A recente classificação da Arrábida como Reserva da Biosfera pela UNESCO é, sem dúvida, um motivo de orgulho coletivo. Reconhece-se ali um território de rara beleza e de elevada diversidade natural, ecológica e cultural. Contudo, esta distinção traz também um desafio: o de compreender a complexidade da sustentabilidade. A Arrábida não é um santuário intocável; é um território vivo, com geologia, história e necessidades humanas que não podem ser ignoradas.
A serra da Arrábida é um maciço calcário singular. A sua geologia encerra formações com elevado teor de carbonato de cálcio (CaCO₃), baixa presença de impurezas e excelente qualidade física e química. Este tipo de calcário é indispensável para inúmeras aplicações vitais, como a produção de cimento, cal, vidro, cerâmica, mas também em corretivos agrícolas e processos industriais. A geologia da Arrábida é de valor excecional não só pela paisagem, mas pela sua funcionalidade material, que há séculos sustenta a vida e a economia locais. É este substrato rochoso que sustenta e justifica todos os valores e patrimónios da Arrábida, incluindo o ecológico. Ignorar esta realidade seria negar a verdade e a evidência: o calcário é um recurso incontornável. Transportá-lo a longas distâncias é económica e ambientalmente irracional. O custo energético e as emissões de CO₂ associadas ao transporte de pedra e cimento importados, ou de outras regiões do País, seriam muito superiores ao impacto controlado de uma exploração local. O princípio da subsidiariedade ecológica, defendido por Serge Latouche (2020), lembra-nos que o desenvolvimento sustentável deve começar por usar o que o território oferece, de forma justa e responsável, antes de recorrer ao exterior. Se a Arrábida deixasse de fornecer calcário, estaríamos apenas a transferir o impacto para outros lugares, um gesto de hipocrisia ecológica, e de estupidez humana.
Importa também esclarecer que Reserva da Biosfera não significa proibição de atividades humanas. Pelo contrário: o programa Man and the Biosphere da UNESCO assenta na ideia de conciliação entre conservação e uso sustentável. São territórios-laboratório onde se experimentam formas de vida compatíveis com os limites ecológicos. Assim, as pedreiras podem e devem coexistir com a conservação, desde que integradas em modelos de gestão ambiental rigorosos, tecnologicamente avançados e socialmente responsáveis.
A Arrábida tem, aliás, uma relação histórica com a pedra. A extração de calcário moldou a sua paisagem cultural e o seu património construído. As vilas, as calçadas, as ermidas e as fortificações são testemunhos dessa ligação entre o ser humano e o substrato geológico. As pedreiras fazem parte da identidade do lugar, e podem ser reinterpretadas como património geológico e industrial, à semelhança do que se tem feito noutros territórios, onde antigas pedreiras foram reabilitadas como espaços educativos e turísticos, uma oportunidade para ligar ciência, cultura e regeneração.
A transição ecológica que tanto se proclama não pode ser só um slogan urbano. Ela exige ciclos locais de materiais, coerência entre discurso e prática, e uma verdadeira economia circular territorializada. O calcário da Arrábida é um recurso essencial também para restaurar ecossistemas, corrigir solos ácidos, neutralizar efluentes, regenerar a fertilidade da terra. A autossuficiência material é uma das condições da sustentabilidade, e abdicar dos recursos locais seria um retrocesso, uma forma de dependência travestida de virtude ambiental.
O que se exige, portanto, não é o fim das pedreiras, mas uma gestão integrada e regenerativa. Isso implica planeamento, monitorização ambiental independente, reabilitação paisagística faseada e participação das comunidades locais. As pedreiras podem ser locais de extração e, depois, de educação e contemplação, espaços de geoconhecimento e de regeneração ecológica. Valorizar e conservar a geodiversidade é parte essencial da proteção da Natureza. A terra que nos sustenta não é apenas verde, é também pedra, tempo e memória.
A cidadania ecológica responsável começa por reconhecer esta evidência: não há sustentabilidade sem matéria, e não há matéria sem território. A Arrábida não deve ser um museu geológico, mas um território exemplar, onde se demonstra que é possível conciliar a conservação da vida com o uso criterioso dos recursos. Proibir é fácil; gerir com sabedoria é que é o verdadeiro desafio civilizacional.
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