Num país que diz precisar desesperadamente de professores, poucos já querem sê-lo − não por falta de vocação, mas porque a escola se tornou, em Espanha como em Portugal, um território de exaustão, descrédito e contradição. Entre a exigência impossível de excelência e a imposição de uma docilidade quase servil, o professor passou de pilar da sociedade a figurante de um sistema que exige tudo e devolve pouco. Afinal, separados por uma fronteira, mas unidos na mesma crise, que destino aguarda aqueles que ainda insistem em ensinar?
“Faltam professores porque poucos profissionais qualificados querem um trabalho cuja estabilidade e a segurança já não compensam a fadiga…” − escreve Sergio del Molino, no El País (3 de junho de 2026). A frase, lida deste lado da fronteira, não soa a estrangeira. Não requer tradução. Ecoa. E, nesse eco, reconhecemo-nos.
Há uma estranha fraternidade na decadência − uma irmandade silenciosa que une professores portugueses e espanhóis numa mesma condição de desgaste. Não se trata apenas de uma crise laboral, mas de algo mais profundo: uma erosão simbólica do lugar do professor na sociedade contemporânea. Como se, dos dois lados da fronteira, o mesmo pano de fundo tivesse sido pintado com tintas idênticas: desvalorização, exaustão e a lenta perda de sentido.
Em Espanha, como denuncia Del Molino, o professor tornou-se uma figura paradoxal: exige-se-lhe excelência, mas também complacência; profundidade, mas sem perturbar; exigência, mas sem conflito. Em Portugal, a gramática é a mesma, apenas com sotaque diferente. O professor é convocado a ser simultaneamente animador cultural, assistente social, psicólogo improvisado, gestor de conflitos e, por fim − se ainda houver tempo −, transmissor de conhecimento. Não raro, esta última função parece acessória.
A escola, dizem-nos, deve ser um espaço feliz. E ninguém ousará discordar. Mas, no zelo excessivo pela felicidade − tantas vezes confundida com entretenimento −, dilui-se a exigência intelectual, domestica-se o desconforto essencial ao pensamento crítico. Como escreve Del Molino, pede-se uma educação “que procura mais divertir do que ensinar”. Também entre nós, a palavra “exigência” começa a soar incómoda, quase suspeita, como se aprender implicasse apenas leveza e não também esforço, disciplina, frustração − esse músculo esquecido do crescimento.
Há, depois, a questão da autoridade. Não a autoridade autoritária, mas aquela que nasce do saber, da experiência e do reconhecimento social. Em ambos os países, essa autoridade foi sendo corroída por múltiplas frentes: por discursos que relativizam o papel do professor, por dinâmicas familiares que transferem responsabilidades sem corresponsabilidade, por políticas educativas feitas ao ritmo de ciclos eleitorais e não de gerações. Assim, o professor tornou-se, muitas vezes, um profissional sitiado − entre expectativas impossíveis e um respeito em declínio.
Nunca se exigiu tanto à escola e nunca se ofereceu tão pouco em reconhecimento. Queremos que a escola resolva desigualdades sociais, promova inclusão, forme cidadãos críticos, prepare para um mercado de trabalho incerto − tudo isto com professores exaustos, envelhecidos, muitas vezes precarizados no início de carreira e desmotivados no fim
Del Molino refere ainda a “hostilidade ambiental”. A expressão é certeira. Há, de facto, um ambiente que se degrada: nas salas de aula, onde a indisciplina se torna, em alguns contextos, estrutural; fora delas, onde o professor se vê exposto a julgamentos rápidos, a narrativas simplificadoras, a uma suspeita difusa. Em Portugal, conhecemos bem essa atmosfera: ela infiltra-se nas reuniões, nos corredores, nas notícias que surgem ciclicamente − quase sempre negativas, raramente celebrativas.
E, no entanto, persiste uma contradição fundamental: nunca se exigiu tanto à escola e nunca se ofereceu tão pouco em reconhecimento. Queremos que a escola resolva desigualdades sociais, promova inclusão, forme cidadãos críticos, prepare para um mercado de trabalho incerto − tudo isto com professores exaustos, envelhecidos, muitas vezes precarizados no início de carreira e desmotivados no fim. Em Espanha, fala-se de falta de docentes; em Portugal, ainda não se sente o vazio em igual escala, mas os sinais são inequívocos. A profissão deixou de ser desejável.
Talvez o ponto mais doloroso do texto de Del Molino esteja na ideia de impotência. Essa sensação amarga de que, apesar do esforço, o impacto é cada vez menor. Que se ensina, mas não se chega; que se fala, mas não se escuta; que se exige, mas não se legitima. É uma experiência que atravessa fronteiras. Um professor português reconhece-a num colega espanhol como quem se reconhece num espelho embaciado.
E, no entanto, seria um erro ficarmo-nos pela lamentação. Há ainda, em muitas escolas de ambos os países, professores que resistem − que reinventam práticas, que constroem relações significativas, que insistem na dignidade do seu ofício. Há projetos, encontros, experiências pedagógicas que contrariam a narrativa da ruína total. Mas essa resistência, por si só, não basta. Não pode continuar a depender apenas do heroísmo individual.
Se Espanha e Portugal são, como tantas vezes se diz, países irmãos, talvez esta seja uma oportunidade para reconhecer uma fragilidade partilhada e pensar em respostas comuns. Valorizar a profissão docente não é apenas uma questão salarial − embora também o seja; é um gesto político e cultural que redefine prioridades. É devolver ao professor o estatuto de mediador fundamental entre o mundo e os alunos.
Porque, no fim, o que está em causa não é apenas o destino de uma profissão. É o futuro de uma ideia de sociedade. E nessa aula − a mais exigente de todas − estamos todos matriculados, quer o saibamos quer não.