Há coisas que se percebem melhor quando deixamos os números de lado por um momento e pensamos nas pessoas que estão por detrás deles.
Pensemos, por exemplo, num aluno que começa o ano letivo sem saber em que escola vai estudar ou um pai ou numa mãe que passa dias a telefonar para serviços, escolas e ministérios sem obter uma resposta concreta. Num professor que entra numa sala com quase 30 alunos e sabe, desde o primeiro minuto, que será impossível dar a todos a atenção de que precisam ou num jovem que vê a sua nota de exame ser alterada porque o sistema de classificação teve erros ou, ainda, que se vê colocado numa escola a 300 kms de distância.
É esta a realidade que, em diferentes mas consistentes momentos, a educação portuguesa tem mostrado.
Torna-se difícil não perguntar: é esta a escola que queremos para a juventude?
O início do ano letivo de 2026/27 voltou a expor um problema que não deveria ser novidade: a falta de vagas em algumas escolas públicas, particularmente na região de Lisboa, existindo alunos que chegaram a setembro sem colocação definitiva. A resposta do Ministério da Educação passou essencialmente pelo aumento do número de alunos em algumas turmas, mas também pela criação de novas turmas e pela reorganização dos espaços existentes.
É verdade que o problema acabou por ser, em grande medida, formal mas não substancialmente resolvido. Contudo, não podemos confundir “resolver” uma emergência com planear um sistema educativo.
Quando um aluno não tem escola no início do ano, alguma coisa falhou antes. E quando a solução passa por encaixar mais alunos nas turmas existentes, a pergunta seguinte é inevitável: quem paga o preço dessa solução?
Na maioria das vezes, são os professores e os próprios alunos, já que uma turma não é uma sala cheia de cadeiras: são 30 pessoas diferentes, com ritmos diferentes, dificuldades diferentes, histórias familiares diferentes e, muitas vezes, necessidades educativas muito distintas.
Um professor tem de ensinar a matéria, esclarecer dúvidas, corrigir trabalhos, acompanhar quem está atrasado, estimular quem tem mais facilidade, gerir conflitos, adaptar estratégias e, cada vez mais, responder a situações de inclusão e diversidade cultural. Tudo isto dentro de uma sala com tempo limitado.
Obviamente, quanto maior é a turma, menor tende a ser o tempo disponível para cada aluno.
A Federação Nacional da Educação tem alertado precisamente para os efeitos pedagógicos do aumento do número de alunos por turma, salientando que não existe um número mágico a partir do qual a dimensão da turma deixe de ter impacto, uma vez que depende, entre outros, da idade dos alunos, da composição da turma e das necessidades educativas existentes.
É uma evidência que qualquer professor conhece bem, mesmo antes de qualquer estudo científico: ensinar 20 alunos não é o mesmo que ensinar 30, não se tratando apenas de uma questão de conforto mas antes se da qualidade da aprendizagem.
Também merece atenção a forma como têm sido geridos os processos de matrícula e transferência de alunos.
Para uma administração, transferir um aluno de uma escola para outra pode parecer apenas uma alteração num sistema informático mas para o estudante e para a sua família não o é, tratando-se de mudar rotinas, transportes, horários, amigos, professores e, em muitos casos, todo o ambiente em que uma criança ou adolescente aprende.
Quando surgem erros ou atrasos nas colocações, este problema deixa de ser burocrático.
Por exemplo, em Lisboa, a dimensão do problema foi suficientemente significativa para obrigar o Ministério da Educação a convocar uma reunião de emergência com os agrupamentos escolares e procurar soluções depois de o ano letivo já ter começado.
Ora, um sistema de matrículas tem uma função muito simples: garantir que cada aluno sabe, atempadamente, qual é a sua escola.
Se nem isso conseguimos assegurar com tranquilidade, então é legítimo questionar a qualidade do planeamento.
Depois chegam os números do PISA e não são nada simpáticos. No PISA 2025, Portugal obteve 460 pontos em Matemática, 462 em Leitura e 482 em Ciências. Em Matemática e Leitura, os resultados caíram significativamente face a 2022.
Mais preocupante ainda é a tendência de longo prazo. A percentagem de alunos portugueses abaixo do nível mínimo de proficiência aumentou desde 2015 nos três domínios avaliados.
Talvez seja importante olhar para estas estatísticas de outra forma, uma vez que atrás deles estão milhares de jovens que estão a ter dificuldades. em compreender um texto, interpretar informação ou construir um raciocínio. E, lá está, atrás de cada percentagem está uma história concreta.
O PISA não diz tudo sobre a educação portuguesa mas é um sinal de alerta que não pode ser ignorado.
Por outro lado, se o PISA revela problema estrutural, os exames nacionais de 2026 dão um retrato dos problemas imediatos.
A aposta na classificação digital dos exames nacionais começou muito mal, com classificações suspensas, erros de parametrização e necessidade de rever milhares de notas.
O próprio ministro da Educação reconheceu que o sistema “não começou bem”, o que é uma frase curta mas muito reveladora. É que, para um decisor político, um erro num sistema pode ser corrigido. Porém, para um aluno, uma nota errada pode significar não entrar no curso que pretendia, perder uma oportunidade ou adiar um projeto de vida.
Justamente por causa do caos criado, foi necessário criar uma época extraordinária. Sucede que os números da reapreciação das provas da segunda fase são particularmente reveladores, sendo impossível afirmar-se que se tratou apenas de “um problema técnico”. Não o foi para quem ficou à espera da nota, para quem teve de decidir se recorria ou não, ou para um jovem cujo futuro académico dependia daquela classificação.
A educação exige rigor precisamente porque lida com pessoas.
O problema é, portanto, maior do que uma sucessão de erros e é aqui que entra a responsabilidade política.
O atual Governo tem apresentado reformas e medidas para responder a vários problemas da educação mas uma política educativa não pode ser avaliada pela quantidade de medidas anunciadas mas pelo que acontece dentro das escolas e o que temos visto é demasiada improvisação.
De um lado, alunos sem colocação, transferências e matrículas que geram ansiedade nas famílias e turmas demasiado grandes. Doutro, professores confrontados com condições cada vez mais exigentes, com exames que começam com problemas e resultados internacionais que mostram uma evolução preocupante em áreas fundamentais.
Tudo isto poderia encontrar uma explicação individualmente mas, quando os problemas se acumulam, já não estamos perante uma mera coleção de acidentes. Trata-se um problema de gestão e de prioridades, uma vez que a educação não pode ser gerida na base dos remendos.
Não basta garantir que, no fim, todos têm uma vaga, sendo necessário garantir que essa mesma vaga corresponde a uma escola com condições para ensinar. Também não resulta curial colocar 30 alunos numa sala, sendo necessário perguntar se esses 30 alunos vão conseguir aprender.
Paralelamente, a criação de plataformas digitais é contraproducente quando falham e delas depende o futuro de milhares de jovens.
Daqui resulta inequivocamente que não é suficiente anunciar reformas, sendo antes preciso saber se essas reformas melhoram efetivamente a vida de quem está dentro da escola, uma vez que esta não é apenas uma máquina administrativa.
Aliás, muito provavelmente, este é o maior problema da política educativa atual: a tendência para olhar para a escola única e exclusivamente através de números, plataformas, vagas, turmas e procedimentos administrativos.
Alegadamente, Portugal investiu décadas a melhorar a sua educação. Não podemos aceitar como inevitável que os resultados comecem a recuar ou que a instabilidade se transforme numa característica permanente do sistema.
Nisto este Governo tem uma responsabilidade acrescida: planear, antecipar, ouvir quem está no terreno e corrigir os erros rapidamente porque a escola não pode funcionar em permanente estado de emergência. Do mesmo modo, porque, no fim de todas as estatísticas, reformas, plataformas e comunicados, há uma verdade simples que não podemos esquecer: cada aluno só tem uma infância, uma adolescência e uma oportunidade de construir o seu futuro.
A política educativa burocratizada pode esperar pela próxima reunião. Sucede que o aluno e a sua família não.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.