A guerra no Irão e o consequente conflito pelo controlo do estreito de Ormuz têm sido uma dádiva inestimável nos cofres das grandes petrolíferas. Com o preço do barril do crude disparado, nós, insignificantes peões de um jogo cruel, a fazer pela vida para encher o depósito do carro, assistimos quase enfadados aos anúncios dos resultados das multinacionais. Porque é assim que as coisas funcionam, o que se pode fazer?
No primeiro semestre deste ano, a Galp aumentou os lucros em 45% face ao semestre homólogo do ano passado, chegando aos 812 milhões de euros. A razão, explicou a empresa na segunda-feira, foi tanto o crescimento da produção de petróleo e gás natural no Brasil como “o aumento de 28% do preço médio do Brent, para os 92,3 dólares por barril”.
A espanhola Repsol foi ainda mais feliz na primeira metade deste ano, quase triplicando os lucros para os 2,2 mil milhões de euros, um aumento de 265%. Segundo o diretor da empresa, a Repsol vai continuar a “atender às necessidades da sociedade”, “reforçando a produção de combustíveis e aplicando descontos adicionais aos seus clientes num período crucial para o turismo espanhol”. Fica a promessa do desconto.
A francesa TotalEnergies aumentou o lucro em 73%, chegando aos 11,2 mil milhões de dólares. A empresa anunciou um segundo dividendo provisório a ser pago aos acionistas, com base nos lucros de 2026.
Os preços do gasóleo e da gasolina voltaram a subir na segunda-feira, mais boas notícias para os acionistas. E também para o Governo, que tem enchido os cofres do Estado com o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP). O ISP representa quase metade do valor que pagamos pela gasolina, sem contar com o IVA, que acrescenta mais uma camada. Este imposto é a maior fonte de receita do Estado entre os impostos especiais ao consumo.
Apesar dos descontos introduzidos no preço do ISP, o Estado acaba por ganhar mais por via do IVA, e o Partido Socialista tem feito propostas no sentido de o IVA passar de 23% para 13% nos combustíveis, algo que tem sido chumbado pela AD, pelo Chega e pela Iniciativa Liberal.
No meio desta telenovela, fica a faltar uma discussão séria sobre o papel do petróleo nas alterações climáticas. Essa agenda tem sido ultrapassada pelos acontecimentos prementes da geopolítica, quando deveria acontecer o oposto. O foco é num aumento da produção de petróleo noutras geografias ou num potente investimento em oleodutos terrestres, como alternativa à via marítima, gerindo-se a crise no imediato, em visão de curtíssimo prazo. A febre da urgência não se direciona para as energias mais limpas porque isso demoraria décadas. Mas há quantas décadas isso demoraria décadas?
À hora de fecho desta edição, Espanha e França continuavam a arder. Os fogos descontrolados na região de Gironda já tinham feito deslocar mais de 220 mil pessoas, a maior vaga de deslocados desde a II Guerra Mundial. Bordéus tem estado a receber milhares de refugiados vindos dos municípios vizinhos.
Em Espanha, os incêndios à volta de Madrid e em Ávila pareciam finalmente controlados. “Toda a Península Ibérica está a sofrer os efeitos de uma emergência climática”, avisou Pedro Sánchez. Tantos avisos, tão pouca ação!