O telefone começou a tocar com a sua voz rouca e lenta. Eu ouvi bem. Parecia uma velha cansada, uma gata viciada em tabaco de enrolar, uma bruxa com dentes de ouro, bêbeda. Ouvi bem e deixei-me ficar na cama, cadela-pachorrenta, a escutar aquele tocar, lá longe, ao fundo do corredor.
Nem por um breve instante pensei em levantar-me para atender. Mas como? Aquele objeto de antiguidade vermelho-paixão nunca tocava, e eu até o pensava avariado. Devia, pois, provocar-me pânico em vez de um inesperado consolo. Mas não. Eu deleitava-me.
De repente, lembrei-me da minha costureira. Seria ela a dizer-me que o vestido está pronto? Não. Não podia. A costureira morreu – quando ela morreu, eu perdi a vontade de desenhar vestidos, de construir aquela ilusão para dar de comer à minha vaidade com assinatura. Então, dei por mim boquiaberta pensando que a costureira era a minha continuação e que, por isso, parte de mim morrera com ela. Sim. Três dedos meus foram com ela para o caixão.
Caramba. Partes de mim morriam-me nas ventas por cada ring-ring. Ou seria rong-rong? Rum? A minha avó também morreu. A minha avó ligava cá para casa, para a minha mãe, para dizer Bom dia, alegria!, às seis da manhã, antes de a filha ir para a fábrica. Foram muitos anos nisto de “bons dias, alegrias” que sabiam pôr a minha mãe contente, e que a minha mãe fazia questão de partilhar comigo – como se a alegria fosse gomos de laranja; vitamina.
De repente, dou-me conta de que a minha perna esquerda foi parar ao caixão da minha avó. Estava agora na cama sem três dedos e perneta. Devia, seguramente, estar um corpo absurdo e horrendo de se ver. Ainda bem que havia lençóis para me tapar de tão feia – não sei, até hoje, se os espíritos têm olhos, mas preferia que não me vissem.
Mas, inesperadamente, lembrei-me de que podia ser a Elisabete. Sim. A senhora meiga-meiga dos seguros, com medo de perder o trabalho pouco seguro. Ou a Rosa, a cabeleireira. Eu gostava muito da Rosa. Toda a gente queria a resolvida Rosa a resolver as cabeças. A mim, punha-me tão bonita no espelho, com aquele babete para cabelos-dentes-de-leite que caíam da sua tesoura cirúrgica, que me julgava capa de revista. Fui sempre mais bonita e feliz quando havia a Rosa e a Elisabete.
Estão vivas. Elas estão vivas, mas dei por mim de boca aberta outra vez, pois matei-as mesmo assim, vivas. Como fui capaz? Por onde tenho andado? Que maus sítios tenho frequentado?
Então, desapareceu-me um braço e o cabelo. Estava agora maneta-perneta, sem três dedos e careca; e o telefone continuava a tocar.
Quem era não desistia. Resolvi puxar o lençol com o braço que me restava e escondi-me lá debaixo, fazendo um buraquinho para a voz rouca e combalida do telefone, de forma que continuasse a ter passagem para o meu ouvido. E continuava. O telefone era o fio condutor para o meu passado, o telefone levava-me ao encontro de quem, por necessidade ou descuido, eclipsara do meu presente. Eclipse, para mim, é verbo. Continuar com as nossas ruínas temporárias, mas ir, para onde, sei lá. Ir.
Contudo, sem dar conta dessa possibilidade, por uma velha ingenuidade de criança – que não faço ideia de como mantenho –, o telefone deixou de tocar e perdi o comboio para aquela chamada.
Por que raio não me levantei? Seria por ter só uma perna?
Qual seria o tamanho da minha fragilidade para não saber pôr-me de pé? Quereria eu aninhar-me com as minhas sombras? Como poderia sentir consolo e deleite com as minhas mortes?
Caramba. Agora, que vos escrevo e me debruço sobre este telefone avariado – e empoeirado –, mas que, por obra de milagre ou eletricidade, se pôs a tocar, percebo melhor o quão doloroso e diabólico é deixarmos as primeiras versões de nós.
Com a minha costureira fui Estilista. Com a minha avó fui Anjo – passei a gostar de matemática porque era bom dividir e multiplicar. Com a Elisabete fui Bolo, doce como os gomos de laranja. Com a Rosa fui Modelo Capa de Revista. E fui a 100%. Fui como o sol que brilha numa tarde de agosto de céu limpo. Fui, talvez, demasiado. Nunca gostei muito de agosto, pensando agora no fresco do escritório. E assim vou andando, a gostar sempre mais à distância, porque a saudade amplia.
Por exemplo, de tão perto que estou de mim, mal me vejo. Caio na mesma armadilha, mas ao contrário. Ponho tudo pequeno. Pequeníssimo. As minhas criações passam a ser umas coisitas. Desvalorizo os meus feitos, e não devia. Não devia porque escrever sem três dedos e só com uma mão é bem mais difícil. E correr só com uma perna para os sonhos da minha vida, leva mais tempo, naturalmente. E continuar a gostar de mim sem cabelo não é a mesma coisa que gostar de mim com cabelo – na realidade, é melhor.
Estaria aquele telefone, afinal, a chamar-me para eu ver o meu presente?
Tenho-me debatido com esse acontecimento, aparentemente banal, acontecido numa manhã destes dias. Pergunto-me também sobre o porquê de aquele telefone ter entrado no meu ouvido como uma velha cansada? Uma mulher. Telefone é nome masculino, mas quando o telefone toca, do outro lado, há quase sempre uma voz de mulher. A voz do cuidado. A voz adivinha, que costura, que remenda os rasgões. Uma mulher com sete vidas – uma gata.
Outra vez. Estaria aquele telefone, afinal, a chamar-me para eu ver o meu presente?
Creio que talvez façamos o mesmo com alguns livros, pela nossa tendência absurda de não saber ampliar o que está perto e vivo junto de nós. Quantas jovens escritoras temos lido? Quantos livros delas temos comprado? Quantas criticamos negativamente, inchados de uma perversidade atroz, sem cheirarmos sequer o miolo, que estava ali à mão, ao lado do falecido William, do falecido Tolstói, do falecido Dickens? O que temos contra as filhas das Rosas e das Elisabetes, que falam português? O que têm contra a neta da minha avó?
Já basto eu para a criticar. Já basto eu para a infernizar de tanto que lhe puxo as orelhas para ela dar o melhor que consegue. E depois, em defesa da verdade, bem sabemos que nenhuma de nós tem sete vidas, por muito que pareça.
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