O sol derrete-se no mar. Viramos a custo as costas às manchas laranja e rosa com que se despede. Atravessamos a marginal e entramos no Centro Cultural da Nazaré. O ar está abafado. Sentimos o calor enquanto olhamos para as cadeiras vazias. Lá fora, as pessoas espalham-se por esplanadas, conversam em grupos nos passeios, sacodem a areia dos pés enquanto saem da praia. Quem virá sentar-se ali para responder à pergunta que o cartaz anuncia? “O povo ainda cabe na democracia?”, escreveram a vermelho sobre um fundo amarelo garrido, com um ponto de interrogação que se agiganta. E eu interrogo-me sobre quem virá, enquanto passo os olhos pelas fotografias e pelos cartazes do Estado Novo e da Revolução que ali estão expostos.
Em pouco tempo, começam a encher-se as cadeiras e depois as bancadas, ao fundo da sala, onde alguém se senta com um cravo gigante, apoiando-se nele como num cajado. Na primeira fila está um vidreiro que conheci numa manifestação da CGTP. Tem de entrar no turno das 3h da manhã, na fábrica na Marinha Grande, mas veio à Nazaré para me ouvir e para falar sobre as jornadas contínuas de dois meses sem folgas para ter direito a férias, sobre a temperatura dos fornos que na semana anterior o fez trabalhar num ambiente onde 60 ºC o queimavam, como o queimam por dentro os pedaços de sílica que se alojam nos pulmões, e sobre o ruído das máquinas que equivalem a estar oito horas seguidas a ouvir o barulho do motor de um avião a descolar.
Na outra ponta da sala, sentaram-se dois antifascistas presos pelo Estado Novo, que me falaram da felicidade do dia em que saíram de Caxias, tão bêbedos de liberdade que passaram horas a caminhar lado a lado, soltando vivas à Revolução, antes de se reconhecerem e perceberem que estavam juntos naquele novo caminho. Os sorrisos massacrados pelos anos abrem-se quando lhes falo das conquistas de Abril, mas as cabeças acenam afirmativamente quando sublinho o desgosto de quem vê a Democracia a falhar ao povo, cheia de proclamações que todos os dias se esvaziam mais um pouco.
Há também um enfermeiro português que trabalha há 40 anos no Minnesota, nos Estados Unidos, e vivia a dois quarteirões de Renée Good, a mãe morta a tiro pelo ICE (a polícia anti-imigração de Trump), enquanto sorria aos agentes e lhes garantia que não estava zangada com eles. Era colega de profissão de Alex Pretti, o homem que o ICE matou por defender com o corpo uma mulher que estava a ser atirada ao chão. Não sei se Pretti era sindicalizado, mas este emigrante português é delegado de um sindicato de enfermeiros no Minnesota e falou-me das suas lutas, no sotaque já arredondado pelos anos fora do País. Com o sorriso de quem sabe que nenhum direito é dado, explicou-me o desencanto com o Partido Democrata, afinal, tão capaz de se render aos interesses do capital como o Partido Republicano. Mas garantiu-me que não se rende nem desiste. Não é essa a fibra de que é feito. E as suas lutas já conheceram demasiadas vitórias para se deixar enganar pelas dificuldades.
Mais atrás, nas bancadas ao fundo da sala, um homem de barba grisalha curta e boina branca contou que vive num bairro municipal, onde se sente votado ao abandono, sem associações nem intervenção cultural. Falou das casas que se transformaram em camaratas, com homens que vêm de longe para trabalhar e não conseguem senão dormir ao monte. E queixou-se de que não vê o seu mundo nos canais da televisão portuguesa e, por isso, acostumou-se a procurar as notícias noutras línguas.
Também lá estava um funcionário público, indignado com as injustiças das nomeações e das cunhas, lembrando com brio o concurso que lhe abriu a porta para o trabalho. E sem perceber porque é que a esquerda não faz da luta contra a corrupção uma bandeira sua, uma bandeira de luta pela igualdade e pela liberdade que só regras justas e condições materiais dignas são capazes de sustentar.
Como quase sempre nestas coisas, a sala estava repleta de gente mais velha. Mas, aqui e ali, viam-se alguns jovens e dois ou três casais com crianças. Nenhum deles falou, nenhum deles perguntou. Mas chamaram-me a atenção duas mulheres mais novas, que assentiam com firmeza quando falei da desigualdade de género ou da mentira do acesso a uma Justiça demasiado cara, que tantas vezes deixa mães sozinhas sem ter como reivindicar os direitos dos filhos quando os pais se recusam a cumprir as suas obrigações.
Quase no fim, um homem mais velho fez a pergunta que nunca falha nestas conversas. “Estamos todos de acordo com o diagnóstico. Mas qual é a solução?”, atirou, provocador. Ri-me com a ideia de que o País e o mundo se resolveriam naquele instante, naquela sala abafada onde um punhado de gente renunciou à noite de verão para falar e ouvir falar de política. Mas o assunto é sério. E a ideia de que as palavras contam e estas conversas ajudam também. Por isso, olhei-o de frente e respondi com a convicção que tenho.
“Antes do 25 de Abril, era impossível ter Serviço Nacional de Saúde universal e gratuito, era impossível uma escola para todos num país de analfabetos, era impossível acabar com o trabalho infantil sem dar cabo da economia, estava fora de questão ter direito à greve, férias pagas e licenças por doença. Tudo o que era impossível foi feito. E durante alguns anos foi possível, até começar a ser desfeito. É preciso voltar a fazer tudo outra vez. É preciso voltar a fazer todas as coisas impossíveis que já fizemos e inventar novas coisas que nos dizem que são impossíveis para as fazer também”, disse, repetindo o que digo tantas vezes, mas sinto que tenho de continuar a dizer, porque após 40 anos a sermos esmagados pela ideia da impossibilidade e da escassez, precisamos de voltar a acreditar que somos tão capazes de construir um país melhor como o foram os nossos pais e avós naqueles anos depois de Abril.
A Democracia não é uma coisa que se faça em salões, com salas forradas a alcatifas, respirando o ar condicionado. A Democracia não é uma coisa dos outros, reservada a técnicos qualificados. Não é uma coisa que se despacha fazendo uma cruz dentro de um quadrado. Não é um cartaz nem uma cerimónia solene. Se deixarmos que se transforme nessas coisas, apodrecerá por dentro até se desfazer em pó. É já possível sentir o cheiro da putrefação. Um cheiro que não é culpa dos outros, dos que são seus inimigos e se têm dedicado a destruí-la por dentro e por fora, sempre que podem. É um cheiro que está nas nossas mãos quando acreditamos que não há alternativas, quando nos resignamos porque já votámos e o resto já não é connosco, quando desistimos e deixamos de votar.
Quando saio, a noite arrefeceu. Tenho de voltar a vestir o casaco que o calor abafado da sala me tinha feito despir. Mas venho quente por dentro, sorrindo ao pensar em todas aquelas pessoas que ali se juntaram para ouvir e falar. Os cínicos dirão que eram poucos, quando na marginal ainda tanta gente goza o final da noite de verão. Talvez sejam poucos. Mas há qualquer coisa que os agiganta e me enche de esperança.
Enquanto me deito no quarto do hotel, penso no operário que ainda não começou o turno da madrugada e comovo-me com a sua grandeza. Esta noite reconhecemo-nos todos nos nossos desgostos e falhanços, mas acima de tudo na nossa força e na nossa alegria. E essa coisa é que é linda.