Uma das convicções mais firmemente enraizadas nos doentes (e por vezes nos médicos que deles tratam) é que quanto mais informação se tiver sobre a nossa saúde, melhor. Neste pequeno texto vou tentar convencer os leitores do contrário, defendendo que informação clínica obtida de maneira descontextualizada pode induzir acções prejudiciais aos pacientes.
Soa a anticientífico, não é?
De facto, a procura de informação clínica é a razão pela qual os médicos requisitam testes diagnósticos e sem dúvida que muita desta informação é crucial para a resolução dos problemas clínicos, na definição do que está errado e no que fazer acerca dessa condição ou problema. Mas muita informação pode também ser confusa, desviar do problema central e provocar ansiedade marcada nos doentes.
Um exemplo: num estudo realizado em 1.400 doentes americanos (NEJM 1996;334:1441-47) com múltiplos problemas clínicos necessitando de internamento hospitalar, procurou-se reduzir precisamente a readmissão hospitalar – um problema grave nestes doentes, já que mais de metade volta ao hospital nos 6 meses seguintes – através de uma intervenção preventiva complexa. Esta população de alto risco foi aleatoriamente dividida em dois grupos de iguais dimensões: no 1º (grupo intensivo), fizeram-se reuniões antes da alta com o médico assistente e um enfermeiro, em que se revia tudo o que tinha acontecido durante o internamento e se projectavam as semanas seguintes em termos de apoio domiciliário (visitas semanais do médico e contactos 2-2 dias do enfermeiro), conferição dos medicamentos com identificação de potenciais efeitos adversos e interacções medicamentosas.
Isto só pode ser bom, certo?
Pois bem, quando comparado com o outro grupo em que os cuidados foram os habituais (tratamento standard), o que se verificou foi que o estado de saúde dos doentes sujeitos à intervenção não foi melhor e a taxa de admissões hospitalares não só não desceu como subiu! Por outras palavras, a intervenção falhou espectacularmente.
As razões são difíceis de determinar com absoluta certeza, mas o que parece ter acontecido é que os profissionais de saúde responsáveis pelo grupo intensivo tiveram mais oportunidades de obtenção de informação clínica (estes doentes tiveram mais 70% de consultas do que os outros), detectando-se mais problemas e tratando-se estes mais agressivamente, daí a maior taxa de internamentos. Por outras palavras, mais informação produziu mais problemas, não melhor saúde.
Tudo isto vai ao arrepio das nossas convicções. Afinal, como é possível que mais informação não nos permita resolver os problemas por ela detectados?
É que, em muitos casos, o benefício da potencial intervenção são bem menores que os danos por ela provocados. A informação clínica deve ser justificada por factos bem determinados, habitualmente provenientes da história e dos sintomas que os pacientes apresentam, para que e sua interpretação seja a mais correcta possível. Um mesmo resultado de um qualquer teste em dois doentes diferentes tem interpretações completamente díspares.
Outro exemplo do perigo de informação descontextualizada: com certeza que os leitores devem estar lembrados de uns anúncios aparecidos há uns tempos atrás que diziam algo como: “Tem medo do cancro? Então venha fazer uma tomografia computorizada de corpo inteiro”. Isto mais não é que uma medida preventiva em oncologia, baseada no facto que a detecção seja de que cancro for numa fase mais inicial é sempre muito melhor em termos do prognóstico dos doentes do que numa fase avançada (quando o tumor se manifesta com sintomas, por ex.).
Esta ideia surgiu os EUA, numa perspectiva de negócio. Os primeiros radiologistas a fazerem estas tomografias computorizadas acabaram publicando os seus achados e sabem qual foi a notícia mais interessante? Ninguém é normal! Isto é, todos temos algo de anormal.
A lesão mais frequentemente detectada nestes exames na América era o nódulo solitário do pulmão, lesão inquietante, já que pode significar cancro. Mas como a maior parte deste doentes nem sequer fumavam, então não devia ser cancro. O que fazer, nestes casos? Uma broncoscopia, uma biópsia (com todos os riscos inerentes), uma ressonância a todos os pacientes? E se o doente for fumador, ainda assim na maior parte dos casos não se trata de cancro, mas a probabilidade é maior. Avançamos nestes casos para testes mais invasivos, ou não?
Esta incerteza na decisão é típica de uma prática clínica moderna e com grande avanço tecnológico, em que temos testes cada vez mais precisos que descobrem anormalidades sem qualquer significado clínico, mas que podem promover intervenções inúteis (e por vezes perigosas) sem qualquer resultado positivo em termos da saúde dos doentes.
O nosso conselho é de consultar o seu médico se houver algum problema e ser conservador na obtenção de informação clínica irrelevante para o problema em causa.