“O médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe.”
É uma daquelas frases que persegue qualquer estudante de Medicina desde as primeiras aulas de anatomia. Ao fim de quase cinco anos de curso, dou por mim a encará-la de uma forma radicalmente diferente. Quando Abel Salazar proferiu esta sentença, decerto não imaginava a dimensão que a sua figura de médico, cientista e artista viria a assumir. Muito menos imaginaria que, um dia, a sua curiosidade intelectual pudesse ser confundida com uma obrigação de tudo saber, tudo fazer e tudo acumular.
Durante muito tempo, confundi este ideal com uma exigência. Perante a mística do homem de múltiplos ofícios, criámos a ilusão de que a excelência passa por uma acumulação insaciável de papéis. Convencemo-nos de que, para não sermos “apenas médicos”, temos de preencher cada espaço em branco: dominar as artes, ler as obras clássicas todas e ainda publicar nos stories a corrida de domingo de manhã. Transformámos a curiosidade intelectual de Abel Salazar numa maratona performativa.
Não me interpretem mal. Assumir diferentes cargos e abraçar vários projetos é uma forma belíssima de enriquecer e de nos cruzarmos com pessoas que, de outra forma, nunca conheceríamos. O problema começa quando essa procura deixa de nascer da curiosidade e da vontade de fazer a diferença e passa a ser alimentada pela necessidade de provar algo. O erro não está em termos uma vida cheia, mas em esquecermos que o verdadeiro propósito dessa azáfama não é colecionar títulos; é colecionar histórias.
Ontem, no rescaldo de mais um aniversário do nosso Serviço Nacional de Saúde, dei por mim a cruzar este nosso dilema moderno com o legado de outra figura incontornável: António Arnaut. Arnaut não se limitou a desenhar um sistema; teve a audácia de trilhar um caminho improvável, desbravando-o com a teimosia de quem vê o futuro antes sequer de ele existir. A sua maior obra não foi apenas o que deixou feito, mas o facto de se ter assumido como um farol dessa visão futura, deixando-nos o convite constante para sermos, também nós, parte da sua construção. Ao confessar que o SNS foi o seu “mais belo poema”, não falava de métricas poéticas rigorosas, mas de portas abertas.
Se a frase de Abel Salazar nos empurra para fora dos manuais, a visão de Arnaut recorda-nos o palco principal onde essa humanidade se deve materializar. Uma consulta, por exemplo, não começa no instante em que o doente se senta e verbaliza a sua queixa. Começa antes disso. Um olhar cabisbaixo, um andar arrastado ou uma camisa meio desabotoada podem contar a história de uma vida antes sequer do primeiro “bom dia”.
São sinais de uma humanidade que se apresenta diante de nós e que exige atenção. O médico perfeito não é aquele que debita diretrizes clínicas de cor, assina a prescrição com um rabisco elegante e sai a correr para o seu próximo compromisso. É aquele que compreende que o doente traz consigo uma vida feita de outras facetas, e que o consultório é o lugar onde todas elas desaguam.
É aqui que as visões de Abel Salazar e Arnaut se encontram. A multidisciplinaridade não deve ser uma medida daquilo que conseguimos acumular sozinhos, mas a nossa forma de estarmos disponíveis para o mundo.
Nesta obra inacabada que é a saúde pública, não precisamos ter a presunção de escrever uma estrofe inteira sozinhos. Basta-nos a disponibilidade para ir construindo o poema de Arnaut, verso a verso.
Podemos ser esse verso através da empatia. E não me dirijo apenas a quem veste uma bata branca. Dirijo-me a qualquer pessoa que, no seu dia a dia, possa ser o colega de trabalho que escuta o outro, o amigo que deixa sempre a palavra certa, ou o familiar que repara no detalhe que escapou a todos.
Tornamo-nos inteiros quando paramos para ouvir. Talvez seja esta a maior lição que podemos retirar de ambos: não precisamos de nos multiplicar para sermos mais, nem de carregar todo o peso do conhecimento sozinhos. Precisamos, antes, de não deixar passar a oportunidade de olhar para quem está diante de nós e compreender que, por detrás de cada aparência, existe uma história à espera de ser lida. E que cada vez que a escutamos, estamos, no fundo, a escrever mais um verso. Ou, quiçá, a plantar uma oliveira.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.