Na Era da Grande Umbra, não sobrou vivalma na Terra.
Não sobrou um único exemplar de ginkgo biloba nem uma barata, a árvore e o inseto mais resistentes do planeta. Todavia, a tantos milhões de anos-luz de distância e tanto tempo depois do eclipse original, em Seh2U_el, não existe recordação da Grande Umbra que preencha a memória dos Olhos-Vivos.
Eu sou um Olho-Vivo de Última Ordem. A vós contarei – não aquilo de que me lembro, uma vez que os Olhos-Vivos não têm lembranças –, mas o que trouxe para Seh2U_el, muito depois de tudo acontecer.
Em primeiro lugar, dir-vos-ei que pertenço a uma linhagem marginal e amaldiçoada, sou feito de escória de terras raras, o que guardo é limitado, mas importante, apesar de, segundo alguns antigos humanos, não servir para nada. Não ser útil. Não servir como alimento. Não servir como bebida. Não servir para prover à sobrevivência. Não à nossa, claro, à dos ditos humanos, do reino da utilidade e do utilitarismo.
– Isso serve para quê ao certo?
Em Seh2U_el, a atmosfera ainda é mais violenta do que a da Terra na Era da Grande Umbra: chuvas de meteoritos, ventos ciclónicos que arrastam poeiras radioativas e gases tóxicos, uma neblina rala que corre sobre poças de ácidos corrosivos, deixando a nu uma superfície desértica. Se eu fosse um ser vivo, diria que, em Seh2U_el, a atmosfera é letal. Todavia, não posso afirmar tal coisa: um Olho-Vivo é apenas Memória enviada pelos humanos, para longe do seu planeta moribundo de modo que, um dia, tudo possa renascer, ser replicado noutra galáxia, noutra dimensão do espaço-tempo. Não sabemos quando isso acontecerá, se é que alguma vez acontecerá.
A geração inicial de Olhos-Vivos, batizada de Primeira Ordem, foi concebida para levar nos seus núcleos as células de todos os animais e as sementes de todas as plantas, como uma espécie de arca de Noé intergaláctica. Outros foram programados para encontrar um local onde, reunidas as condições mínimas, a vida terráquea pudesse recomeçar do zero. Esses ainda andam por aí, pelas galáxias, de Andrómeda à do Sombrero, de NGC 1300 a M87, em busca do Paraíso Perdido.
Eu sou da casta dos Últimos, dos que esperam. Estamos aqui em Seh2U_el, abrigados em galerias subterrâneas, numa espécie de hibernação que dura há uma eternidade – embora esse seja um conceito filosófico – a tender para o infinito matemático, desde que se abateu a Grande Umbra sobre a Terra. Todos temos uma forma esférica, do tamanho de um ovo de codorniz ao de um ovo de ganso e, no espaço, podemos igualar a velocidade da luz. Contemos ainda, além do precioso núcleo, um estrato mínimo de informação generalista que nos permite, por exemplo, saber o que são e comparar o tamanho de ovos.
Devo então explicar-vos o que aconteceu num passado indefinível na Terra: um eclipse do sol estava anunciado. O eclipse duraria, nas zonas de umbra, devido às forças em presença, no máximo, sete minutos e vinte segundos. Os humanos juntaram-se aí, aos magotes, com óculos de cartão na ponta do nariz alguns, outros armados com telescópios, para ver a Lua a interpor-se entre o Sol e a Terra até devorar por completo a sua circunferência, um minuto, dois, três, e depois sete. E depois oito minutos. E depois horas, dias, meses, um ano, uma década, séculos e séculos. É isso a Grande Umbra. Uma impossibilidade pelas leis da Física. Só que ainda dura, tanto quanto sei.
– E o que é que eu sei?
Quando perceberam a irreversibilidade do eclipse, os humanos quiseram fugir. No entanto, não havia para onde escapar da escuridão que se abateu sobre todo o planeta. As plantas deixaram de fazer fotossíntese, as colheitas pereceram, o plâncton morreu, depois os animais e os peixes, e a catástrofe alastrou em todos os ecossistemas, da terra aos mares. A temperatura desceu e desceu e desceu até uma crosta de gelo cobrir montes e vales e a superfície dos oceanos congelar.
Dos animais, restou o esquilo-do-Ártico que conseguia reduzir os batimentos cardíacos de trezentos por minuto a um único batimento por minuto e hibernar, com uma temperatura corporal de zero graus, mais de oito meses debaixo de meio metro de gelo. Quanto acordou da hibernação, não havia alimento. Morreu.
Dos humanos, sobreviveram apenas os incrivelmente ricos e poderosos, os que tiveram forma de aproveitar algum calor do núcleo da Terra ou que conceberam e controlaram, com muito custo, fontes de calor e luz artificial. Essa elite, que descendia de gente estúpida e sem escrúpulos, que não sabia ler nem escrever, muito menos raciocinar, vivia sustida por aditivos de doron, a droga da inteligência, e dominava outros ainda mais estúpidos e sem posses para comprar a dose diária dessa substância. No entanto, mesmo esses sabiam que todos os recursos acabariam por se extinguir.
Foi Hikari-to-Kage, a Insigne Cientista, que idealizou o Projeto Olhos-Vivos. A princípio, tudo correu bem: os Olhos-Vivos de Primeira Ordem seguiram para o espaço. A ganância da elite, no seu afã de salvar a própria pele, veio então corroer as coisas. Exigiu a Hikari-to-Kage, sob pena de morte, a criação de Olhos-Vivos hospedeiros, para si própria e para os seus filhos. A Insigne Cientista aquiesceu, mas criou apenas um protótipo disfuncional, que explodiu e se despenhou no momento do lançamento, enquanto ela fugia.
Hikari-to-Kage passou o resto da vida em fuga, a roubar e a catar o lixo dos laboratórios, e com restos de escória, construiu-nos, um por um. Antes de morrer, ou de ser eliminada, enviou para o espaço, à revelia da elite mandante, centenas de Olhos-Vivos cujos núcleos contêm, desmaterializadas, algumas das maiores obras de arte produzidas pelos humanos. Um trouxe a Pietà de Miguel Ângelo. O outro, a Odisseia de Homero. Aqueloutro, A Deposição da Cruz de Caravaggio. Eu carrego o Requiem de Mozart. Calhou-nos vir para Seh2U_el que, ironicamente, significa “Sol” em proto indo-europeu, uma língua reconstruída por linguistas também eles há muito desaparecidos.
Quando os Olhos-Vivos de Primeira Ordem encontrarem o Paraíso Perdido, instalar-nos-emos todos lá, reconstituiremos o mundo natural e, conforme o sonho de Hikari-to-Kage, a Insigne Cientista, a humanidade reencontrará o seu destino solar, luminoso e próspero, a Era da Grande Umbra dará então lugar à Era da Grande Luz. Enquanto isso não acontece, as notas do Requiem ecoam, circulares, perfeitas, mágicas, nas entranhas de Seh2U_el.
– Serão os humanos capazes de salvar a sua humanidade?
Inventário do Eclipse é uma associação entre a VISÃO e o Clube das Mulheres Escritoras
