1. O dia 20 de novembro de 1975 é um daqueles bem vivos na minha memória de muitas décadas de jornalismo. Porque nesse dia fui o único jornalista, e talvez o único civil a aí não exercer funções, presente no Forte de São Julião da Barra e a testemunhar o que então aconteceu, precedendo o 25 de Novembro. O facto mereceu, aliás, uma “caixa” no diário O Século, manifestando a sua estranheza, que tinha subjacente o protesto, por eu ter sido o único jornalista a poder entrar no “reduto” em que ocorria uma decisiva reunião do Conselho da Revolução.
Antes de contar, convém lembrar que o País vivia um tempo de enorme agitação e preocupação, de extrema turbulência, falava-se muito e temia-se mesmo uma guerra civil. A legitimidade revolucionária estava em causa, porque mais do que um grupo militar a reclamava, a legitimidade democrática não tinha quem dela se pudesse indiscutivelmente reclamar. Mas, a haver, seria o governo, nomeado pelo Presidente da República e no qual estavam representados os partidos mais votados nas eleições de 25 de abril desse ano. Só que o governo, do primeiro-ministro almirante Pinheiro de Azevedo, contestado por todos à esquerda do PS, acabava por pouco ou nada mandar – e, facto único, decidira… “fazer greve”!
A nível militar, recorde-se, a nítida divisão era fundamentalmente entre, designações da época, a “esquerda militar”, os gonçalvistas, a esquerda radical, do “poder popular”, os otelistas, e o “grupo dos nove”, os moderados (Vasco Lourenço, Melo Antunes, etc.)
Tendo acompanhado o mais por dentro possível tudo o que ocorreu após o 25 de Abril e no PREC, sem pertencer a nenhum partido e considerando-me de uma espécie de “MFA civil”, eu apoiava a linha dos nove, como representando a inteira fidelidade ao 25 de Abril: progressista, numa democracia pluralista. No entanto, n’O Jornal muitas vezes fizemos apelo ao – título de uma primeira página – “Entendam-se lá…”. A minha convicção, escrevi, era de que se isso não acontecesse todos, dos mais à direita aos mais à esquerda, quer dizer, do Sanches Osório ao Otelo, passando pelo Vasco Gonçalves e pelos “nove”, iam vítimas do “processo”. Como aconteceu, em tempos e circunstâncias diferentes…
2. Foi também nesta ótica que, quando o Otelo foi substituído pelo Vasco Lourenço no comando da Região Militar de Lisboa, com toda a agitação consequente, tive a ideia de ouvir cada um sobre o outro, como referi na última crónica. Telefonei ao Vasco, com quem tinha contactos frequentes, que achou bem e logo se prontificou a falar. Dei forma escrita ao que me disse, titulando “Pretendem servir-se do Otelo” e não apoiá-lo.
Já o Otelo, também concordando, preferiu falarmos de viva voz ou até ele próprio escrever. Mas tinha de ser nesse dia, O Jornal saía no dia seguinte. Falarmos onde? Em S. Julião da Barra, onde nessa tarde reunia o Conselho da Revolução – marcou ele.
Por isso alguém deu ordem para me deixarem entrar. Andei por ali a ver se descobria alguma coisa interessante para reportagem, a certa altura estava debaixo da janela da sala em que Morais e Silva recebia uma delegação de paraquedistas. Que cinco dias depois se revoltariam contra a sua decisão de os destroçar como corpo, dando origem ao 25 de Novembro. Não conseguia compreender o que diziam mas pelo som que me chegava percebi tratar-se de uma discussão pelo menos acalorada.
Fazia-se tarde, o Otelo não chegava, resolvi telefonar-lhe para o COPCON. Atendeu-me o coronel Artur Baptista, seu chefe de gabinete, a quem transmiti o que pretendia
O nosso general já disse que não voltava ao Conselho da Revolução – respondeu-me ele e era verdade.
– Disse há dias, mas falámos ainda hoje e ele prometeu, combinámos, estar aqui para uma coisa dele para O Jornal de amanhã – repliquei eu.
Já não tenho a certeza se o coronel me passou ao Otelo ou se disse que iria transmitir-lhe a mensagem. Suponho ter sido isto, o importante é que o Otelo lá apareceu, com o seu ar, o seu estilo, desenvolto e decidido de sempre. O Conselho estava no intervalo para jantar, fomos para a sala e a grande mesa em que decorria a sua reunião. O Otelo sentou-se à cabeceira, onde estivera o Presidente Costa Gomes, começou a falar e pediu papel para escrever.
– Eu gosto de escrever e, está a ver Vasconcelos, escrevo com grande facilidade, se calhar podia ser ou ainda posso ser escritor – disse-me, prazeroso, sorridente. (Era verdade: o seu futuro livro, Alvorada em Abril, é muito bem escrito e um excelente testemunho sobre a revolução de 1974).
O seu texto intitulei-o “Não devemos queimar o Vasco na voragem da Revolução”, e nele Otelo, sem esconder o que então os separava, lembrava que se conheceram na Guiné e cimentaram “uma forte e duradoura amizade” na preparação do 25 de Abril. E escreve nomeadamente: “A comunhão de ideias políticas e a necessidade que sentíamos ambos de ‘fazer qualquer coisa’ para destruir um regime que o povo não aceitava, e para além disso a força, o carácter e a capacidade de liderança do Vasco Lourenço fizeram e fazem que eu o estime como a um irmão.”
3. Houve ainda mais, em S. Julião da Barra, nesse extraordinário e talvez decisivo dia 20 de novembro de 1975. Ao princípio da noite chegou uma delegação dos Comandos para entregar ao Presidente uma moção aprovada no Regimento. A moção defendia “a substituição imediata de todos os militares que, na prática, se revelaram incapazes de servir, apartidariamente, o Exército e o povo português”. E eram três os seus portadores: o comandante, Jaime Neves, o 2º comandante, Lobato de Faria, e o major Morais. Contrastando com o desleixo e a degradação da imagem de muitos militares alegadamente “revolucionários”, os três impecavelmente fardados e aprumados, Lobato de Faria distinguindo-se pela estatura e pelo “porte”.
Além de entregarem a moção, Jaime Neves falou, acentuando que se colocava inteiramente à disposição de Costa Gomes para tudo que entendesse necessário, designadamente preservar o prestígio e a disciplina das Forças Armadas, de que era chefe supremo.
Costa Gomes (CG) agradeceu e disse umas breves palavras. No ambiente que então se vivia, de indisciplina ou até balbúrdia em vários quartéis – que em minha opinião só poderia, de imediato ou a prazo, servir à extrema-direita e aos inimigos da democracia –, aquele “ato” impressionou-me. E foi mais uma achega para considerar que uma solução pacífica da situação existente, com a afirmação/consolidação da democracia, passava fundamentalmente por Costa Gomes e seu apoio às posições do grupo dos nove.
4. O que a seguir se confirmou. Após receber os Comandos, CG, que continuava com os elementos do Conselho da Revolução, partiu para Belém, acompanhado por dois deles: Marques Júnior, um autêntico símbolo do 25 de Abril, e Canto e Castro. Frente ao Palácio, convocada pela Cintura Industrial de Lisboa, havia uma manifestação que visava “apoiar Costa Gomes” e fazer com que ele demitisse o governo “de direita” em greve.
Eram talvez dezenas de milhares de manifestantes e CG fez uma intervenção à altura da sua rara inteligência, habilidade, capacidade para evitar ou ultrapassar as situações mais difíceis ou dramáticas. Inclusive recorrendo à técnica do que lhe chamaram, como um insulto – ser o “rolha” – e foi importante para não acontecer o pior, uma guerra civil.
Assim, o Presidente agradeceu muito o apoio que ali estavam a manifestar-lhe, garantiu a defesa do 25 de Abril, da democracia e do socialismo – por aí fora… A multidão aplaudiu muito, dispersou quase totalmente, ficaram umas dezenas ou centenas a clamar, a protestar: “Fomos enganados, fomos enganados”…
De facto, o general Costa Gomes não disse que demitiria o governo, como não demitiu. E sabe-se o que aconteceu cinco dias depois, tendo ele um papel decisivo, a 25 de novembro, na vitória do 25 de Abril e seus grandes valores; na derrota da extrema-esquerda, mas também de uma extrema-direita que hoje o “comemora”, o 25 de Novembro, como se sabe…