Foi com a justificação de que era “preciso utilizar muita velocidade” contra esta Croácia que Roberto Martinez explicou a escolha de Rafael Leão para o onze inicial, para o lugar ocupado, nos últimos dois jogos, por aquele que muitos consideraram dos melhores jogadores portugueses em campo, João Félix. Talvez por este ter dito, na conferência de imprensa, que preferia jogar atrás do ponta-de-lança, Martinez parece ter-lhe querido dizer que “se não gostas do sítio onde eu te ponho a jogar, então não jogas em lugar nenhum”. Se foi isto ou não que passou na cabeça do selecionador, provavelmente, nunca saberemos. Sabemos, isso sim, que para o espanhol, para o “segundo mundial”, como gosta de chamar aos jogos a eliminar, a única alteração que a equipa precisava era a entrada de Rafael Leão. De resto, Cristiano, Bruno Fernandes e Pedro Neto davam-lhe garantias de um ataque capaz de ferir a sempre bem organizada seleção croata, apesar de, à exceção da goleada ao Uzbequistão, sobretudo os dois primeiros poucas indicações terem dado de que o conseguiriam. Quanto a meio-campo, o disparate da troca dos Neves (João por Rúben) ficou resolvida logo ao intervalo do jogo contra a Colômbia, e na defesa não houve, e bem, mexidas.
O plano de jogo até começou por dar mostras de estar bem delineado e a resultar. Nos primeiros minutos de jogo, apareceu a tal velocidade que se esperava de Rafael Leão, mas as iniciativas do extremo do Milan acabaram sempre em perdidas de Bruno Fernandes e Cristiano Ronaldo. Em alerta pela entrada de Portugal a todo o gás, a Croácia desceu ainda mais as linhas, colocou o extremo direito a marcar Leão e, o velocista preferido de Roberto Martinez desapareceu do jogo até ao intervalo. De resto, Portugal controlou o jogo, sempre com muita posse de bola e muita concentração nas transições ofensivas croatas, não dando qualquer hipótese ao adversário. O problema é que também não lhe causou calafrios. Com Nuno Mendes e Cancelo a entrarem bem em zonas intermédias, Vitinha e João Neves a dar rotação à manobra ofensiva, faltava sempre quem desse sequência às poucas bolas que apareciam na área.
Caos com videoassistência
A segunda parte foi uma autêntica montanha russa. Com uma postura totalmente diferente, a Croácia regressou ao jogo com vontade de contrariar a supremacia portuguesa, com Kovacic a obrigar Diogo Costa a aplicar-se logo aos 48 minutos. Logo a seguir, com Rafael Leão a ver jogar, a Croácia fez o que quis do lado direito e Perisic aparece sozinho do lado contrário a fazer 1-0. E o segundo golo não surgiu logo aos 56, porque o VAR entrou pela primeira vez em jogo e descobriu um fora-de-jogo. Dois minutos depois, Leão teve um remate de fora da área à trave e, aos 60, Cristiano Ronaldo foi apanhado também em fora-de-jogo pelo VAR, evitando aquele que seria um belíssimo golo do empate.
Disposto a tudo para dar a volta ao resultado, Roberto Martinez fez quatro alterações de uma só vez, retirando de campo Vitinha, Bruno Fernandes, Neto e Cancelo para dar lugar a Bernardo Silva, Gonçalo Ramos, Francisco Conceição e Nélson Semedo. A equipa ficou totalmente desequilibrada, com um meio-campo desguarnecido, mas, ainda assim, um penalti descortinado pelo VAR num ligeiro agarrão a Renato Veiga permitiu a Cristiano Ronaldo restabelecer a igualdade aos 67 minutos. Mas os minutos que se seguiram foram dramáticos, com Diogo Costa a revelar-se outra vez decisivo ao evitar por três vezes o golo à Croácia. E aos 80, foi novamente o VAR a anular o segundo golo à Croácia. Só nessa altura Martinez voltou a equilibrar a equipa, retirando Ronaldo (que não gostou, viu-se na transmissão) para dar lugar a Rúben Neves. Então, sim, Portugal voltou ao jogo e acabou por conseguir o golo da vitória já no tempo de descontos, com Gonçalo Ramos a cabecear no meio de três defesas, após cruzamento de Rafael Leão. Um golo que demonstra que é possível ganhar sem as vacas sagradas em campo, mas que não evitou novo susto, já com mais de 100 minutos jogados, quando foi preciso o VAR vislumbrar mais um fora-de-jogo, num golo que levaria a contenda para o prolongamento, que talvez fosse um prémio justo para a Croácia e, sobretudo, para Luca Modric, um talento do futebol mundial que disputou ontem o seu último jogo em campeonatos do mundo.
Agora, venha a Espanha, às oito da noite da próxima segunda-feira.