Portugal habituou-se a olhar para o sol como um ativo turístico. É, sem dúvida, uma vantagem competitiva importante para um setor chave da economia nacional. No entanto, o seu valor não se limita ao turismo porque pode ser aproveitado, diariamente, para produzir energia limpa. A este facto juntam-se outros, como o conhecimento técnico acumulado e um enquadramento regulatório que reconheceu relativamente cedo o potencial do autoconsumo e das comunidades de energia. Também a cadeia de valor da geração solar descentralizada está mais preparada para responder às necessidades de empresas, municípios, instituições e famílias que pretendem reduzir a fatura energética e a pegada carbónica.
Hoje, produzir energia através da tecnologia solar é a forma mais barata que existe. Como consequência, entre 2021 e 2025, foi a fonte de geração de eletricidade que mais rapidamente cresceu na União Europeia. Só em 2025 foram acrescentados 65,1 GW de nova capacidade fotovoltaica. Em 2026, pelo menos 18 Estados-membros já atingiram novos máximos mensais na percentagem de eletricidade produzida a partir do sol.
As boas notícias não ficam por aqui. No mês passado, a energia solar gerou um valor recorde de 52 TWh de eletricidade na União Europeia, o equivalente a 25% da produção mensal. Ou seja, tornou-se a maior fonte individual de eletricidade, à frente da energia nuclear, do gás, da eólica e da hídrica. Se puxarmos a fita do tempo para trás, em junho de 2021, vemos que representava apenas 10% da eletricidade produzida no bloco.
Espanha tem mostrado de forma muito concreta o impacto económico desta aposta. Depois de acrescentar mais de 40 GW de capacidade eólica e solar desde 2019, o país conseguiu reduzir a exposição do preço da eletricidade às oscilações do gás. Segundo uma análise da Ember, os agregados familiares do país vizinho pouparam, em média, cerca de 10 euros mensais durante a recente crise energética, comparativamente com um cenário em que a nova capacidade renovável não tivesse sido instalada.
A principal conclusão não é apenas que devemos instalar mais painéis solares. É que precisamos de aproveitar melhor a energia produzida. A verdadeira oportunidade está em aproximar produção e consumo, permitindo que seja consumida no próprio local ou partilhada com empresas e famílias próximas.
A lógica das comunidades de energia dá ainda mais força a um potencial que temos de reforçar em Portugal: em vez de ativos isolados, passamos a dispor de ecossistemas energéticos locais, nos quais produtores e consumidores beneficiam da mesma infraestrutura.
Para uma empresa, isto pode significar energia mais competitiva e previsível, maior controlo sobre os custos e menor exposição à volatilidade dos mercados. Para uma família, pode representar acesso a energia renovável sem necessidade de instalar painéis em casa. Para um município, um parque empresarial ou uma instituição de cariz social, cultural ou desportivo, permite gerar valor local, apoiar consumidores vulneráveis e reforçar a atratividade do território.
As comunidades de energia também tornam possível integrar progressivamente baterias, carregadores de veículos elétricos e sistemas inteligentes de gestão. A energia produzida durante as horas de maior exposição solar pode ser armazenada, direcionada para os consumos mais relevantes ou utilizada quando a rede está sob maior pressão. A digitalização permite coordenar estes recursos e transformar consumidores passivos em participantes ativos no sistema energético.
Num tempo em que o sol continua a brilhar, relaxe e aproveite o seu potencial. Mas não se esqueça que este pode ser um fator decisivo para a competitividade das empresas, que ainda estamos longe de aproveitar plenamente.
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