Na história da nossa vida, quando tentamos encontrar o primeiro momento em que ouvimos falar em dinheiro é difícil haver uma resposta concreta. Tentamos mais um bocado e talvez se nos mostrem memórias de máquinas registadoras pequeninas com moedas de plástico e notas de papel-rascunho. Ao pensarmos nisto, e já sem grandes tentativas agora, lembramo-nos de que estas notas e moedas, apesar de falsas, tinham o mesmo valor verdadeiro para todos os miúdos que as tivessem nas mãos.
No entanto, será que isto do dinheiro, falso ou verdadeiro, ter o mesmo valor para todos é realmente verdade ou temos andado com brincadeiras mais reais do que a própria realidade?
Em Alexandra, um dos bairros mais pobres de Joanesburgo, na África do Sul, existe uma mulher chamada Tsholofelo Mphela que, todas as manhãs, quando o sol ainda sobe às nuvens, se dirige a um contentor amarelo para comprar algumas colheres de comida, já que um saco de dois quilos custa 60 rands sul-africanos e os clientes destas lojas dependem de apoios públicos mensais fixados em 350 aproximadamente.
Na verdade, antes da inauguração destas lojas-contentores que vendem ao peso o exato valor do quilo, Tsholofelo, como muitos dos habitantes de Alexandra e milhões de sul-africanos, ficava limitada às pequenas quantidades de algumas centenas de gramas que o comércio convencional vende a um sobrepreço muito superior e desproporcional quanto ao custo das embalagens padrão.
Ainda assim, e apesar de Tsholofelo antes pagar um preço mais caro por uma dose mais pequena, não era a sua comida que valia mais, mas, justamente, o seu dinheiro, que, por ser pouco e incerto, valia menos, embora se tratasse, claro, do mesmo bem alimentar, comprado na mesma cidade, no mesmo mercado e pago com a mesma moeda ao mesmo vendedor.
Deste modo, é inevitável concluir que os mesmos 60 rands sul-africanos podem funcionar de formas totalmente diferentes: i) para uma pessoa com necessidades fundamentais asseguradas, essa quantia pode ser inteiramente utilizada na compra de um saco de dois quilos de comida, permitindo pagar menos por cada grama e adquirir, também, alguns dias durante os quais não será necessário voltar a preocupar-se com alimentação, sendo que ii) para alguém que tenha necessidades fundamentais por assegurar, os mesmos 60 rands dispersam-se entre elas e nunca chegam para ser gastos de forma barata, mas, sempre, sem opção, de forma cara, numa dose ínfima que, na melhor das hipóteses, dura apenas meia refeição.
Tudo isto pode soar esquisito, porque é, mas a verdade, como disse James Baldwin a propósito do Harlem, é que “qualquer pessoa que alguma vez tenha lutado contra a pobreza sabe como é extremamente caro ser pobre”. Sim! Quanto mais pobre se é, ou seja, quanto menos se tem, mais caro, literalmente, é ter-se alguma coisa.
Aliás, se Baldwin disse que é muito caro ser-se pobre, é preciso dizer-se, igualmente, que o maior custo dessa pobreza-cara já não é apenas o sobrepreço que, por exemplo, Tsholofelo pagava por comida antes da inauguração destas lojas-contentores, mas, decerto, o facto de a pobreza-cara custar, inclusivamente, algo inegociável: direitos humanos que qualquer cidadão tem, ou se não, devia ter.
Quando Tsholofelo, e outros milhões de sul-africanos, e, veja-se bem até, mil milhões de pessoas em todo o mundo, têm de adquirir o mesmo bem mas por um preço mais alto, durante mais vezes ainda que em proporções mais pequenas, não são apenas as suas finanças que são afetadas, mas, com muita certeza, a sua relação com o futuro que, naquela situação, deixa de existir por completo.
Entenda-se mesmo que, em larga verdade, a palavra “futuro” é, justamente, o auge único do Direito que, em latim, quer dizer “em linha reta” e “sem desvios”, só podendo rumar a algum lado quem não está permanentemente sujeito a regressar à casa de partida para satisfazer as mesmas necessidades que outros podem ter já sempre satisfeitas. Afinal, o futuro que o Direito oferece começa tão só quando o presente, do qual Tsholofelo arriscou quase não sair, deixa alguma coisa por usar: dinheiro, tempo, alimento ou pensamento.
Quem em vez de um saco de dois quilos apenas consegue comprar algumas colheres diárias não compra somente menos comida a um preço inflacionado e injusto: compra muitíssimo menos amanhã e perde a totalidade dele confinado num hoje que não passa, nem deixa passar. Este é o maior custo da pobreza-cara que referia Baldwin: não reduz apenas o mérito do dinheiro de quem quase já não o tem, mas retira, por completo, ainda, a capacidade de antecipar, escolher e, em suma, de alguém se concretizar enquanto ser humano que é.
Aqui chegados, seja em Joanesburgo com rands sul-africanos, em Odivelas com euros, em Varsóvia com złotys polacos ou, até, em Banguecoque com bahts tailandeses, das duas, uma tem de estar certa: ou as máquinas registadoras da nossa quase esquecida infância nos mostraram uma igualdade impossível que nunca existiu ou, alguém, já adulto feito, anda a tornar impossível a igualdade que, cada vez mais, para sermos os humanos que ainda podemos vir a ser, precisamos que exista.
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