Ao que parece, esta semana tivemos autorização oficial para “não estar bem”. A Blue Monday voltou a lembrar-nos que há dias mais pesados do que outros. Um bom exemplo de como continuamos a procurar datas, fórmulas e explicações simples para algo que é, na verdade, bem mais complexo.
Partilharam-se frases inspiradoras, playlists, estratégias rápidas para “aguentar janeiro”…. Depois, como acontece quase sempre, o tema esgotou-se. Não porque as pessoas tenham ficado melhor, mas porque a conversa mudou.
O desconforto raramente desaparece quando deixa de ser falado. Apenas se torna menos visível. Menos aceitável. Menos instagramável.
É aqui que acredito entrar um dos grandes equívocos contemporâneos sobre a felicidade: a ideia de que sentir-se bem é algo que se mostra, que se comunica, que se partilha mesmo quando por dentro não é real. Vivemos numa cultura onde a felicidade se tornou uma espécie de performance social.
Esta exigência de parecer sempre bem não passa incólume pelo corpo. Quando sentimos que temos de sustentar uma imagem de confiança, mesmo em momentos de cansaço, frustração ou desânimo, algo em nós permanece em esforço. O corpo não entra verdadeiramente em descanso. Mantém-se num estado de prontidão silenciosa, como se fosse preciso estar sempre disponível, sempre funcional.
Não existe um perigo real, mas a pressão para não falhar torna-se tão constante que transforma exceção em permanência. O resultado não é felicidade. É cansaço que não passa com descanso, irritabilidade sem causa aparente, dificuldade em desligar a cabeça.
Quando o cérebro percebe que não há espaço para abrandar, a autorregulação falha e o corpo acaba por falar mais alto.
Talvez o convite, depois deste “dia mais triste do ano”, não seja aprender a estar sempre bem, mas deixar de fingir que isso é possível.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.