1. Naqueles primeiros dias após o “fecho” do último JL, Jornal de Letras, em meados de julho, pela primeira vez desde há muitos, muitos anos, senti-me plenamente em férias… Não tinha que pensar na próxima edição, telefonar a pedir isto e aquilo, mandar emails a lembrar prazos, escrever e ler textos, etc. Coisas, embora não todas, que mesmo no período teórico de férias também me preocupavam, não conseguia esquecer. Soube da morte do José Blanco, e de par com a tristeza que a notícia me causou, a minha reação imediata foi a de termos de fazer no jornal uma coisa boa que lhe prestasse justiça. Ou seja: recordar o sabedor e devotado estudioso de Pessoa, como administrador da Gulbenkian propiciador de bolsas a seus investigadores, cujo trabalho o JL mais do que uma vez destacou; e, sobretudo, o homem que naquela qualidade, e à frente de diversos serviços da Fundação, incluindo os de música e internacional, teve ação de grande relevância para a cultura e o país. Imaginando que, como aconteceu, não fosse lembrado/valorizado como devido tudo que José Blanco fez, por exemplo, para a preservação do património histórico português no mundo – “missão” em que trabalhou com ele o excelente arquiteto Viana de Lima. Foi a minha primeira reação – e só depois me lembrei que afinal não havia JL…
2. Mas a que propósito vem isto agora? Cerca de três meses corridos sobre aquela última edição, se algumas vezes – por exemplo, na recente atribuição do Prémio Camões à Ana Paula Tavares – lamentei não haver jornal para o assinalar e “tratar” um tema à nossa maneira, senti exatamente o mesmo, ou ainda mais, do que em relação ao José Blanco agora na morte, no passado dia 17, do António Borges Coelho (ABC). Velho “querido amigo” – como ainda sublinhava há cerca de um mês na dedicatória do seu livro Poemas, em boa hora acabado de editar pelo Zeferino Coelho (Ed. Caminho) -, além de notável historiador uma figura raríssima: pelo seu espírito humanista, pelo seu caráter, pela sua seriedade, simplicidade e solidária atenção aos outros.
E muito mais. Porque tendo sofrido o que sofreu durante a ditadura, perseguições de toda a ordem, seis anos e meio de prisão no Aljube e no forte de Peniche, a proibição de ser professor (saído do cárcere foi jornalista…), com a sua força de convicção, capacidade de entrega e luta, foi sempre, como noutra circunstância sublinhei, um homem discreto e cordial, que “na fidelidade ao essencial dos ideais por que se bateu mantém e manteve sempre um espírito tolerante, sem nenhuma espécie de ódio ou ressentimento, de que até a limpidez do seu riso ou sorriso aberto constitui sinal seguro”.
Acrescente-se, aliás, que ao seu currículo de vítima da fascismo à portuguesa se deve incluir o da sua companheira de sempre, Isaura, que foi também perseguida, agredida (arrastada pelos cabelos pela polícia…), ré num processo vergonhoso na sequência da sua luta, como enfermeira que era, contra uma das muitas medidas de Salazar que atestam o que foi o “catolicismo” do seu pensamento e regime: as enfermeiras não podiam casar nem ter filhos – e eram demitidas da função pública, como ela foi, se deixassem de ser solteiras ou os tivessem. Isaura esteve quatro anos presa, dos quais sete meses e dez dias em “isolamento”, ela e e ele casaram-se … no forte de Peniche.
3. A obra de ABC como historiador é enorme e de grande importância; como o é como professor, sobretudo depois do 25 de Abril na Faculdade de Letras de Lisboa, de centenas de alunos gratos por tudo que lhes ensinou e como os ensinou. Além dos domínios em que é unanimemente reconhecida como fundamental na historiografia portuguesa – sobre a ocupação/presença árabe na Península Ibérica, a Inquisição, etc. – a sua obra abrange outras áreas e diversos períodos da nossa história. Com a sua assinalável “coragem serena” e capacidade de trabalho, inclusive na área da investigação, ABC abalançou-se, com 80 anos (morreu com 97) a começar a publicar uma História de Portugal, de que saíram sete volumes. Cujos títulos dão conta da sua amplitude: o do primeiro é Donde Viemos; os dos dois últimos são Da Restauração ao ouro do Brasil e Portugal na Europa das Luzes.
Como muito bem escreveu Sérgio Campos Matos em uma das múltiplas matérias e salvo erro três capas que o JL ao longo do tempo lhe dedicou, António Borges Coelho foi, é, um “historiador da condição humana”, com “um lugar absolutamente original na nossa historiografia”, pela “coerência do seu percurso”, “a conceção totalizante de história de marca hegeliana, embora a narrativa viva também do pormenor significativo: uma narrativa cinematográfica, por vezes jornalística, elíptica, sugestiva, na sua marca dramática, inesperada”.
4. Não querendo entrar nesta coluna em qualquer análise, para a qual não tenho competência, parece- me imperioso citar o que sobre ABC, numa homenagem que lhe foi prestada, disse outro grande historiador, José Mattoso, com uma posição filosófica/ideológica muito diferente da sua:
“… mereceu a pena enfrentar riscos e humilhações que só lhe fortaleceram a dignidade, mereceu a pena consagrar longas horas à investigação e à docência, mereceu a pena cultivar a força transfiguradora e simbólica da palavra (…) Queremos agradecer-lhe: ter-nos mostrado o caminho certo, seja o do combate frontal como o que travou na juventude, seja o da conquista de uma posição a partir da qual possamos fazer ouvir a nossa voz, como ele fez também, subindo, pela sua competência científica e a sua autoridade moral, ao topo da carreira universitária (…); ter tido a coragem de, com risco da própria vida, contribuir para eliminar um regime opressor e injusto (…); não ter deixado que as marcas da repressão de que foi vítima, em vez de se traduzirem em ódio, desabrochassem em celebração da vida pela palavra poética, pela amizade do convívio, pela ironia bem humorada, pela disponibilidade e o otimismo.”
Uma nota ainda para o facto de ser “notório” o escritor ABC estar muito presente em inúmeras páginas da vasta obra do historiador ABC – e, claro, ainda mais em intervenções e textos como os reunidos no livro Crónicas e Discursos, publicado em 2024. O Eduardo Lourenço dizia-me sempre que recebia e lia um dos livros do ABC que ele era muito bom escritor, no JL o Mário de Carvalho, entre outros, sublinhou-o, e no prefácio ao livro História e oficiais da História o António Lobo Antunes escreveu ter encontrado nele “um grande escritor, coisa que há muito não me sucedia no que à nossa língua diz respeito”. Por isso, quando saiu o Donde Viemos, titulei assim uma daquelas capas que lhe dedicamos: História de Portugal: rigor e ‘melodia’.
5. Nestes tempos tristes, em que o ódio se espalha ou derrama como óleo numa estrada de asfalto a que tantos querem atear o fogo, nestes tempos em tanto faltam cidadãos corajosos, militantes, tolerantes, humanistas no mais amplo e nobre sentido da palavra, e em que até não abundam os intelectuais, académicos, escritores, artistas, que intervenham a pensar nos outros, na cultura, na defesa da democracia e no país como creio se imporia – que fique o grande exemplo de António Borges Coelho.