não precisemos de vinho. Mas se procuramos aroma, mesa, pertença, conversa, paisagem e memória, então talvez exista espaço para um vinho em que o álcool deixe de ser o centro da experiência
Isto é uma mudança cultural. Não uma moda.
Durante muito tempo, a abstinência era lida como recusa. Hoje é, muitas vezes, apenas gestão. Não beber álcool numa determinada ocasião deixou de significar rejeitar a convivialidade. Pode significar conduzir, treinar de manhã, tomar medicação, estar grávida, trabalhar à tarde ou simplesmente não querer beber. A novidade não é que essas pessoas existam. A novidade é que o mercado começou a perceber que elas não querem necessariamente água com gás enquanto os outros fazem um brinde.
Dito isto, a adesão ingénua também não serve.
Como preencher o vazio sensorial
Há maus produtos. Há operações de marketing que vendem embalagem sem conteúdo. Há vinhos desalcoolizados que ainda não convencem no copo, e que provavelmente fazem mais mal do que bem à categoria. A tecnologia evoluiu de forma notável, mas continua a enfrentar um obstáculo real: o álcool transporta aroma, volume, calor e equilíbrio. Removê-lo sem deixar um vazio sensorial é uma das tarefas mais exigentes da enologia contemporânea. Não está resolvido. Está a ser trabalhado.
Mas a dificuldade técnica não elimina a relevância da tendência. Confirma-a. Se fosse apenas uma moda passageira, a União Europeia não estaria a clarificar designações, categorias e regras de rotulagem. A regulação raramente precede a realidade. Normalmente chega quando ela já bateu à porta com insistência suficiente para não poder ser ignorada.
A questão central acaba por ser, como quase sempre no Direito e na vida, a da honestidade.
Um vinho sem álcool não deve fingir ser aquilo que não é. Não será, sensorialmente, o mesmo que um grande branco de altitude, um tinto velho do Douro ou um vintage que esperou 20 anos em garrafa. Mas também um espumante e uma aguardente vínica não são a mesma coisa entre si, e ambos pertencem, de modos diferentes, ao mesmo território cultural. A questão não é a pureza da categoria. É a transparência do produto.
Riscos e oportunidades
Portugal tem aqui uma oportunidade concreta e um risco real.
A oportunidade está em usar a diversidade extraordinária das suas castas, a acidez natural dos seus vinhos, as regiões frescas do interior e do litoral, os brancos, os rosés, os espumantes, para construir produtos com identidade própria e não apenas com ausência de álcool. O risco está em tratar esta tendência como menor ou como ameaça, deixando que outros países ocupem o espaço da inovação enquanto continuamos a discutir se a inovação devia sequer existir.
O vinho sempre mudou. Mudaram as talhas e as barricas, as castas autorizadas e os métodos de produção, os mercados, os rótulos, os gostos e a forma como se bebe. O que numa geração parece heresia pode na seguinte ser apenas mais uma categoria. A tradição do vinho nunca foi imobilidade. Foi continuidade através da adaptação.
No fundo, o vinho sem álcool obriga-nos a regressar à pergunta essencial. O que procuramos quando levantamos um copo? Se procuramos apenas álcool, então talvez não precisemos de vinho. Mas se procuramos aroma, mesa, pertença, conversa, paisagem e memória, então talvez exista espaço para um vinho em que o álcool deixe de ser o centro da experiência.
Pode haver vinho sem álcool? Pode.
Mas só valerá a pena se continuar a haver verdade.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.