Se conhecem os factos sobre a vida de Henrik Ibsen, o dramaturgo norueguês que ajudou a fundar o teatro moderno no século XIX, vão descobrir que as primeiras décadas de Ibsen foram marcadas por pobreza, ruína financeira, tumultos sociais e políticos, e dramas que lhe permitiram conhecer de perto a hipocrisia da elite do seu tempo, inspirando várias das personagens imortais que criou nas suas peças. Em suma, era um homem que sentiu na pele as agruras do mundo e a crueldade infligida pelos seus conterrâneos. Em desespero, abandonou a cena cultural norueguesa em 1864 e optou por um exílio voluntário de 27 anos, e foi só então que se tornou um dos dramaturgos mais aclamados do mundo ocidental, com uma abordagem inovadora das novas questões civilizacionais do seu tempo.
A peça Um Inimigo do Povo, escrita em 1882, é talvez uma das suas obras mais visionárias. Um médico descobre que a estância balnear da sua cidade está contaminada e constitui um risco para a saúde pública, mas, porque grande parte da cidade depende financeiramente dessa estância balnear, revelar a verdade acaba por o marginalizar por completo. É acusado num julgamento popular de ser “um inimigo do povo”. A defesa intransigente dos seus valores, pondo em risco o sustento da sua própria família, contrasta em absoluto com políticos e proprietários locais que estão vendidos ao grande capital e preferem ocultar a verdade. Nem o jornalismo escapa à crítica feroz. Quando um jornal local vê a sua sobrevivência ameaçada pelas revelações de Stockmann, escolhe estar do lado errado e não lutar mais pelos factos.
Vi a peça que se estreou em Lisboa no passado fim de semana, uma encenação de Christiane Jatahy, com o ator Wagner Moura no papel do médico Thomas Stockmann. Na verdade, a peça original de Ibsen é usada apenas como ponto de partida. Na nova encenação, é a própria audiência que se torna o júri e vai decidir se Stockmann é mesmo um “inimigo do povo” ou não e se poderá voltar a recuperar a sua credibilidade. Do lado oposto temos o seu irmão Peter, que está a expor os argumentos contra Thomas e semeia a dúvida na cabeça dos ouvintes: em que medida essa verdade irá contribuir de forma positiva para a comunidade? É uma verdade que merece sequer ser ouvida? Terá Thomas, na verdade, prejudicado a sua família?
Mas a encenação brasileira não foge de uma das questões mais perturbantes da peça, e talvez a mais fascinante de todas. O que sempre me intrigou na peça de Ibsen, além dos diálogos extraordinários e da integridade moral inabalável – que se mistura também com um egoísmo profundo – de Thomas Stockmann, é a sua acusação contra a maioria, contra as pessoas que preferem negar os factos.
Na sua exaltação, insulta-as e responsabiliza-as tanto quanto a elite corrupta que está a ocultar a verdade sobre a contaminação das águas. Culpa o homem comum por ter uma parte da responsabilidade, alimentando ainda mais a narrativa de que ele é um inimigo da democracia.
A peça brasileira evita o caminho mais fácil e não corta essas verdades incómodas proferidas por Thomas, nem pretende fugir da questão “a maioria não tem sempre razão”, mesmo se isso for democraticamente legitimado. O texto usa alguns argumentos de peso: “Quando Jesus foi crucificado, a maioria tinha razão? Quando Hitler foi eleito democraticamente, a maioria tinha razão?”
É muito mais difícil aplaudir Thomas quando aponta o dedo à audiência, mas é exatamente aí que Ibsen se torna, mais de um século depois, atual. Acaba por revelar as verdades do nosso tempo, seja as evidências científicas que apontam para crises de saúde pública, seja os alertas para os efeitos nocivos das redes sociais na saúde mental dos mais jovens, seja todos os “Stockmann” contemporâneos que continuam a enfrentar a mesma maioria que prefere não ouvir. E a coragem de discordar publicamente dessas maiorias raramente é recompensada em vida, muito pelo contrário, é castigada com o isolamento e o descrédito.
O triunfo da encenação de Jatahy e Moura é entregar o veredicto final nas mãos da audiência, precisamente a maioria, que terá de decidir se está, de facto, do lado da verdade ou do lado do seu próprio conforto. E hoje em dia, essa decisão raramente é clara e fácil de tomar.
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