Chamemos-lhe nova direção, mas com uma pequena correção de calendário. José Luis Rebordinos continua formalmente à frente do Festival de San Sebastián até 31 de dezembro e esta será a sua última edição. Maialen Beloki, atual subdiretora e já escolhida por unanimidade para lhe suceder, só assume em janeiro de 2027. Ou seja, 2026 não é ainda o primeiro festival da nova direção: é o último da antiga e, talvez por isso mesmo, tem qualquer coisa de passagem de testemunho com o volume no máximo.
O rosto da edição também ajuda. O extraordinário ator argentino Ricardo Darín, Prémio Donostia em 2017, ocupa o cartaz oficial, criado pelo estúdio Wallijai, e regressa à cidade para apresentar Lo dejamos acá, de Hernán Goldfrid, ao lado de Diego Peretti. Um cartaz com Darín é quase uma declaração de princípios: menos cosmética, mais cinema. Ainda assim, a passadeira vermelha terá combustível. Brad Pitt regressa a San Sebastián, 17 anos depois de Sacanas Sem Lei, de Quentin Trantino para acompanhar David Ayer e Heart of the Beast: Heróis Inseparáveis, fora de competição e já com estreia marcada para 24 de setembro em Portugal. E Werner Herzog recebe o Prémio Donostia logo na gala de abertura, onde apresentará Bucking Fastard, filme que chega diretamente da Competição de Veneza. Há festivais que inauguram com discursos. San Sebastián põe Herzog no palco. É bastante mais eficaz.
E, como um Donostia aparentemente já não chegava, no dia seguinte, sábado 19, será Naomi Watts a receber um prémio de carreira no Kursaal. A atriz que David Lynch lançou definitivamente para outra dimensão em Mulholland Drive, duas vezes nomeada para o Oscar por 21 Gramas e O Impossível, trabalhou entretanto com Iñárritu, Cronenberg, Haneke, Clint Eastwood, Peter Jackson ou Noah Baumbach e regressa agora à cidade para apresentar The Housewife, primeira longa-metragem do canadiano Ben Shirinian. San Sebastián começa assim com Herzog numa noite e Naomi Watts na seguinte. Há fins-de-semana piores.
Uma Concha de Ouro com fantasmas, miseráveis e famílias em ruínas
A competição abre com Geister / Ghost Song, de Fatih Akin, romance entre vivos e mortos que inaugura a corrida à Concha de Ouro. São 17 filmes: Nicole Garcia apresenta 7:40 ce matin-là / Milo; Pablo Larraín regressa com Mis muertos tristes; Mike Leigh com Tender Loving Care; Hans Petter Moland adapta Knut Hamsun em Markens Grøde / Growth of the Soil; Benjamín Naishtat traz Glaxo; Yeşim Ustaoğlu apresenta Artakalan / What Remains; Jesse Eisenberg realiza The Debut; Fred Cavayé volta a Victor Hugo com Les Misérables; Amanda Kernell assina Garrat du váimmu / Brace Your Heart; o brasileiro Gabriel Martins apresenta Vicentina pede desculpas / On Behalf of My Son. Juntam-se as primeiras obras Border, de Ah Biao, In My Father’s Room, de Maha Harada, e Krux, de Tony Vahl, além do trio espanhol El mal padre, de Roberto Bueso, Sants, de Mikel Gurrea, e 5 minutos más, de Javier Ruiz Caldera.
O encerramento, fora de concurso, fica entregue a Le Faux Soir, de Michaël R. Roskam, inspirado na operação da resistência belga que, em 1943, falsificou o jornal Le Soir para ridicularizar a propaganda nazi. Num tempo em que a realidade compete diariamente com a sátira — e muitas vezes perde — talvez não haja filme mais adequadamente programado.
Perlak: Cannes e Veneza mudam-se por uma semana para a Baía da Concha
Perlak continua a ser a secção onde San Sebastián faz o balanço do ano recuperando alguns dos melhores filmes que passaram pelos outros grandes festivais. Abre Minotaur, de Andrey Zvyagintsev, Grande Prémio do Júri em Cannes; passam Fjord, de Cristian Mungiu, Palma de Ouro; Fatherland, de Paweł Pawlikowski; La bola negra, de Javier Ambrossi e Javier Calvo; Coward, de Lukas Dhont; Soudain / All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi; Hope, de Na Hong-jin, com Michael Fassbender e Alicia Vikander; e The Man I Love, de Ira Sachs.
E Perlak ganhou entretanto uma entrada de peso político: NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, chega diretamente de Veneza. Filmado durante a noite nos telhados de Telavive e produzido por The Guardian e JW Films, com Jonathan Glazer entre os produtores, o documentário investiga os sistemas utilizados para calcular antecipadamente o número previsível de vítimas civis palestinianas nos ataques aéreos israelitas sobre Gaza. O próprio título é o acrónimo usado pelos serviços de informações israelitas para essa estimativa. Depois de No Other Land, que Abraham e Szor co-realizaram com Basel Adra e Hamdan Ballal, NAZA leva para San Sebastián um dos filmes politicamente mais incómodos deste circuito de festivais. E isso, num festival, ainda devia contar para alguma coisa.
De Veneza chegam também Wild Horse Nine, de Martin McDonagh, com John Malkovich, Sam Rockwell e Steve Buscemi, e Succederà questa notte, de Nanni Moretti. Junta-se ainda O Convite, de Olivia Wilde, com Penélope Cruz e Edward Norton. Fecha Juste une illusion, de Olivier Nakache e Eric Toledano. Se isto é uma secção paralela, a principal pode começar legitimamente a sentir-se insegura.
Espanha joga bem em casa, como convém
O cinema espanhol não aparece apenas para cumprir quota. Três filmes estão na competição oficial e Made in Spain chega agora aos 25 títulos. Albert Serra abre com Seize moments de ma vie, dedicado a Ingrid Caven, e Vanesa Benítez fecha com 200 vidas, Paco Rabal. Pelo meio passa Natal Amargo, o novo Pedro Almodóvar, com Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia e Aitana Sánchez-Gijón, além de trabalhos de Isabel Coixet, Víctor García León e Julia de Paz.
E, na reta final, apareceu ainda El ser querido, de Rodrigo Sorogoyen, vindo da Competição de Cannes e protagonizado por Javier Bardem e Victoria Luengo. Escrito por Sorogoyen e Isabel Peña, põe Bardem na pele de um lendário e controverso realizador que, depois de anos afastado da filha, atriz, lhe oferece um papel no seu novo filme. Naturalmente, a ideia de resolver traumas familiares durante uma rodagem parece excelente até começar a rodagem. Feridas antigas, relações de poder, cinema dentro do cinema e Bardem a interpretar um realizador com um passado de violência e excessos: dificilmente Sorogoyen poderia escolher terreno mais confortável para provocar desconforto.
San Sebastián continua assim a fazer uma coisa que alguns grandes festivais parecem ter esquecido: tratar o cinema do próprio país como cinema e não como uma obrigação protocolar a despachar antes do jantar.
New Directors abre com El mal hijo, estreia de Jaime Lorente na realização, e fecha com Florid, de Billy Lumby; pelo caminho surgem Javier Giner com Esta soledad e Tatjana Moutchnik com Siete días de febrero. Horizontes Latinos abre com Siempre soy tu animal materno, de Valentina Maurel, e fecha com Narciso, de Marcelo Martinessi, numa competição onde também aparecem Diego Luna, Manuela Martelli, Ricardo Alves Jr., Dominga Sotomayor e Fernando Eimbcke.
Zabaltegi-Tabakalera mantém-se como o território onde cabe aquilo que não quer, ou não consegue, caber noutro lado: María Alché e Benjamín Naishtat abrem com Pedro en el país, Isaki Lacuesta fecha com Jaleos e, entre ambos, aparecem Radu Jude, Lee Chang-dong, Tsai Ming-Liang, Jane Schoenbrun, Tizza Covi e Rainer Frimmel, Federico Luis e Bruno Dumont. É provavelmente a secção onde se encontra o cinema que daqui a três anos toda a gente jurará ter descoberto primeiro.
Portugal entra pelas margens e às vezes é aí que as coisas começam
A presença portuguesa não está propriamente no centro mediático, mas está longe de ser inexistente. Duas co-produções com Portugal competem na Horizontes Latinos: A Professora de Francês, de Ricardo Alves Jr., co-produção luso-brasileira e thriller psicológico sobre intolerância, fanatismo religioso e preconceito, e Narciso, de Marcelo Martinessi, co-produzido pela portuguesa Oublaum Filmes, que chega depois de receber o Prémio FIPRESCI na Berlinale.
Mónica Lima leva ainda Sentimentos Familiares ao WIP Europa, primeira longa-metragem da realizadora portuguesa, ainda em pós-produção, com Beatriz Brás, Margarida Marinho, Bárbara Branco, Romeu Costa e Crista Alfaiate. E Pioneras. Solo querían jugar, de Marta Díaz de Lope Díaz, com co-produção portuguesa da Bando à Parte, estará em Made in Spain. Não dá uma manchete com Brad Pitt, naturalmente, mas o cinema português também nunca precisou de helicóptero para conseguir entrar num festival.
Cinema literalmente para comer
E depois há Culinary Zinema, essa secção que noutro festival poderia parecer uma extravagância e que, no País Basco, é praticamente serviço público. Cinco filmes competem: Noor: Cocinar pasados posibles, sobre o universo de Paco Morales; MITANI – The Mariage of Sushi; Burgundy; Subijana, más allá de un bigote, dedicado a Pedro Subijana; e Mallorca, un receptari. Cada sessão prolonga-se em jantares concebidos por chefs convidados. Em San Sebastián, até a cinefilia vem empratada e ninguém parece ter vergonha disso. Felizmente.
O Velódromo, com mais de dois mil lugares, mantém o lado popular com Karateka, de Aritz Moreno, Muguruza FM 40 Tour, de Ander Merino e Fermin Muguruza, Go!azen 13 e o habitual concerto com a Euskadiko Orkestra. Há ainda a retrospetiva dedicada a José Giovanni, Zinemira, Nest, Klasikoak, programas sobre memória democrática, habitação e juventude, além de uma verdadeira máquina industrial de fóruns, WIP, encontros profissionais e coprodução.
San Sebastián chega assim aos 74 anos sem a crise de identidade de quem sente necessidade de inventar uma revolução todos os anos. Tem estrelas, autores, indústria, descoberta, gastronomia, Herzog, Watts, Bardem, Darín, Pitt e uma cidade inteira que, durante nove dias, aceita viver em função de horários impossíveis, filas, filmes às nove da manhã, pintxos às onze da noite e a vaga esperança de conseguir dormir pelo meio.
Rebordinos despede-se deixando a casa cheia; Maialen Beloki recebe-a com as luzes já acesas. Entre um e outro, o festival faz aquilo que melhor sabe: transforma uma pequena e extraordinária cidade atlântica, durante pouco mais de uma semana, num lugar onde parece caber quase todo o cinema do mundo. E ainda sobra espaço para jantar. Lá estaremos para contar tudo, tim-tim por tim-tim. Porque Veneza mal acabou e San Sebastián já está a começar. A vida de festival também tem estas crueldades.