O tempo voa e esta é já a terceira semana de início de ano letivo da era Montenegro/Fernando Alexandre. Se em 2024 as desculpas sobre a herança legada pelo PS de conflitos sindicais com o eterno Mário Nogueira, entretanto reformado depois de uma longa carreira de protestante profissional em que raramente ensinou crianças, e o excitado Ventura do STOP, ainda serviram de desculpa para as dificuldades com o início do ano letivo, agora já terminou há muito o período de estágio governamental de Fernando Alexandre.
A demografia pouco fértil das últimas décadas tem provocado uma redução do número de estudantes nos primeiros anos do ensino básico, que é apenas parcialmente compensada pelo afluxo das famíliasde imigrantes que chegaram a Portugal ainda antes das restrições ao reagrupamento familiar heroicamente determinadas pelos inimigos das famílias Leitão Amaro e André Ventura, mas o envelhecimento do corpo docente, com raros professores sub-30 e uma idade média superior aos 50 anos, mudou o ambiente social das escolas e tornou-as mais azedas e pouco abertas à inovação.
As aposentações crescentes dos próximos anos serão ainda mais graves face à escassa competitividade da profissão docente, que não atrai os estudantes do ensino superior necessários para suprir as saídas, e ao desastre da evolução dos preços da habitação que nos últimos anos tornouinviável a deslocação de candidatos a professororiundos do norte do País para colocações precárias em escolas de Lisboa, da Península de Setúbal ou do Algarve.
Durante algum tempo, a deriva ideológica de direita populista ainda tentou disfarçar a inação com fantasmas temíveis, como o perigo das casas de banho mistas ou a terrível “ideologia de género” e promoção da homossexualidade nas aulas de cidadania.
Em julho de 2025, Fernando Alexandre foi apresentado pelo impulsivo Gonçalo Matias como o pioneiro da gloriosa Reforma do Estado que iria virar do avesso em menos de um ano a estrutura de todos os ministérios.
Passado pouco mais de um ano, o balanço é confrangedor:
- A extinção da FCT, criando uma nova agência que dilui a investigação científica na inovação empresarial, tem avançado aos soluços, sem resultados visíveis ao arrepio de todas as tendências europeias e perante as maiores reservas da comunidade científica e das universidades;
- As estruturas regionais da educação foram substituídas por enclaves dependentes do Governo implantados nas CCDR, que são um retrocesso para a descentralização sem qualquer mérito para a política de educação
- A extinção do Plano Nacional de Leitura, perdido no meio de uma das novas super-agências criadas pelo Governo, é um anacronismo quando tudo recomendaria uma batalha ativa pelos hábitos de leitura para contrariar o analfabetismo digital;•
- O novo EduQa, com o seu icónico barracão de Mem Martins, é hoje a estrutura mais conhecida do ministério da Educação ao liderar um processo de digitalização da correção de exames feito de forma voluntarista, sem testes nem mecanismos de segurança, que desorganizou e desacreditou o processo de avaliação do ensino secundário e baralhou o concurso de acesso ao ensino superior;•
- Finalmente, temos agora o teste do algodão da nova AGSE-Agência para a Gestão do Sistema Educativo, que conseguiu o feito desconhecido desde há décadas de iniciar o ano letivo com 744 alunos em Sintra, 550 em Lisboa e centenas noutros locais, sem vagas nas escolas públicas.
Em vez de reuniões de emergência e soluções atamancadas de aumento do número de alunos por turma, o que se esperaria deste novo mundo da Reforma do Estado, com Gonçalo Matias em absoluto silêncio, seria planeamento e preparação atempada do novo ano letivo.
Quando chegou ao Governo o reformador Alexandre tentou ajustar contas com o passado em torno do número de alunos que iniciavam o ano escolar sem professor a pelo menos uma disciplina. Entretanto meteu a viola no saco ao confessar não ser capaz de saber quantos alunos não tinham professor, culpando a má informação dada pelas estruturas do ministério, e este seu terceiro ano letivo de ministro começou com 2700 lugares de professor por preencher, dos quais mais de 300 no 1º ciclo onde não é possível sequer colmatar a situação com o recurso a horas extraordinárias.
Os resultados do PISA 2025, que demonstram um efeito devastador conjugado da pandemia e da iliteracia provocada pelo dependência das redes digitais no retrocesso das aptidões em leitura, matemática e ciências dos estudantes em todos os países europeus, e uma liderança dos bons resultados pela China e outros países asiáticos, recomendariam um debate sério e estruturado sobre os desafios curriculares, da digitalização do ensino e do modelo de avaliação, em vez de ser pretexto para uma guerrilha partidária de vistas curtas numa área em que os resultados das mudanças só são visíveis ao final de muitos anos.
Quem reduziu as provas de acesso ao ensino superior tem vindo a criar Universidades por via administrativa descaracterizando o ensino politécnico, e deixou os Centros Colaborativos e os Centros de Tecnologia e Inovação sem financiamento garantido, tem pouca moral para vir agora falar de mérito, exigência e rigor na educação e na ciência.
Fernando Alexandre conseguiu reunir o mérito penoso de acabar o ano letivo passado com alunos sem classificações, milhares deles ainda a aguardar os resultados da exótica 3ª época de exames, e começar o novo ano letivo 2026/27 acumulando os números máximos do seu mandato de alunos com escola, mas sem professor, a que acrescenta este ano alunos sem vagas na escola pública.
Tudo isto perante uma enorme tolerância do “comentariado” conservador, rendido à sua aura de competência, o beneplácito de Montenegro e uma proteção política muito ativa do PSD que vai faltando a Luís Neves.
Por ser a evidência dos pés de barro da vertente orgânica da Reforma do Estado e pela acumulação de fatores de incerteza na vida de estudantes, pais e professores, o prémio Laranja Amarga do início do ano letivo vai para Fernando Alexandre.
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