Sim, é com esta brutalidade, não apenas de falta de elegância, como de argumento, que me sito face às notícias que saíram sobre a saída das obras de José Saramago da lista de obrigatórias no ensino secundário, tornando o autor opcional. O que se encontra em consulta é o resultado de um trabalho técnico, diz o ministro, procurando relativizar e retirar todo o quer peso político de uma eventual decisão.
Mas a decisão, se vier a ter lugar, é profundamente política, naquilo que a palavra tem de pior. E há tradição neste campo. A (má) memória vem desde tempos distantes, quando, em 1992, um subsecretário de Estado da Cultura de um governo de Cavaco Silva censurou a indicação de Saramago para o Prémio Literário Europeu. O governante alegou que a obra ofendia a moral cristã, gerando forte polémica, nacional e internacional, levando Saramago a exilar-se em Lanzarote. Sem qualquer estranheza, esse governante veio a ser porta-voz do Chega, função de que se demitiu em janeiro de 2020.
Mas hoje, a situação não é tão frontal, como fora com Sousa Lara. A afirmação incontestável que Fernando Alexandre terá feito sobre José Saramago, dizendo que ele “é obviamente um escritor de referência”, mas “felizmente Portugal tem muitos”, é de um brilho cristalino, revelando uma hipocrisia tremenda por detrás de uma aparente simples constatação. De facto, é verdade, quer a afirmação que diz que Saramago “é obviamente um escritor de referência”, tal como também não é menos verdade que, “felizmente Portugal tem muitos”. Com uma verdade, dita da forma certa, mentimos com o que julgamos esconder.
E, gostos postos de lado, clubismos literários e grupos de fãs, o que é factual, e que mereceria um tratamento altamente diferenciado é simples: não apenas Saramago é, por todo o mundo, considerado um dos grandes escritores da nossa época, como Saramago é o “nosso” Nobel, com o que isso tem de único. Eu até poderia não gostar da literatura deste escritor, mas o seu reconhecimento implica um lugar especial na nossa História da Literatura e, naturalmente, no nosso sistema de ensino.
Podia ser um escritor ligado à Direita, e eu continuaria a achar que o seu lugar era inquestionável. E isso deve-se ao facto de ser um motor de divulgação e valorização da língua e da cultura, mas também por ser identitário, motivo de orgulho.
Um escritor da escala de Saramago é representativo do pensamento de uma época e, assim, representa-a. Goste, ou não, Saramago é imagem do mundo que eu sou, tal o é de todos nós.
Espero, como qualquer cidadão português democrata que não seja uma simples relação direta, como se uma simples equivalência algébrica se tratasse: se o PCP é um partido em fase muito negativa, quase a desaparecer a nível parlamentar, então, Saramago, esse escritor comunista maldito, também será banido.
Só este pensamento enjoa-me. Que náusea!
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