Há independências que se proclamam num dia e levam gerações a conquistar. Há 35 anos, a 24 de agosto de 1991, a Ucrânia declarou a sua independência da União Soviética. Em dezembro, mais de 90% dos ucranianos confirmaram-na em referendo. Trinta e cinco anos passados, talvez seja esta a ironia mais cruel da História ucraniana: um país que conquistou pacificamente a independência em 1991 tem hoje de a conquistar novamente pela força das armas, numa guerra sangrenta.
A Ucrânia nunca foi simplesmente uma província russa que o colapso soviético transformou num Estado. A sua História é muito mais antiga e europeia do que a narrativa construída pelo Kremlin permite admitir. Kiev era um grande centro político e cultural quando Moscovo ainda não tinha qualquer relevância. Durante séculos, o território ucraniano viveu no cruzamento entre a Europa Central, a Polónia, a Lituânia, o Império Austro-Húngaro, o mundo eslavo e o mar Negro. Reduzir a Ucrânia a uma extensão histórica da Rússia é uma tentativa política de reescrever a História.
O Holodomor permanece como uma das marcas mais brutais dessa relação. A fome provocada pelas políticas estalinistas entre 1932 e 1933 matou milhões e deixou na memória coletiva ucraniana a certeza de que Moscovo podia não apenas governar a Ucrânia, mas esmagá-la.
Depois veio 1991 e, com ele, uma promessa. Pelo Protocolo de Lisboa de 1992 e, sobretudo, pelo Memorando de Budapeste de 1994, a Ucrânia aceitou abdicar do enorme arsenal nuclear soviético que permanecera no seu território. Em troca, Rússia, EUA e Reino Unido comprometeram-se a respeitar a independência, a soberania e as fronteiras ucranianas. Kiev entregou as armas. Moscovo ficou com elas. Vinte anos depois, a Rússia anexou a Crimeia. Em 2022 tentou conquistar o país inteiro. Poucos episódios explicam tão bem a fragilidade das garantias internacionais quando não são acompanhadas pela vontade de as fazer cumprir.
Os 35 anos da Ucrânia independente também não são uma história de santos. Foram anos de corrupção, oligarquias e instituições frágeis. Viktor Yanukovych, Presidente entre 2010 e 2014 e próximo de Moscovo, acreditou que podia interromper a aproximação à União Europeia. Quando recusou assinar o Acordo de Associação, encontrou uma sociedade que já tinha decidido para onde queria caminhar. O Euromaidan não foi apenas uma revolta contra um Presidente. Foi uma escolha geopolítica.
É aqui que se encontra uma das razões essenciais para Putin querer subjugar a Ucrânia. Não se trata apenas da Crimeia ou do Donbass. Uma Ucrânia democrática, próspera e integrada na Europa é perigosa para o Kremlin porque demonstra aos próprios russos que um grande país eslavo pode escolher viver de outra maneira. Para Putin, perder a Ucrânia para a Europa significa perder uma parte essencial da ideia imperial da Rússia.
Zelensky tornou-se o rosto improvável dessa escolha. Não está acima da crítica, nem a guerra pode servir eternamente para justificar erros ou insuficiência das reformas. Mas há um facto impossível de apagar: quando tantos esperavam que Kiev caísse em poucos dias, a Ucrânia decidiu ficar de pé.
E mostrou que possui muito mais do que coragem. Tornou-se um dos grandes laboratórios tecnológicos da guerra moderna, desenvolvendo drones e soluções militares a uma velocidade que surpreendeu aliados e inimigos. Continua a possuir algumas das terras agrícolas mais férteis do mundo e capital humano altamente qualificado. A Ucrânia que um dia entrar na UE não será apenas um país à procura da proteção europeia. Poderá acrescentar poder económico, agrícola, tecnológico e militar à Europa.
A Ucrânia pediu formalmente para entrar na UE quatro dias depois da invasão russa. As negociações começaram em 2024. A adesão não pode ser uma recompensa sentimental pela resistência, mas o resultado de reformas profundas.
Aos 35 anos, a Ucrânia continua a conquistar a independência proclamada em 1991. E Putin conseguiu precisamente aquilo que pretendia impedir. Tentou arrancar a Ucrânia à Europa e acabou por convencer uma geração inteira de ucranianos de que o seu futuro só pode estar nela. Hoje, a Ucrânia não luta apenas para saber onde acabam as suas fronteiras. Luta também para decidir onde começa a Europa.
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