1. Num mundo em que, como cidadãos, temos cada vez mais razões para a vergonha e a indignação, e cada vez menos razões para o orgulho e para a esperança que não podemos perder, para não a perdermos nesta última quinzena uma figura avultou: o Papa. Em tempos de Trumps, Leão XIV surgiu como um símbolo vivo dos valores que lhe(s) resistem. Símbolo dos valores do humanismo, da dignidade da pessoa humana, do combate ao racismo, à xenofobia, ao discurso de ódio e à injustiça em todos os domínios − do social, com a luta contra a pobreza, ao educativo e cultural.
Discreto, sereno, sorridente, de aparência tímida e frágil mas determinado, embora sem o carisma e a comunicabilidade do seu antecessor, Leão XIV já dera mostras de se situar na linha de continuidade do clarividente, renovador e corajoso pontificado de Francisco. Mas foi agora, com a sua encíclica Magnifica Humanitas, e com a viagem de uma semana a Espanha, que em definitivo se impôs e, em meu juízo, ganhou essa simbólica grande dimensão, se não planetária pelo menos no chamado “mundo ocidental”.
A Magnifica Humanitas é a diversos títulos notável: pelos temas que trata – com destaque para os do trabalho/direitos dos trabalhadores e para os dos “perigos” decorrentes da IA, do poder de novas tecnologias −, e pela forma como esses temas são tratados. Ou seja: com seriedade, sólido conhecimento e clareza, que não exclui a profundidade. Numa visão compreensiva e sempre iluminada pelos valores referidos, a começar pela magnífica humanidade que dá título a esta primeira encíclica de Leão XIV.
Permito-me destacar dois ou três tópicos. Desde logo o Papa salienta a necessidade de “adotar instrumentos normativos adequados, capazes de salvaguardar a justiça e conter os efeitos nocivos do poder tecnológico”, que tem um “domínio impressionante sobre o género humano e o mundo inteiro”. Sendo agora os principais detentores desse poder não públicos mas privados, o que torna “ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum”.
Leão XIV lembra que João Paulo II, 90 anos após a Rerum Novarum, apresentou o “salário justo como uma prova concreta da equidade”, revelando se o trabalhador é tratado como pessoa ou mero custo de produção. E acrescenta que “as várias formas de precariedade, fragmentação dos percursos profissionais e automatização não podem ser avaliadas apenas em termos de eficiência”. Na linha da Fratelli Tutti, de Francisco, propõe uma cultura do encontro, uma política “capaz de buscar o bem comum, caminhos de reconciliação e um mundo que garanta ‘terra, teto e trabalho para todos’”.
Há muitos outros trechos relevantes da encíclica, como por exemplo sobre a ecologia da comunicação, a importância do multilateralismo (“A cultura do poder decorre também da crise do sistema multilateral”), “a dignidade do trabalho na transição digital”.
A parte respeitante à IA é atualíssima e importantíssima. Mormente quando Leão XIV escreve que é preciso desarmá-la. E explica bem: “Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também económica e cognitiva. Desarmar significa quebrar esta equivalência entre poder técnico e direito de governar. Não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano.” E acrescenta ainda: “Significa retirá-la dos monopólios, (…) devolvendo-a à pluralidade das culturas humanas e formas de vida.” Uma tarefa “não apenas ética ou técnica: ecológica no sentido mais radical, porque envolve uma nova dimensão da nossa Casa comum”.
2. Na rara visita de uma semana a Espanha, seguida por milhões de pessoas, além das matérias eclesiais, nas suas intervenções o Papa tomou posição sobre conflitos e divergências, princípios e valores em confronto no mundo polarizado em que vivemos. Mundo em que forças extremistas de direita, quase sempre pró-fascistas, são cada vez mais poderosas, quando não conquistaram já o poder, minando e derrubando por dentro a democracia. Com a conivência ou colaboração de certa direita tradicionalmente democrática que, fazendo-lhe sucessivas cedências, a pretexto de as combater só as serve e acaba por ser comida por elas – como se teme suceda em Portugal…
As “mensagens” de Leão XIV foram contra a própria polarização; a favor da paz, no respeito pelo direito internacional, com multilateralismo, diálogo e negociação; contra a guerra e a corrida aos armamentos (“não se pode acreditar em Deus e promover a guerra”); pela dignidade e a justiça, com a “grandeza moral de uma nação” a medir-se pela sua “capacidade de proteger e amar” os mais vulneráveis; etc., etc.
Mas a mensagem ou ideia mais repetida foi a relativa aos imigrantes, ao “acolhimento respeitoso e reais possibilidades de integração” que devem ter, dada a “igual dignidade dos seres humanos”. A ida de Leão XIV às Canárias, e em especial a Tenerife (a que nas tentativas de aí chegarem morreram milhares de migrantes: só em 2025 cerca de três mil, e até maio último mais de 1300), o encontro com sobreviventes, o ouvir as suas histórias e o que lhes disse, a condenação do “naufrágio do silêncio” e o “somos todos migrantes”, culminou da forma mais expressiva, por vezes emocionante, esta visita. Que incluiu uma intervenção do Papa no Parlamento espanhol, no final aplaudida de pé durante sete minutos por todos os deputados e senadores, incluindo os do Vox, como seria pelos do Chega se lá estivessem! Mais palavras para quê?…
3. Portugal e o Mundial de Futebol – Como milhões de portugueses, estarei colado ao ecrã da televisão para seguir os jogos de Portugal no Campeonato do Mundo de Futebol. Vários momentos de competições anteriores são para mim inesquecíveis. Os primeiros do Mundial de 1966, acabara de chegar a Lisboa, nem televisão tinha, ia ver os jogos, imagine-se!, ao quartel do Comando Militar de Lisboa, onde um meu amigo cumpria o serviço militar. Portugal ficou em 3º lugar, o Eusébio marcou nove golos, uma festa! Os mais intensos, porém, foram no europeu de 2004, no irrepetível clima vivido no País com a Seleção de Scolari. Em particular no Portugal-Inglaterra, na decisão por penáltis, quando Ricardo tirou as luvas e defendeu um penálti dos ingleses e depois ele próprio marcou o que nos deu a vitória: o ritmo cardíaco subiu tanto que tive de ir ao hospital…
O ambiente de hoje, em “entusiasmo” não se compara com o de então. Porém, a “expectativa” (de um ótimo resultado) é talvez a maior de sempre. E, de facto, Portugal é apontado entre o lote alargado dos favoritos, embora não nos primeiros lugares. Por exemplo, no El País, num estudo com base em fatores nele explicados, Portugal aparece em 5º lugar, depois de Espanha, França (os dois favoritos em todas as previsões), Argentina e Inglaterra, seguido a curta distância pelo Brasil e, mais afastada, pela Alemanha.
Ora, julgo ser um erro exagerar a possibilidade de vitória. E ainda mais fixá-la como único objetivo − ou pelo menos como aquele que, a não ser alcançado, representará uma derrota para a Seleção e o País. Se é preciso incentivar e dar confiança à equipa, não é necessário ir tão longe. Nem necessário nem aconselhável, pois isso levará – caso não se vença, o mais provável – a uma desilusão e a uma frustração injustificáveis, a considerar um fracasso o que pode ser até um bom e honroso resultado.
4. Os 500 anos de Camões – Estão a chegar ao fim as comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões. Não é agora ocasião para um balanço, mesmo muito breve. Quero sim assinalar o colóquio internacional sobre o poeta a realizar, nos próximos dias 23 e 24, no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, uma instituição fantástica, presença única do nosso país e da nossa língua no mundo. Colóquio coordenado por Gilda Santos, a prof.ª emérita da UFRJ e vice-presidente do Real Gabinete a quem Portugal e a cultura tanto devem.
E assinalar também o lançamento, agora mesmo, pela Imprensa Nacional, de uma edição crítica de Os Lusíadas, elaborada por uma vasta e qualificada equipa de especialistas, coordenada por José Carlos Seabra Pereira e Maria Helena Rocha Pereira (1925-2017), integrando Arnaldo do Espírito Santo, Evanildo Bechara (1928-2025), Ronaldo Menegaz e Telmo Verdelho. Na introdução Seabra Pereira considera que esta edição “resgata uma dívida maior que as culturas em língua portuguesa e os Estudos Literários desde há muito contraíram para com Luís de Camões e seu legado”.