Ciro Molina tinha apenas 9 anos quando o padre de Tejina, uma aldeia em Tenerife, a maior das ilhas Canárias espanholas, o sentava entre as suas pernas para lhe perguntar “si la ponia durita”.
Os primeiros abusos começaram pouco depois de ele se tornar acólito na paróquia dirigida por Carmelo Hernández e agravaram-se com a sua entrada no seminário, aos 12 anos. Aí, durante a confissão, o padre queria saber com que frequência se masturbava e no que pensava ao fazê-lo.
“Enquanto me fazia essas perguntas, começava a tocar-me na coxa”, já contou Ciro uma e outra vez. Carmelo também pedia que lhe beijasse as mãos, chegou dar-lhe um beijo na boca e a meter uma mão por baixo da camisa.
O miúdo não seria a sua única vítima. Um dia, durante um retiro no sul da ilha, alguns dos coleguinhas acólitos disseram às catequistas que já não queriam confessar-se ao padre de Tejina. Nessa altura, elas contactaram Carmelo para lhe pedir uma explicação e ele respondeu simplesmente: “Se já sabiam, porque não me disseram antes?”
Em 2004, a família de Ciro apresentou a sua primeira queixa à Igreja e a resposta da instituição foi transferir o padre para outra paróquia. A população de Tejina pôs-se do seu lado, a vida dos Molina tornou-se um inferno e o miúdo tentou suicidar-se.
Em 2014, Ciro voltou a denunciar o caso de pedofilia à Diocese de Tenerife, que abriu um processo canónico contra o padre, tendo o bispo em exercício, Bernardo Álvarez, ordenado finalmente a sua suspensão preventiva.
Até que, em 2024, o bispo, sabendo-se doente, pediu um encontro a dois em que admitiu que a Igreja em Tenerife encobriu os abusos durante anos, apontando o dedo aos seus três antecessores no bispado e alegando ser a cultura da época. “Nessa altura, o costume era transferir o padre [abusador]. Agora, temos de intervir, de conduzir uma investigação”, disse-lhe.
No mesmo encontro em que nunca pediu desculpa, Bernardo Álvarez ainda lhe disse mais – e pior: “Tenho experiência com isto, como padre, com raparigas e rapazes de 13 ou 14 anos que me provocaram.”
Soube-se agora que Ciro gravou esse encontro e enviou a gravação para a Procuradoria Provincial de Santa Cruz de Tenerife e a Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores do Vaticano. O bispo morreu em novembro passado e Ciro decidiu divulgar a conversa ao tomar conhecimento de que o Papa Leão XIV tenciona rezar junto ao seu túmulo, durante a visita que fará em junho às Canárias.
Quanto a Carmelo Hernández, que não foi alvo de qualquer condenação criminal, mora atualmente numa casa que Bernardo Álvarez pagou e ajudou a reformar, numa aldeia do norte de Tenerife.
Em cima da mesa está agora a compensação financeira para Ciro e muitas outras vítimas de abuso sexual no seio da Igreja Católica espanhola. O valor ainda não é conhecido e “nunca será suficiente” para reparar os danos sofridos pelas vítimas e pelas suas famílias, já disse Ciro: “Mesmo que nos dessem todo o ouro do Vaticano e das igrejas.”
O dinheiro poderá ser utilizado em terapias, por exemplo, e a sua expectativa é de que cada uma das vítimas nunca receba menos do que 50 mil euros, como sugeriu o Papa Francisco.
Era também isso o esperado na Coração Silenciado, a associação das vítimas dos abusos sexuais na Igreja Católica em Portugal, que já classificou como “uma afronta” a “tabela de preços do sofrimento” agora anunciada pela Conferência Episcopal Portuguesa: entre nove mil e 45 mil euros. Como medem o trauma?, queremos todos saber.