Segundo dados estatísticos disponibilizados pelo portal Pordata, Lagoa é o terceiro concelho do País com maior consumo de água per capita, com 194 metros cúbicos por habitante. Os números, de 2023, mostram uma trajetória ascendente quando comparados com os 141 metros cúbicos por habitante de 2013. Estes dados são, claro, calculados como médias, o que torna possível a existência de grandes consumidores que mascaram baixos consumos da restante população. O município disponibilizou informação relativa aos dez maiores consumidores de água para o período de 12 meses a partir de fevereiro de 2025. Assim, podemos olhar, logo à partida para a Carvoeiro Golfe S.A. A empresa aparece duas vezes na lista (uma relativa ao Aldeamento Turístico do Gramacho e outra relativa ao Aldeamento Turístico Vale da Pinta) com um consumo combinado de mais de 155 mil metros cúbicos anuais. Trata-se de dois empreendimentos pertencentes ao Grupo Pestana na zona do Carvoeiro. Em 2024, o Grupo declarou lucros de 150 milhões de euros sobre as suas operações globais, 130 milhões de euros sobre as suas operações em Portugal e a Carvoeiro Golfe S.A. faturou no mesmo período 95 milhões de euros, tendo obtido um lucro de 7,8 milhões. Este tipo de atividades representa uma parcela diminuta do consumo de água em Portugal, pelo que “o problema”, para a Zero, “não está no seu peso agregado, mas na sua concentração territorial e temporal sobretudo em regiões como o Algarve, e durante os meses de verão, em que estes consumos competem diretamente com o abastecimento urbano e com os ecossistemas pelos mesmos recursos já escassos”.

Também na lista está a Ecovillage Investimentos Turísticos, Lda., o maior consumidor de água fornecida por esta entidade, com um consumo registado de cerca de 60 mil metros cúbicos por ano. Esta empresa é dona do Monte Santo Resort, uma estância de cinco estrelas no Carvoeiro com 133 unidades de alojamento, 544 camas, seis piscinas exteriores e uma interior. A página oficial do resort ostenta um selo de eficiência hídrica da Região de Turismo do Algarve por subscreverem uma carta de compromisso e se vincularem a 60 medidas de eficiência hídrica. Ainda assim, podemos fazer uma estimativa conservadora de um consumo anual equivalente ao de cerca de 1400 pessoas. A Ecovillage é uma empresa controlada pela ECS Capital. Trata-se de uma firma de investimento que foi comprada em 2022 pelo gigante americano Davidson Kempner Capital Management (DK). E este não é o único investimento da DK em Portugal. Um dos interesses da empresa americana no País é a plantação de abacates. O Projeto Agroflorestal das Herdades de Murta e Monte Novo, no concelho de Alcácer do Sal, consistia na plantação de abacates, uma cultura que implica altos consumos de água, numa zona em stress hídrico. O projeto recebeu a oposição de todas as 14 associações consultadas. A água foi uma das principais preocupações levantadas pelas associações ambientais e de agricultores. Pode ler-se no relatório de consulta pública: “O consumo proposto de água excede em dez vezes o necessário para a população de Alcácer do Sal, que já enfrenta escassez deste recurso.” Posteriormente, o projeto foi modificado, propõe agora a cultura de tangerinas e aguarda decisão, ainda que continue a merecer sérias reservas dos participantes no processo de consulta pública. À cabeça estão as preocupações com os recursos hídricos.
