Há mortes que nos deixam tristes. E há mortes que nos fazem sentir que uma parte da nossa própria história também desapareceu. A partida de Jorge Palma é uma dessas mortes.
O músico morreu aos 76 anos, depois de mais de cinco décadas dedicadas à música. Deixa uma obra que atravessou gerações e que, muito mais do que fazer parte da história da música portuguesa, passou a fazer parte da história pessoal de milhares de portugueses.
É difícil falar de Jorge Palma sem falar das suas canções, mas é ainda mais difícil falar das suas canções sem falar das nossas vidas.
Porque há músicas que simplesmente ouvimos e há músicas que nos acontecem.
“Frágil”, “Encosta-te a mim”, “Dá-me lume”, “Deixa-me rir”, “A gente vai continuar” e tantas outras não são apenas títulos de uma discografia extraordinária. São memórias. São pedaços de tempo. Estão associadas a pessoas, lugares, amores, separações, noites de conversa, viagens, encontros e desencontros. Estão presentes em momentos em que fomos felizes e, muitas vezes, naqueles em que precisamos de uma canção para perceber aquilo que não conseguíamos dizer.
Essa é talvez uma das maiores grandezas de Jorge Palma: conseguiu transformar sentimentos individuais em emoções coletivas.
Cantou o amor, mas também a solidão. Cantou a liberdade, mas também as dúvidas. Cantou a noite, a boémia, os sonhos, as derrotas e as pequenas vitórias de quem vai caminhando pela vida. E fê-lo com uma autenticidade que não precisava de grandes explicações.
Jorge Palma nunca pareceu querer ser aquilo que não era, talvez por isso tantas pessoas se tenham reconhecido nele.
A sua carreira foi longa, inquieta e singular. Começou ainda muito jovem na música, passou pelo rock, pelo piano, pela guitarra, por diferentes projetos e colaborações, e construiu ao longo de mais de 50 anos uma obra que nunca deixou de se renovar. Entre os seus discos encontram-se alguns dos trabalhos mais marcantes da música portuguesa, como “O Lado Errado da Noite”, “Quarto Minguante”, “Bairro do Amor”, “Só” ou “Voo Nocturno”.
Mas os prémios, os discos e os palcos não explicam tudo. Um artista mede-se também pela capacidade de permanecer na vida das pessoas quando já não está presente e Jorge Palma permanecerá.
Permanecerá naquele rádio ligado numa viagem de carro. Naquela música que alguém escolheu para uma noite especial. Na letra que alguém ouviu depois de uma separação. Na canção que dois apaixonados fizeram sua. Na música que uma geração inteira aprendeu a cantar.
É por isso que a sua morte representa uma perda tão grande para a música portuguesa.
Perdemos um músico extraordinário, um compositor singular e uma voz absolutamente reconhecível. Perdemos alguém que ajudou a construir uma determinada forma de fazer e sentir a canção portuguesa.
Mas há uma coisa que a morte não consegue levar. As canções. E talvez seja essa a melhor forma de homenagear Jorge Palma, continuar a ouvi-lo.
Porque enquanto alguém colocar “Frágil” a tocar, enquanto alguém cantar “Encosta-te a Mim”, enquanto alguém descobrir pela primeira vez uma das suas canções e nela encontrar palavras para aquilo que sente, Jorge Palma continuará, de alguma forma, entre nós.
Há artistas que fazem música. Há outros que fazem parte da banda sonora das nossas vidas. Jorge Palma pertence, definitivamente, a esse segundo grupo.
Partiu o homem. Fica o músico. Fica a obra. Ficam as palavras. Ficam as melodias. E ficam, sobretudo, todas as vidas que as suas canções ajudaram a acompanhar.
Talvez seja esse o verdadeiro significado da eternidade para um artista, não deixar de ser ouvido quando já não pode cantar.
Jorge Palma já não está connosco, mas a sua música ficou. E enquanto houver alguém disposto a ouvi-la, continuará a viver.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.