Nem foi preciso esperar pelas 10 da noite para o PSD assumir a derrota nas presidenciais, tanto pelo seu candidato, Marques Mendes, como do seu presidente e atual primeiro-ministro, Luís Montenegro. E esse é um facto inédito em meio século de eleições democráticas em Portugal. Nunca se tinha visto antes o líder do partido no poder atirar tão depressa a toalha ao chão, numa tentativa quase desesperada de tentar que a derrota não se transforme num KO de maiores proporções.
No entanto, por mais que Luís Montenegro procure livrar-se o mais depressa possível desta derrota, com contornos algo humilhantes, dificilmente conseguirá sair ileso das suas consequências. Em especial se persistir no tom de “neutralidade” que procurou imprimir nas suas primeiras declarações – não por acaso, no momento exatamente imediato às da declaração de derrota de Luís Marques Mendes.
Percebeu-se, logo nesse momento, a estratégia que Montenegro pretende impor para as semanas que se seguem: a de se afirmar como imune à derrota, cabendo-lhe apenas procurar “governar o País”, enquanto “outros” vão continuar a disputar a Presidência da República.
A estratégia pode parecer prudente, mas arrisca tornar-se trágica. Especialmente, porque será a primeira vez, em 50 anos de história democrática, que o PSD irá estar arredado – condicionado à posição voluntária de espectador que Montenegro escolheu – da disputa decisiva sobre a escolha do Presidente da República, ao decidir não dar qualquer sentido de voto, aos seus militantes e simpatizantes.
Essa estratégia, apesar de poder ser vista como cautelosa, pode ser, extremamente arriscada. Ao não dar qualquer indicação de voto em relação à segunda volta, Montenegro procura eclipsar-se da decisão mais importante para o País nos próximos anos. E, ao fazê-lo e se persistir nessa posição, acabará por entregar de bandeja a André Ventura aquilo que este mais deseja (e de que já se vangloria): a liderança da direita em Portugal.
Se insistir na tecla que usou na mais curta noite eleitoral do PSD em eleições presidenciais, Luís Montenegro perderá a oportunidade de vincar aquilo que, especialmente neste momento atual do mundo, seria mais importante: sublinhar que há uma diferença relevante e que não pode ser escondida entre a direita e a extrema-direita.
Embora a política seja, muitas vezes, um jogo de compromissos e de calculismos, há momentos em que é preciso, mais do que nunca, assumir princípios. E saber escolher entre os democratas e os antidemocratas. Se não souber fazer essa escolha, a noite eleitoral mais curta do PSD pode tornar-se na mais longa de sempre para Luís Montenegro. Com consequências ainda imprevisíveis.