É uma banalidade da gestão política os Governos valorizarem as pequenas vitórias e tentarem reduzir a relevância de factos desagradáveis. Mas o Governo de Luís Montenegro é um caso de estudo de obsessão ideológica e de dependência da agenda política da extrema-direita populista, julgando que assim evita a drenagem de eleitores para essas bandas, capaz até de empolar problemas e desbaratar a celebração de boas notícias desalinhadas daquela narrativa extremista.
São exemplos de problemas inexistentes na sociedade portuguesa, que a direita resolveu transformar em temas relevantes da agenda legislativa, questões como a das bandeiras hasteadas nos edifícios municipais, a do uso de indumentária feminina de matriz islâmica fundamentalista, como as burcas, e a da lei sobre identidade de género, em vigor sem qualquer dramatismo desde 2018. Estas três bizarrices, uma das quais já vetada pelo Presidente da República, são talismãs de uma agenda identitária de direita que excita as hostes de Ventura, mas que são alimentados pela derrocada moral do PSD, que não é capaz de se distanciar destes temas.
O alinhamento entre o PSD e o Chega sobre a abertura de um processo de revisão constitucional para libertar a Constituição do “socialismo”, suspenso até dezembro com base num acordo claramente inconstitucional abençoado por Aguiar Branco, é o pináculo desta estratégia puramente ideológica para a qual os portugueses se estão inteiramente borrifando.
Sabe-se lá porquê, os eleitores do PSD, e se calhar até os do Chega, estão mais preocupados com a dificuldade crescente em ter médico de família e em arrendar ou comprar casa, do que com a bandeira comemorativa hasteada na Câmara Municipal lá da terra. Quanto ao “socialismo” constitucional, não inibiu os 10 anos de governação de Cavaco Silva, nem os impulsos de Passos Coelho para ir além da troika, salvo alguns cortes excessivos nas pensões de reforma.
Mas o Governo poderia estar agora a celebrar diversas boas notícias que ignorou ou até distorceu transformando-as em problemas. Estamos a falar designadamente de três exemplos de questões importantes, como a correção pelo INE dos dados sobre a população, dos resultados do Global Peace Index de 2026 e dos últimos dados de maio sobre o emprego.
Os novos dados do INE corrigiram previsões de população desatualizadas, feitas com base nos censos de 2021, tendo em conta dados mais recentes sobre a evolução do emprego, das receitas e inscrições da Segurança Social, dos dados sobre autorizações de residência de estrangeiros e sobre a frequência das escolas.
O aumento para 14% dos residentes estrangeiros é um grande desafio para as políticas de integração, mas demonstra que, sobretudo após a pandemia, Portugal se tornou numa economia atrativa, que não voltou a ter saldos populacionais negativos como nos tempos de Passos Coelho em que se verificou quer uma saída de trabalhadores estrangeiros quer uma nova vaga de emigração de portugueses. Temos hoje quase mais um milhão de trabalhadores do que em 2015, quando Montenegro deixou de ser o líder parlamentar apoiante do Governo de Passos Coelho.
Os imigrantes estão sobretudo na idade ativa e vieram limitar o envelhecimento provocando uma redução em 2 anos da idade mediana, de 47 para 45 anos, e permitiram colmatar a queda da população entre os 18 e os 65 anos, sobretudo na Grande Lisboa e no Algarve.
Já Leitão Amaro, no seu habitual tremendismo, veio falar do risco de uma evolução linear da imigração que levaria a 20% de população estrangeira ainda esta década e em 50% até 2040. E sem esperar pela inevitável correção dos dados sobre o PIB, veio lançar um anátema de fraude sobre as taxas de crescimento da economia, sobretudo do PIB per capita, nos últimos anos.
Foi divulgado, em junho, o Global Peace Index de 2026, indicando uma degradação global da situação de segurança associada ao impacto dos conflitos internacionais iniciados ou agravados nos últimos anos. Mas Portugal confirma um magnífico 7º lugar no ranking, sendo o 4º melhor colocado da União Europeia, antecedendo no top ten Singapura, Finlândia e Japão. A Espanha está em 27º, o Brasil em 124º e os Estados Unidos em 134º, entre os 163 países avaliados. Portugal está nos dez primeiros lugares desde 2016, mas a questão não é destacada por contrariar a paranoia securitária das intervenções de Luís Montenegro, André Ventura e Leitão Amaro, alinhados pelo modelo de perceções da CMTV.
Mas o caso mais flagrante de desacerto entre o discurso ideológico sectário do Governo e as notícias muito positivas é a obsessão de Rosário Palma Ramalho com a legislação laboral e a versão castigadora da PSU, ignorando o grande sucesso dos números do INE sobre o emprego divulgados esta semana.
O número total de trabalhadores empregados em maio de 2026 atingiu a dimensão nunca anteriormente registada de 5,366 milhões, são mais 146 mil do que há um ano, com uma taxa de população empregada de 66,5%, que é a proporção mais elevada desde fevereiro de 1998.
Os trabalhadores desempregados baixaram para 314 mil, e para encontrar uma taxa de desemprego inferior aos 5,5% de maio de 2026 também é preciso recuar até dezembro de 2001, quando governava António Guterres e muitos dos atuais jovens trabalhadores não tinham ainda nascido ou não sabiam onde era Portugal.
Em vez de celebrar este fantástico desempenho, que tem contribuído para o aumento dos salários reais ao longo dos últimos anos, sobretudo dos mais baixos, a ministra Palma Ramalho continua a falar na necessidade de aumentar a precariedade e penalizar os mais pobres e Leitão Amaro celebra as restrições à imigração que inviabilizaram a limpeza das florestas, a reabilitação de casas em Leiria e estão a assombrar o sprint final para salvar as verbas do PRR. A dificuldade em captar trabalhadores justifica aliás que, sem dificuldades para as empresas, o salário mínimo tenha passado de 505 euros em 2015 para 920 em 2026, e o salário médio de cerca de mil euros para quase 1700.
Em vez de discutir uma estratégia de qualificação e valorização do emprego, aumentando a competitividade das empresas e dando resposta aos desafios da IA, Palma Ramalho ufana-se dos pindéricos 6 mil vistos concedidos num ano através da Via Verde para a imigração.
Por insistir em fantasias populistas e retrógradas e nem celebrar os bons resultados do emprego, nem da segurança, Rosário Palma Ramalho é reincidente no prémio Laranja Amarga.
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