Há temas que não deveriam dividir Lisboa. A segurança é, seguramente, um deles.
Não porque não deva ser discutida. Deve. Nem porque não deva ser exigida. Deve, e com firmeza, porque a segurança de quem vive em Lisboa, de quem aqui trabalha e de quem nos visita é demasiado importante para ser transformada numa trincheira política.
É por isso que considero legítima a preocupação de Carlos Moedas, que tem vindo a manifestar, relativamente à segurança na cidade. Um presidente de câmara tem não apenas o direito, mas o dever, de exigir maior presença policial, capacidade de prevenção e condições adequadas para que as forças de segurança cumpram a sua missão.
Essa preocupação deve ser ouvida. Mas deve, também, ser enquadrada com rigor.
Lisboa não vive uma situação de insegurança generalizada. Os dados provisórios divulgados pela PSP relativos aos primeiros oito meses de 2026 mostram uma realidade que aconselha serenidade: na área do Comando Metropolitano de Lisboa, a criminalidade geral aumentou 2,9%, enquanto a criminalidade violenta e grave diminuiu 0,4%. Parte do aumento da criminalidade registada resulta, segundo a própria PSP, de uma maior atividade policial e de crimes que surgem nas estatísticas, precisamente, porque existe mais fiscalização.
Os números não justificam alarmismo. Mas também não devem servir de pretexto para desvalorizar aquilo que os cidadãos sentem e vivem no seu quotidiano.
Porque uma cidade segura não é apenas uma cidade com bons indicadores estatísticos. É uma cidade onde as pessoas se sentem livres para circular, trabalhar, regressar a casa, utilizar os transportes públicos e usufruir do espaço público sem receio.
Há, por isso, uma diferença importante entre ser seguro e sentir-se seguro. E as duas dimensões contam.
Uma pessoa que evita determinado espaço público, à noite, porque não se sente segura já está, de alguma forma, a perder a sua cidade. Quando alguém altera os seus percursos, deixa de frequentar uma praça, evita uma estação ou escolhe não regressar a pé a casa por receio, existe uma limitação concreta da sua liberdade.
E Lisboa não pode aceitar que a liberdade de circular dependa do bairro onde se vive, da hora a que se regressa a casa ou da capacidade económica de cada pessoa para encontrar alternativas.
A segurança é um direito. E deve ser um direito democrático.
Mas numa cidade como Lisboa essa responsabilidade ultrapassa, necessariamente, as fronteiras do município.
Lisboa é a capital política, económica e cultural do País. É uma cidade turística, universitária, comercial e cosmopolita marcada por uma intensa mobilidade diária e por uma vida pública que se prolonga muito para além do horário de trabalho. A sua segurança é, por isso, simultaneamente uma questão municipal e uma questão de interesse nacional.
É precisamente aqui que devemos evitar um erro demasiado frequente na política portuguesa: transformar uma responsabilidade partilhada numa disputa entre instituições.
A Câmara Municipal tem responsabilidades. A Polícia Municipal tem responsabilidades. A Polícia de Segurança Pública tem responsabilidades. O Governo tem responsabilidades. As freguesias, os serviços públicos, os agentes económicos e a própria comunidade também têm um papel responsável a desempenhar.
Nenhuma destas responsabilidades substitui as restantes. Complementam-se.
Quando o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa pede mais polícia nas ruas, não vejo necessariamente uma declaração de guerra ao Governo. Vejo uma reivindicação legítima de quem governa uma cidade e responde perante os seus cidadãos. Da mesma forma, quando o Governo reforça meios, reorganiza o dispositivo policial ou investe nas instalações das forças de segurança, essas decisões devem ser encaradas como parte da solução e não como capítulos de uma competição política.
Aliás, a cooperação já demonstrou que é possível fazer diferente. Governo, Câmara Municipal e Polícia de Segurança Pública têm vindo a trabalhar conjuntamente em matérias como a requalificação de esquadras, ao mesmo tempo que foram anunciados reforços de efetivos e medidas destinadas a aumentar a presença policial nas ruas.
É esse caminho que deve ser aprofundado.
Lisboa precisa de cooperação, mas precisa, igualmente, de exigência. Precisa de uma verdadeira estratégia integrada de segurança urbana, capaz de articular policiamento de proximidade, investigação e inteligência policial, videoproteção dentro dos limites legais, fiscalização, intervenção no espaço público e prevenção social.
Uma estratégia com prioridades identificadas, recursos adequados, responsabilidades claras e indicadores que permitam avaliar resultados. Não apenas quando acontece um episódio grave ou quando o tema regressa às manchetes, mas de forma permanente.
Porque a segurança não começa quando ocorre um crime.
Começa na prevenção.
Começa numa rua iluminada, num espaço público cuidado, numa resposta policial atempada, numa escola capaz de sinalizar situações de risco, num comércio que comunica com as autoridades, numa freguesia atenta ao território e numa polícia próxima da população.
E exige também autoridade.
Uma democracia madura não deve ter dificuldade em pronunciar esta palavra. A autoridade democrática, exercida dentro da lei, com proporcionalidade e escrutínio, não ameaça a liberdade: protege-a. O espaço público pertence a todos e o Estado tem a obrigação de garantir que ninguém dele se apropria pela violência, pela intimidação ou pela prática reiterada de ilícitos.
Por isso, interessa-me menos saber quem produz a declaração política mais contundente do que saber quantos agentes estão efetivamente disponíveis para patrulhar as ruas; quanto tempo demora uma resposta; onde estão concentrados os fenómenos criminais; que capacidade existe para os prevenir; e de que forma é partilhada informação entre as diferentes entidades responsáveis.
A política de segurança deve ser avaliada pelos resultados, não pelo volume das declarações.
Carlos Moedas tem razão ao exigir mais segurança para Lisboa. O Governo tem a responsabilidade de assegurar às forças de segurança os meios humanos, materiais e tecnológicos necessários para cumprirem a sua missão. E as autarquias devem assumir, plenamente, aquilo que está ao seu alcance: cuidar do território, prevenir situações de degradação, colaborar com as forças de segurança e contribuir para políticas de proximidade.
O erro começa quando cada dificuldade é utilizada para atribuir culpas e cada avanço é apresentado como uma vitória de uns sobre os outros.
Nesta matéria, não interessa uma vitória da Câmara sobre o Governo, nem do Governo sobre a Câmara.
Interessa uma Lisboa onde os seus cidadãos possam viver, trabalhar e circular com tranquilidade. Uma cidade onde quem nos visita se sinta bem-vindo e protegido. Uma cidade onde a autoridade esteja presente, a prevenção funcione e as forças de segurança disponham das condições necessárias para cumprir a sua missão.
A segurança de Lisboa não deve ser a bandeira de um partido.
Deve ser uma causa da cidade.
E, acima de tudo, uma responsabilidade de todos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.