Que bom ver tanta gente a apontar a hipocrisia dos artistas que boicotaram o Commedia à la Carte Fest por causa de um humorista que acha graça a bebés palestinianos serem mortos por bombas israelitas. E, felizmente, é tudo gente que tem a qualidade mais essencial para poder criticar: nunca ter tomado uma posição política publicamente. É brilhante. Sejam mais famosos ou menos famosos, sejam mais ou menos artistas, como nunca se atravessaram por nada nem ninguém, também nunca lhes poderá ser apontada qualquer falha ou hipocrisia.
Assim sendo, aparecem-nos sempre com uma espinha dorsal impecável, de quem vive muito bem com as suas escolhas que, não só lhes enchem as contas bancárias, como lhes permitem criticar os outros com pompa e circunstância. E mais ainda: a superioridade moral de quem nunca tem a mínima posição política corajosa, para não beliscar de maneira alguma os patrocinadores da sua bela vida, é tanta que nem é preciso darem-se ao trabalho de irem tentar perceber como se passaram realmente as coisas. É que, se o tivessem feito, em poucos segundos teriam descoberto que a maior parte dos artistas do cartaz, só depois de já terem aceitado o convite e assinado contrato é que descobriu que estrela maior era Seinfeld, o adorador do genocídio. Mas claro que tem mais graça apontar a enorme hipocrisia daqueles que, aparentemente, em abril gostavam do Seinfeld e em setembro já não, mesmo que não tenha sido nada assim.
Também gosto bastante da crítica “só o fizeram por pressão do público”. Faz todo o sentido. Um artista que se preze deve estar-se completamente a marimbar para o que o seu público acha. Deve ignorar totalmente quando o seu público o chama a atenção para uma opção artística e política errada. Por exemplo, mesmo que tanta gente diga que a romantização do jogo online e das apostas desportivas seja horrível e esteja silenciosamente a destruir milhares de famílias, os artistas a sério devem ignorar as críticas e continuar a ser patrocinados por estas empresas. E este argumento tem ainda outro mérito, que é o de desprezar completamente o poder popular, pondo o foco e responsabilidade todo no artista.
Enfim, tem sido todo um espetáculo muito divertido de se ver. Pelo menos, mais divertido que o do próprio Seinfeld, cujo material de stand-up é pior do que o da maior parte dos putos que andam agora a começar a fazer open mics pelos bares, vivendo acima de tudo da aura da série escrita por Larry David.
Ficamos agora todos a aguardar as críticas ao cancelamento do Macklemore por dizer “Free Palestine” ou, voltando ao Seinfeld, as análises ao porquê de, aparentemente, não fazer confusão a quase ninguém que ele, aos 39, tenha namorado com uma adolescente de 17, e que ainda hoje se orgulhe disso.
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