Senti aquela vertigem quando percebi que tinha organizado toda a minha vida para que chegar a um lugar fosse apenas partir dele novamente. Estava sentado num avião entre duas cidades a que, durante anos, aprendi a chamar casa sem conseguir pertencer inteiramente a nenhuma delas. Dez anos fora. A sensação de estar sempre a chegar e sempre a partir.
Olhei à volta. A mulher ao meu lado tinha as mãos presas ao cinto. À frente, um homem fazia contas invisíveis no apoio de braços. Quando o medo entra num avião, torna-nos a todos parecidos. Durante aqueles minutos, ninguém pensa no destino. Pensamos apenas em chegar, seja aonde for. O avião balançava. A asa esquerda descia, depois subia. As luzes do corredor vacilavam ao ritmo da turbulência. E ocorreu-me que talvez não fosse o vento. Talvez fosse o país lá em baixo a sacudir-nos, a verificar os documentos, a decidir quem ainda lhe pertence.
O céu abriu lentamente as pálpebras de algodão. Entre elas surgiu Lisboa, espalhada em pequenos pontos de luz, como se alguém tivesse entornado uma constelação sobre a terra e ninguém se tivesse dado ao trabalho de a apanhar. O motor perdeu força, naquele zumbido manso de quem finalmente deixa de resistir. Descer é sempre uma pequena reencarnação: lá em cima fomos ninguém, sem morada, sem país, apenas um corpo sentado entre nuvens. Agora a cidade puxava-nos para baixo, devolvia-nos um nome, uma língua, um pedaço de terra que podemos dizer ser nosso. Por alguns segundos, não há passado nem futuro. Há apenas o chão. As rodas tocaram. Um som seco. O avião estremeceu uma vez. Palmas.
A mulher ao meu lado soltou o ar de uma só vez, como quem regressa à superfície depois de demasiado tempo submersa. Reconheci o som. O emigrante é isso: um suspiro adiado. Vive anos debaixo de água, num lugar que não é inteiramente seu, a respirar por uma língua emprestada, a racionar o ar como quem sabe que aquele oxigénio não lhe pertence e quando aterra na terra onde nasceu, o corpo esvazia-se de uma só vez, solta tudo o que esteve a segurar sem saber que segurava.
Há um instante muito preciso, logo após a aterragem, em que os ombros descem, a respiração abranda e pensamos: estamos em casa. Mas nunca se regressa verdadeiramente a casa quando se emigra. Renasce-se sempre num país ligeiramente diferente daquele em que morremos da última vez. Voltamos a algo que já não é exatamente aquilo que deixámos. Esta talvez seja a coisa mais difícil de explicar a quem ficou: o emigrante vive num lugar enquanto continua a pensar no outro. Respira num país com os pulmões cheios do outro.
É um luto que não acaba, porque o que perdemos continua vivo: as pequenas coisas continuam a acontecer sem nós. E depois voltamos, e o tempo apresenta a fatura toda de uma vez. O cabelo mais branco. O rosto com marcas novas. Começamos a fazer contas que nunca quisemos fazer. Se só regressamos duas vezes por ano, quantos abraços ainda nos restam? Quantas conversas à mesa? Quantos domingos banais, esses que, percebemos tarde demais, eram a própria vida?
Dizemos a toda a gente, e sobretudo a nós próprios: “É temporário.” Mais dois anos e volto. Repetimos a frase tantas vezes que deixa de ser um plano e passa a ser uma superstição.
Porque voltar também assusta. Temos medo de descobrir que o país que deixámos já não existe. Que as ruas continuam iguais, mas já não nos reconhecem. Que os cafés mudaram de donos, que os amigos aprenderam a viver sem nós, que as conversas seguiram outros caminhos.
Partimos porque tínhamos sonhos suficientes para abandonar o lugar onde nascemos. Mas chega um momento em que percebemos que nenhum chão nos reivindica por inteiro, que deixámos de saber, com inteira certeza, onde fica a nossa casa. Há uma estranha facilidade em aprender a partir. O difícil é reconhecer o momento em que já não sabemos chegar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.