Esta crise profunda começa por ser de caráter espiritual mas pode ser reconhecida em diversos planos. Ela é visível desde os abusos sexuais do clero católico-romano em todo o mundo, assim como as tentativas de encobrimento que persistiram durante décadas, a falta de vontade da hierarquia em reconhecer multidões de indivíduos na condição de vítimas e a ausência de iniciativa, e mesmo resistência, em indemnizá-las.
Mas também não podemos esquecer os escândalos de vária ordem presentes no meio evangélico, em especial em regiões do mundo onde este segmento religioso é mais forte, como na América do Sul.
E temos ainda uma questão de fundo que é a crise do estado laico, que está a ser crescentemente atacado, assim como a pulsão teocrática presente em muitos políticos e religiosos sem escrúpulos.
A mancebia entre religião e política explica muito desta crise espiritual. Sei bem que dirão que a culpa é do secularismo ou das ideologias políticas de esquerda, mas receio que isso seja apenas ilusão. Quem assim pensa provavelmente não se dá ao trabalho de procurar entender as causas profundas destes dois “culpados”.
Bem sei da emergência da modernidade, do primado da pessoa humana que lhe está subjacente e do definhar da cristandade. Porém, o secularismo europeu resulta essencialmente da forma como as instituições cristãs do continente tiveram dificuldade em responder aos dois conflitos mundiais que nele estalaram no século XX, e sobretudo do posicionamento de grande parte do segmento cristão de apoio ao fascismo e ao nazismo no período entre guerras, já que, em relação ao comunismo, este se encarregou de hostilizar a fé. A desilusão dos europeus com o cristianismo a partir da segunda metade do século XX resulta sobretudo daí.
Há cerca de cem anos, a ciência e a tecnologia prometiam uma vida próspera mas acabaram por se tornar instrumentos de morte e destruição. O otimismo económico campeava, mas terminou abruptamente com a Grande Depressão. Além disso, os loucos anos vinte falam-nos da música, da moda, do glamour e do entretenimento. Tudo isso morreu ou empalideceu com a emergência da Grande Guerra.
De início, a fé era um bastião no velho continente, mas a dificuldade em compreender o nível extremo da maldade humana presente no Holocausto e o não entender onde estava Deus naquela hora, e porque permitia tal barbaridade, ajudou a consolidar a ideia da ausência de Deus. Esta ideia será popular mas não é séria.
Não podemos querer um Deus que atribui aos seres humanos a possibilidade do livre arbítrio e depois ir a Deus cobrar os crimes dos homens. Ou os seres humanos são robôs telecomandados do alto, ou então serão portadores de consciência, capacidade de decisão e inteiramente responsáveis pelos seus atos. E, portanto, sujeitos às consequências daí decorrentes.
A segunda culpada pela crise espiritual é para muito a esquerda. Só que as ideologias de direita e de esquerda são apenas sintomas de uma doença mais profunda radicada no coração do homem. Se umas privilegiam a liberdade, as outras pugnam pela justiça. Há que encontrar o melhor dos dois mundos, porque o ser humano não deve nem pode viver sem liberdade nem sem justiça. E quando se entra num clima de polarização quase irracional como tem sucedido nos últimos tempos, mal vai a democracia e a liberdade.
Um dos fatores que mais agrava a presente crise espiritual é a mediocridade geral das lideranças políticas mundiais, em especial as mais relevantes, como no caso dos EUA e da Federação Russa. Além do mais, a emergência exuberante da Inteligência Artificial contribui para uma espécie de bolo envenenado, pelo que não se augura nada de bom nos tempos mais próximos.
Como dizia Gandhi: “Olho por olho, e o mundo acabará cego.” Nestes tempos perigosos, cabe aos cristãos exercerem a sua cidadania de forma ativa, e pedirem a Deus que tenha misericórdia deste mundo louco, cada vez mais à mercê do som das armas, seja no Leste europeu, no Médio Oriente ou em África.
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