Querida Chéu,
Como compreendo a tua revolta e a tua profunda tristeza ao leres o testemunho de Gisèle Pélicot. Ainda esta semana em conversa com uma amiga, esta me perguntava o que teremos feito de errado para que os nossos filhos (e digo declaradamente no masculino, não me refiro às filhas) tenham votado João Cotrim Figueiredo nas suas primeiras eleições. De acordo com as estatísticas e as sondagens, as raparigas da mesma faixa etária votaram à esquerda enquanto os jovens rapazes entre os 18 e os 35 anos votaram maioritariamente João Cotrim Figueiredo na primeira volta às Presidenciais: um gestor que afirma numa entrevista à SIC que a decisão de estudar em Londres se deveu “à situação de instabilidade que o processo revolucionário subsequente ao 25 de Abril criara no ensino e nas universidades em Portugal” e que entre 2006 e 2010 trabalho no Banco privado português ao lado de João Rendeiro, lembras-te? O banqueiro que fugiu para a África do Sul para não ser preso em Portugal e acabou por (alegadamente) suicidar-se numa cela em Joanesburgo? Pois é, João Cotrim Figueiredo substituiu esse senhor na presidência da Comissão Executiva do BPP em 2009. Um empresário que diz ser político “por acidente” e por “desejar um mundo melhor para os seus filhos” que, sente, têm poucas oportunidades de emprego em Portugal. Para resolver tal situação, Cotrim decidiu aspirar ao mais alto cargo político do País defendendo a liberalização de toda a economia, da privatização da RTP à Caixa Geral de Depósitos, passando pela TAP e pelos serviços básicos, desresponsabilizando o Estado que quer liderar de tomar decisões sobre quase tudo. Um homem que afirma admirar Javier Miley, o atual presidente da Argentina, não só nas suas políticas de trabalho – que defendem horários de 12 horas, facilidade de despedimento por partes das empresas e outsourcing (como aliás se discute por cá com o pacote laboral proposto pelo Governo) como no passado dia 8 de março, dia da mulher, “celebrou o fim das políticas de igualdade de género” no seu país tal como anunciara que iria fazer em 2023, extinguindo instituições como o Ministério da Mulher, Género e Diversidade ou a Secretaria de Estado de Proteção contra a violência de género, executando cortes de quase 100% em orçamentos para programas de combate à violência doméstica ou de defesa dos direitos da mulher, recuando em políticas de proteção das mulheres, como aconteceu com o acesso dificultado ao aborto assistido, por exemplo.
Cotrim, nesta matéria de interrupção voluntária da gravidez, defende a intervenção e consulta do homem para validar a decisão de uma mulher em abortar – é uma chatice as mulheres já andarem por aí a fazer tudo o que lhes dá na realíssima gana sem terem de pedir permissão aos seus homens, o melhor é colocar um travãozinho aí também. Cheguei a ter uma discussão com o meu dentista, acérrimo defensor de Cotrim e com a idade dos filhos da maioria das minhas amigas sobre este assunto, concluindo ele, a título de argumento favorável que Cotrim, “em relação ao aborto, esta até é uma política daquelas que vai ao encontro da vossa esquerda!” E foi nesse momento que uma luz se acendeu ao fundo do meu túnel! Um jovem hoje entre os 18 e 30 anos assistiu a uma esquerda em crise, emaranhada nos seus próprios conflitos, a cuspir na sua primeira geringonça (momento utópico que deveria ser verdadeiramente estudado e que poderia ter mudado o rumo da Europa) e a avançar a meio-gás na construção de um futuro melhor para todos. Se juntarmos a esta visão desanimada de um projeto de democracia dos mais livres da história recente Ocidental uma crescente misoginia e masculinização violenta da juventude promovida pelo american way of life via Netflix, temos um cocktail ideal para olharmos para um homem de perfil (era essa a sua imagem de campanha) e acharmos que estamos a ver um político que enfrenta as adversidades de peito aberto e defende numa assembleia, numa presidência ou mesmo numa cadeira de CEO, os cidadãos que representa.
Se calhar é tempo de olharmos para o que não fizemos nos últimos 10 anos em nome de uma esquerda que talvez ande arredada do seu próprio futuro e percebermos onde errámos para deixarmos tanta estrada livre para que venham os bulldozers terraplanar o jardim plantado.
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela