Há notícias que lemos e esquecemos. E há notícias que, ao serem lidas, abrem dentro de nós uma porta para um lugar onde já estivemos. A morte de Yayoi Kusama, aos 97 anos, fez-me regressar imediatamente ao Museu de Serralves, no Porto, em 2024, à primeira exposição que visitámos da artista em Portugal. Entre espelhos, abóboras, redes e intermináveis bolinhas, talvez não soubéssemos então que estávamos a entrar no universo de uma mulher que aprendera a transformar a sua própria vertigem em arte e que, agora que partiu, nos deixa precisamente aquilo que nenhuma morte consegue levar: a memória de termos estado lá.
Há mortes que nos chegam como uma notícia. E há outras que nos chegam como uma recordação. A morte de Yayoi Kusama pertence, para mim, à segunda espécie. Ao saber agora que morreu, lembro-me de a ter visto viva nas paredes, no chão de Serralves. Lembro-me de nós diante daquela estranha e fascinante constelação psicadélica de pontos, espelhos, redes, abóboras, tentáculos, cores e repetições. Em 2024, entrámos na primeira grande exposição de Kusama em Portugal. Saímos de lá com a sensação de ter atravessado não propriamente um museu, mas uma outra dimensão do mundo.
Kusama morreu aos 97 anos, em Tóquio. Morreu no dia 14 de agosto, embora a notícia tenha sido conhecida apenas nesta quinta-feira, 27. Continuou a pintar até aos últimos dias.
Esta é a imagem que devemos guardar dela: não a mulher que desapareceu, mas a mulher que continuou a criar.
As suas célebres bolinhas nunca foram apenas bolinhas. Eram uma linguagem para o infinito, uma maneira de dissolver o corpo no espaço, de transformar a repetição em vertigem. Desde criança, Kusama dizia experimentar visões de pontos, luzes e padrões. Em vez de fugir deles, fez deles matéria de arte. Aquilo que poderia ter sido apenas sofrimento tornou-se pintura, escultura, instalação, poesia, performance.
E é aqui que a sua obra me parece tão profundamente humana. Kusama ensinou-nos que a arte não precisa de expulsar os fantasmas para ser luminosa. Pode aprender a conversar com eles. Pode transformar a obsessão em ritmo, a solidão em universo, o medo em cor.
Na exposição de Serralves, havia uma pergunta silenciosa que parecia acompanhar-nos de sala em sala: onde termina o indivíduo quando começa o infinito?
Era essa a grande lição de Kusama. Somos feitos de pontos, de pequenas marcas, de memórias que se repetem, de encontros que parecem insignificantes até ao dia em que percebemos que ficaram para sempre.
Nós estivemos ali. E agora, quando penso naquela exposição, nas fotos que guardo, percebo que também visitámos, sem o saber, uma espécie de despedida antecipada. Caminhámos entre as suas obras, enquanto ela ainda estava viva, enquanto ainda pintava, enquanto o seu pincel continuava a enfrentar o infinito.
Hoje, Yayoi Kusama partiu, mas as suas bolinhas continuam a multiplicar-se. Nos espelhos. Nas paredes. Na memória.
E talvez seja essa a mais bela forma de eternidade que um artista pode desejar: desaparecer do mundo sem desaparecer completamente de quem um dia parou diante da sua obra e, por alguns instantes, sentiu que o infinito também podia caber dentro de nós.