Na semana passada discutimos o que a crise das instituições intermédias está a fazer à comunidade. Como a queda para a quase irrelevância dos sindicatos, associações, clubes e demais organizações cívicas nos deixa mais sós, mais divididos e o quanto isso nos torna vulneráveis face a todos os poderes.
Isolados, somos muito mais facilmente manipuláveis. Se isso sempre foi assim, hoje a capacidade de sermos atingidos por qualquer mensagem política sem contraditório − e de sermos colocados num círculo artificial de pessoas que a partilham − é gigantesca. Nunca na História se viu algo sequer parecido.
Numa altura como a que vivemos, a força das instituições democráticas seria mais necessária do que nunca. Sozinhos, inseguros e com medo do futuro, seria normal olharmos para os nossos representantes e confiarmos nas suas decisões. Já se sabe: nada disso acontece. A confiança nas instituições democráticas, no Estado e nos órgãos de soberania está nos níveis mais baixos de sempre.
Portugal é um bom exemplo, mas é apenas um, sem a relevância e o impacto global de democracias como o Reino Unido ou os Estados Unidos da América (caso ainda possamos incluir os norte-americanos neste grupo). No entanto, os sinais estão todos cá e chegaram a uma velocidade pouco habitual. O normal é que, quando lá chegarmos, seja em força e rompendo etapas intermédias.
A pergunta inicial parece evidente: há razões para andarmos tão desconfiados dos nossos órgãos de soberania? Não há dúvida de que as constantes campanhas, mais ou menos injustas, contra os detentores de cargos políticos têm contribuído de forma importante para essa descredibilização. Pior: têm gerado aquela sensação de que “são todos iguais”. Isto é particularmente perigoso, porque equipara o trigo ao joio. Já se sabe: o joio não tem vergonha de ser assim chamado, enquanto o trigo tem pouca ou nenhuma tolerância ao desprestígio.E, de facto, é o joio que tem prosperado.
Chegámos a um ponto em que toleramos pessoas − e até lhes damos vitórias eleitorais − cujo principal mérito é a capacidade de gerir máquinas partidárias não no sentido de as tornar eficientes, mas sim numa lógica de barganha de pequenos poderes. Chegámos ao ponto de ter um primeiro-ministro que não só recebia benefícios de particulares no exercício do cargo, como montou empresas em função do poder político que tinha ou viria a ter. Tudo no limite da lei, mas muito para lá das fronteiras da ética.
Não admira, aliás, que o típico “estado de graça” dos governos no início dos seus mandatos não tenha existido neste caso. E não tem que ver com o sucesso ou o insucesso das políticas implementadas ou anunciadas, nem sequer com a perceção da sua justeza. Não há qualquer entusiasmo com quem lidera o Governo; há, isso sim, uma sensação muito presente de que os seus líderes são bons a manter o poder pelo poder − e nada mais do que isso. Pior: votou-se neles já sabendo que havia um grave problema ético e que pouco se podia esperar da sua governação. Mas, lá está: “São todos iguais” e os “outros” já lá tinham estado.
Por injusto que seja para alguns deputados, a nossa Assembleia da República está cheia de gente que ou estaria no desemprego se não ocupasse aquele cargo ou é paga muito acima do que seria no mercado de trabalho, ou, simplesmente, é especialista nos pequenos jogos de poder numa qualquer concelhia ou distrital partidária.
Já era suficientemente mau termos pessoas normais no poder − eu prefiro homens e mulheres anormalmente bons a liderar o País e as instituições −, mas agora temos, digamos, pessoas abaixo do normal.
Olhamos para a nossa Justiça e vemos que os julgamentos, com as garantias normais do processo, foram substituídos pelos de tabacaria ou de redes sociais. Vemos juízes a serem perseguidos por outras magistraturas por simples diferenças de opinião. Esperamos décadas por decisões de lana-caprina.
A Justiça em Portugal vive um processo de degradação brutal há muitos anos e ninguém com poder − rigorosamente ninguém − está interessado em fazer o que quer que seja. Aliás, basta chegar ao poder para se assobiar para o lado, mesmo aqueles que antes denunciavam os problemas quando não o tinham.
Não desprezo a crise da verdade. Temos, aliás, um bom exemplo em Portugal. Quando se torna banal ouvir que “tivemos uns 50 anos péssimos” ou quando se estabelece que os últimos dez anos foram maus para o País − contra todas as evidências económicas e sociais −, e as pessoas que difundem essas redondas mentiras são premiadas com o poder, há algo de profundamente errado. O mesmo se diga da glorificação de quem tem sido agente da destruição maciça da nossa Justiça.
Não deve surpreender ninguém a rápida sucessão de governos por essa Europa fora, nem as mudanças de sentido de voto de um mês para o outro, de eleição para eleição. Não é por as pessoas não saberem que é preciso tempo para implementar políticas ou que não se pode fazer tudo de um dia para o outro. É, pura e simplesmente, porque perdemos a confiança nas pessoas que gerem as instituições − e, com isso, nas próprias instituições. Já aprendemos que leva muito tempo a construir uma instituição, mas basta um qualquer indivíduo para a destruir rapidamente.
A democracia não sobrevive sem confiança mútua. Tony Judt escrevia, em Um Tratado sobre os Nossos Actuais Descontentamentos, que quando os rapazes e as raparigas saltam à corda confiam em quem a faz girar. Se não confiarem, ninguém salta. É assim que a comunidade funciona; é assim que a democracia funciona.
Mais ainda: sendo a democracia o sistema em que se acredita que uma solução negociada é melhor do que um diktat, se perdermos a confiança no outro, o essencial deixa de funcionar. Sim, a polarização matará a democracia.
Não me sai da cabeça a sensação com que fiquei depois da cimeira entre a China e os Estados Unidos. Tudo naqueles dias pareceu uma vitória da ditadura sobre a democracia. Quando Xi dissertou sobre a armadilha de Tucídides, não se limitou a chamar a atenção para a ascensão iminente da China como desafiante do poder americano; enunciou também a superioridade do seu sistema político. O líder chinês exibiu Trump como um troféu de caça para nos dizer: “O vosso sistema descamba nisto.”
Depois olhamos para o crescimento do Reform UK e para o que se passa pela Europa e pelo mundo − e torna-se difícil não pensar que, se calhar, ele tem razão. Pelo menos, estamos a fazer tudo para lha dar.
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