equipa
nome feminino
1. grupo de pessoas que trabalham em conjunto para o mesmo fim
2. DESPORTO grupo de pessoas selecionadas para uma prova desportiva em que lutam em conjunto pela vitória comum
Mal termina um jogo da Seleção Nacional, começa outro campeonato: o das explicações. Em poucos minutos, multiplicam-se as análises, as certezas e os protagonistas: há quem atribua a vitória a um génio, há quem destaque a coragem do selecionador ou quem encontre a razão de um resultado que começou a ser construído muito antes do apito inicial.
Enquanto lia um artigo da revista Time, sobre o mito das seleções nacionais como expressão de uma identidade coletiva, dei por mim a pensar noutro mito: a necessidade de encontrar um herói para explicar uma vitória. E a psicologia ajuda-nos a compreender porquê.
O cérebro humano não aprecia particularmente explicações complexas, prefere histórias e, claro, todas as boas histórias têm um protagonista. É muito mais fácil acreditar que Portugal ganhou “por causa de alguém” do que aceitar que um jogo resulta de uma combinação de trabalho coletivo, preparação, estratégia, comunicação, confiança, liderança, talento, adaptação e, por vezes, até de alguma sorte.
Não quero, naturalmente, dizer que os grandes jogadores não fazem a diferença. Fazem, claro que sim e, por este e outros motivos, foram convocados. É certo que alguns têm uma capacidade extraordinária para decidir jogos e mudar o rumo de uma competição. O problema começa quando confundimos protagonismo com causalidade, sobretudo, porque estamos diante de um desporto coletivo. Quem marca o golo, muitas vezes o decisivo, passa a ser, irremediavelmente, o protagonista das capas da imprensa do dia seguinte. Mas, antes desse momento houve quem recuperasse a bola, quem ocupasse espaços, quem pressionasse o adversário, quem fizesse aquele passe, quem organizasse a equipa e quem preparasse a tática de jogo.
Quando uma empresa alcança resultados extraordinários, fala-se do CEO visionário. Quando uma universidade sobe nos rankings, procura-se um reitor excecional. Quando uma organização supera uma crise, destaca-se a figura do líder. A narrativa é apelativa porque simplifica o contexto e a realidade. Contudo, a investigação em psicologia organizacional tem mostrado que as grandes equipas dependem menos da presença de um indivíduo excecional e mais das condições que permitem aos seus membros coordenar esforços, confiar uns nos outros e colocar as suas competências ao serviço de um objetivo comum. É por isso que as equipas de elevado desempenho não nascem; constroem-se através de objetivos comuns, confiança, coordenação, sensibilidade social, igualdade na participação, comunicação eficaz e liderança capaz de criar condições para que o talento individual floresça ao serviço do grupo. É essa dinâmica — invisível para a maioria de nós — que transforma um conjunto de excelentes profissionais numa grande equipa. Não podemos esquecer que, tratando-se de uma equipa, o sucesso depende menos de quem se é individualmente e muito mais da qualidade das relações e do trabalho que conseguimos estabelecer entre todos.
É precisamente aqui que reside um risco de que raramente enxergamos: a tendência para atribuir sucessos de um coletivo ao talento de um único indivíduo pode alterar a forma como percebemos uma equipa e desvalorizar o esforço e o contributo de cada um que tornam esse sucesso possível. Um erro – diria quase imperdoável – é que começamos a olhar para os restantes elementos como atores secundários de uma história cujo desfecho atribuímos apenas a uma personagem principal.
O Mundial pode ensinar-nos algo importante e que vai além do futebol. As grandes vitórias — no desporto, nas organizações e na vida — raramente pertencem a uma única pessoa, mas às equipas que aprenderam a transformar talento individual em inteligência coletiva.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.