Há qualquer coisa de obsceno na alegria com que se noticia uma excomunhão. Pior ainda é a antecipação. Como se nem os assuntos mais delicados pudessem ser poupados ao apetite que temos por sangue: aquele impulso de abrandar quando há um acidente na auto-estrada, ou a curiosidade em querer saber o que se passou afinal com os vizinhos de baixo. O homem moderno pode dizer “empatia” cinco vezes por dia. Mas dêem-lhe uma ferida e lá vai ele.
Foi assim, cheia de sangue, que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X voltou às notícias. O caso não é para menos. Se o mundo despreza a Igreja, desprezará ainda mais a parte dela onde julga confirmar a caricatura que sempre lhe fez. A FSSPX — alternando, conforme a ocasião, com o Opus Dei — cumpre assim a função preciosa de fornecer um catolicismo suficientemente sombrio para poder ser odiado sem problemas de consciência. É o chamado monstro útil. Uma categoria que dá imenso jeito para não ter de pensar.
Da imprensa secularizada, digamos assim, isto não surpreende. O mais revelador é quando o mesmo impulso aparece no jornalismo católico, ou, caso a distinção faça sentido, no jornalismo feito por católicos. João Francisco Gomes, do Observador, por exemplo, escreveu artigos certamente informados sobre o assunto. Mas, mesmo sabendo da espessura do caso, não resistiu à tentação de desenhar uma moldura activista para um drama espiritual. É um truque. E resulta.
Basta proclamar “ultraconservadores”, “ultratradicionalistas”, “rebeldes”, “grupo radical” — ou outros eufemismos para neonazis — e juntar uma boa fotografia para que, no imaginário progressista, a Fraternidade ocupe o lugar reservado aos irredimíveis. Embora revelem conhecimento da história — como o preço das garrafas de vinho comemorativo à venda durante as ordenações de passada Quarta-feira em Écône —, os textos de Gomes sobre o assunto não resistem a explorar essa necessidade quase física de se estar do lado certo, essa forma contemporânea de garantir que se está a salvo.
Veja-se o uso persistente da fórmula “padre de costas para o povo” como na frase: “(…) o antigo rito da missa, celebrado em latim e com o padre de costas para o povo (…)”. A expressão sugere logo uma certa atmosfera. Um enredo que reduz a liturgia à dicotomia marxista opressor/oprimido. O que é, para todos os efeitos, absurdo: seria como dizer que o fiel do banco da frente oprime o coitado que calhou ficar atrás dele. Mas, como é evidente, escrever “(…) o antigo rito da Missa, celebrado em latim e com todos na mesma direcção (…)” não produz exactamente o mesmo efeito. Não é contra o povo, mas com o povo. E, já que aqui estamos, a direcção é Oriente: isto é, Cristo. O rigor é uma coisa tramada.
Uma excomunhão dói a todos os católicos; ou pelo menos devia doer, impor reserva. Ou, não sendo possível reserva, ao menos parcimónia. Ou, não sendo possível parcimónia, ao menos justeza. Mas isto seria pedir demais a quem já decidiu previamente a função narrativa dos personagens. Quando Roma fala de cisma, fá-lo com pesar e precisão. Quando certa imprensa fala de cisma, fá-lo com vontade de cismar.
Convém ser preciso: a FSSPX reconhece o Papa, mas contesta certos pontos do Concílio Vaticano II e do magistério pós-conciliar. Está numa posição irregular, que as consagrações episcopais sem mandato pontifício tornaram muito mais grave. Mas isso não basta para reduzi-la, por vezes com a subtileza de um padeiro, a uma seita de lunáticos sedevacantistas.
Seria preciso querer compreender que muita gente encontrou junto da Fraternidade aquilo que não encontrava em paróquias “normais”. Seria preciso compreender porquê. E o que, exactamente, não encontrava. Isto não absolve a desobediência, mas ajuda a explicar a adesão — e quem não percebe a adesão não percebe nada. Por que razão um miúdo de vinte anos, nascido depois de todas as mudanças litúrgicas, se comove diante de uma Missa que parece vir de antes do seu nascimento? Por que razão uma liturgia menos explicada pode ser mais compreensível do que uma liturgia constantemente comentada? Por que razão o mistério pode ser, não uma parede, mas uma porta?
Seria ainda necessário explicar que reduzir a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X à Missa antiga é também outra forma de não perceber nada. A Missa antiga será sempre assunto, porque a forma da oração ensina a forma da fé. Mas a questão decisiva é anterior. A angústia principal da Fraternidade não é estética. É escatológica. Mais do que perguntar pela Missa dos nossos avós, a Fraternidade pergunta se a Igreja ainda afirma, sem pedir desculpa, que não é uma família simbólica onde cada um encontra o seu caminho interior, mas a Igreja fundada por Cristo, fora da qual ninguém se salva senão, misteriosamente, pela Sua graça e através dela própria.
O que está em causa é a convicção de que, depois do Concílio, a linguagem católica sobre as outras religiões, sobre a liberdade religiosa, sobre o ecumenismo e sobre a evangelização perdeu nitidez no ponto decisivo: a Igreja não existe para acompanhar espiritualmente a humanidade, mas para a arrancar à perdição.
A Fraternidade de São Pio X errou gravemente. Mas seria um erro ainda maior concluir que, por causa disso, tudo aquilo que ela sentiu necessidade de guardar fosse erro. Não era. Era aquilo que nunca devia ter sido tornado suspeito.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.