O futebol começou como um simples jogo, tornou-se um negócio global, na segunda metade do século XX, e, depois, já na atualidade, transformou-se num instrumento precioso para alguns países projetarem uma imagem internacional mais favorável e, dessa forma, ganharem prestígio e influência no conturbado xadrez geopolítico.
Grande parte da imagem que Portugal projeta hoje no mundo está diretamente relacionada com o futebol – não só pela força mediática global que a figura de Cristiano Ronaldo transmite mas também porque o futebol português passou a ser uma fonte quase inesgotável de exportação de talento e, ainda mais importante, de conhecimento. Portugal, neste momento, distribui jogadores talentosos para as grandes ligas europeias, mas igualmente treinadores de reconhecida competência para seleções e campeonatos menos sonantes, além de uma variedade de outros profissionais, que ocupam espaços relevantes, embora fora da atenção mediática, nas estruturas de grandes organizações desportivas. Quando se olha para as fichas técnicas de muitos clubes e seleções por esse mundo fora, é fácil encontrar portugueses: quer como adjuntos de treinadores estrangeiros, quer como fisioterapeutas, médicos, técnicos de guarda-redes, analistas de jogo, diretores desportivos e todas as outras posições que, nos últimos anos, foram criadas nas estruturas das equipas, por forma a profissionalizar e a especializar um desporto que se joga cada vez mais com maior velocidade, exigindo melhores atletas e uma atenção especial a todos os pormenores. Ao contrário do que sucede noutras atividades, esse êxodo crescente de talento e de conhecimento para o estrangeiro não tem feito secar a nascente, antes pelo contrário: com maiores oportunidades profissionais ao seu dispor, há cada vez mais jovens a praticar futebol e, em simultâneo, maior necessidade de técnicos e de especialistas, oriundos das universidades. Com o recrutamento alargado ao futebol feminino, em todas as dimensões, o mercado tem todas as condições para crescer e se desenvolver.
No seu plano estratégico a dez anos, aprovado no ano passado, e que pretende culminar com a organização tripartida do Mundial de 2030, em Portugal, Espanha e Marrocos, a Federação Portuguesa de Futebol mostrou-se ciente desta realidade. Por isso, preconizou objetivos ambiciosos para o desenvolvimento da modalidade, tendo em conta a evolução da sociedade e do mundo. O plano prevê, entre outras metas, a criação de infraestruturas em escolas e municípios, o aumento do número de praticantes de todas as idades e a ambição de fazer do País a “maior referência” em termos de formação de jogadores, treinadores, árbitros e outros agentes de futebol.
Mais do que prometer títulos ou vitórias desportivas – dependentes dos condicionalismos de um jogo coletivo, cujo resultado é sempre imprevisível –, o plano Futebol 2030 põe a sua ambição máxima em algo mais global e que está diretamente relacionado com a imagem do País: “Ser o maior veículo promocional de Portugal no mundo por via da qualidade do futebol nacional.”
Essa é uma ambição legítima e que, pelo exposto, considero possível de ser alcançada. Mas é também uma ambição que vai exigir muito mais do que um plano estratégico ou meia dúzia de declarações de intenções. Quer se goste quer não, o futebol é hoje muito mais do que um jogo. Na realidade, é responsável por grande parte da imagem internacional do País, e essa responsabilidade tem de ser assumida e enfrentada sem rodeios. Nessa medida, o combate à violência no desporto tem de ser uma prioridade nacional, muito acima dos interesses clubísticos.
Num País com uma quase total ausência de cultura desportiva, em que os níveis de sedentarismo estão entre os mais elevados da Europa, o futebol monopoliza todas as atenções e paixões, e com consequências perigosas: generalizou-se o hábito de que o insulto é normal, quando se discute “a bola” – como, aliás, foi avalizado por uma sentença do Tribunal da Relação de Lisboa, que considerou que as ofensas no “mundo do futebol” pertencem a uma classe de gravidade inferior a todas as outras. Também se cimentou o conceito de que “vale tudo” para ganhar, desde a batota à intimidação física do adversário, e pior, ainda, generalizou-se a ideia de que até é “legítimo perder a cabeça”, quando se trata de futebol.
O futebol deixou, definitivamente, de ser só um jogo. No nosso caso, tornou-se indissociável da imagem que projetamos como País para o resto do mundo. É bom que se tenha consciência disso, no momento em que se inicia um dos campeonatos, por aquilo que já se viu, mais disputados e aguerridos de sempre. Tudo o que ocorrer dentro e fora do relvado irá, necessariamente, marcar a nossa imagem no exterior.
OUTROS ARTIGOS DESTE AUTOR