Quando falamos de caridade, pensamos, muitas vezes, em dinheiro: no donativo que fazemos, na instituição que apoiamos, na causa para a qual contribuímos. E, embora os recursos financeiros sejam indispensáveis para responder a muitos problemas sociais, há situações em que dar tempo pode valer tanto – ou até mais – do que dar dinheiro. Parar, escutar, acompanhar, estar presente ou simplesmente fazer companhia são gestos que não cabem numa transferência bancária, mas que podem ter um impacto profundo na vida de alguém.
É também por isso que importa olhar para a ideia de “caridadezinha” com olhos sérios: a solidariedade não deve ser reduzida a gestos ocasionais que nos fazem sentir bem, ou a uma resposta pontual à necessidade do outro. Dar, seja dinheiro, tempo ou atenção, implica reconhecer o outro na sua dignidade e perceber que, muitas vezes, aquilo de que mais precisa não é de uma esmola, mas de alguém que esteja verdadeiramente disponível para si.
Em Portugal, continuam a existir situações de pobreza e exclusão que nos lembram de que a solidariedade é uma responsabilidade coletiva. O relatório “Pobreza e exclusão social em Portugal 2026”, da Cáritas Portuguesa, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), revela que, em 2025, cerca de 200 mil pessoas não tinham capacidade económica para garantir alimentação adequada, enquanto aproximadamente 600 mil não conseguiam comprar roupa nova e mais de 1,6 milhões não tinham condições para manter a casa aquecida. Estes dados mostram-nos que, para muitas pessoas, as necessidades que consideramos básicas continuam longe de estar garantidas.
Mas quando falamos de exclusão, não nos referimos apenas aos bens ou condições que, infelizmente, ainda faltam dentro de muitas casas; falamos de quem não consegue participar em atividades da comunidade, de quem não tem companhia para conversar e de quem sente que a solidão é uma realidade incontornável. E é exatamente nestes casos que os gestos podem valer mais do que um donativo financeiro.
O voluntariado é uma das formas mais concretas de aplicar a solidariedade em causas já identificadas. Dedicar tempo a ajudar alguém sem esperar nada em troca permite multiplicar o impacto de uma instituição, dando uma resposta a necessidades específicas. Ser voluntário é promover a criação de relações, a aproximação de pessoas e a oferta de oportunidades a quem se sente isolado. Para além disso, o voluntariado não tem de assumir sempre a mesma prática. Ajudar a desenvolver competências e partilhar conhecimento, contribuir para a organização de iniciativas comunitárias ou até visitar quem vive sozinho são diferentes formas de estar disponível para alguém.
Talvez tenhamos de repensar a própria ideia de caridade. Não se trata de desvalorizar os donativos financeiros, porque é um facto que são essenciais para as organizações conseguirem desenvolver o seu trabalho. Trata-se, sim, de reconhecer que há necessidades que não são resolvidas apenas com dinheiro. As conversas, a companhia, a atenção e a valorização das pessoas não se substituem financeiramente.
Num país onde há milhões de cidadãos expostos a diferentes fragilidades, precisamos de respostas sociais diferenciadas e de comunidades disponíveis para ajudar e participar na construção de sociedades menos desiguais. A solidariedade não pode surgir exclusivamente em determinadas épocas do ano, tem de fazer parte da forma como construímos a vida em comunidade e das relações que estabelecemos uns com os outros.
Os grandes problemas sociais exigem recursos financeiros, políticas públicas eficazes e respostas estruturadas. Resolver problemas sociais estruturais também exige tempo e mudança de mentalidades. Mas é possível construir uma sociedade mais solidária a partir de gestos que, embora pareçam simples, são decisivos quando repetidos diariamente. Os donativos são determinantes para colmatar necessidades, enquanto a generosidade continuada devolve o sentimento de pertença, de integração e de dignidade a quem se sente sozinho.
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