Há uma mulher que se aproxima de mim. Vem de sorriso aberto e faz o gesto de começar um abraço. “Obrigada. Obrigada por dizer sempre a verdade”, diz-me, enquanto me explica que gosta de me ouvir falar na televisão. Desconfiada, a minha filha franze o sobrolho, dá um passo atrás. Espera que a mulher se afaste. E, então, do alto da sabedoria de quem interroga o mundo, pergunta-me, muito séria: “Como é que ela sabe que tu dizes sempre a verdade?”
A pergunta é muito boa, como quase todas as que fazemos aos 8 anos, como quase todas as que, depois da infância, calamos, por medo, vergonha ou simplesmente – pela pior razão de todas – por acharmos que já sabemos todas as respostas. Respondi de forma honesta. “A senhora acha que eu digo a verdade, porque concorda com o que digo.” Dito assim, em voz alta, é quase uma confissão de desqualificação. Minha, claro. Mas da própria verdade também. Como se fosse impossível que aqueles com quem não concordamos pudessem dizer a verdade. Pior: como se a verdade fosse matéria de opinião. E, não, a verdade não é opinião. A opinião é aquilo que pomos em cima da verdade, o ângulo que escolhemos para ver aquilo que existe.
Constato que a minha resposta honesta contém em si doses consideráveis de cinismo. Mesmo quando procuramos ser honestos não estamos imunes à doença que nos faz dividir o mundo entre bons e maus, preto e branco. Li a simpatia da senhora como concordância.
Mas podia ter dado outra explicação para o agradecimento por dizer “sempre a verdade”. Não sei se essa segunda explicação é a verdadeira, mas é aquela que eu gostava que fosse pelo menos parte da verdade. Talvez – arrisco apenas um “talvez” quando me afasto do cinismo – a senhora que me falou na rua veja em mim o esforço de continuar a comportar-me como uma jornalista, mesmo quando me pedem a opinião. Talvez me reconheça o método, de procurar o máximo de informação, antes de escolher o ângulo para fazer o comentário. Talvez intua que existe um método jornalístico de que não abdico e que atua como um filtro, a peneirar-me o pensamento, a impedir-me de entrar nas guerras de claques e de fações.
Mas regressemos à pergunta da criança, regressemos sempre a ela quando vemos o mundo. E pensemos, por um instante, na forma como este mundo transformou a “verdade” numa mercadoria, pronta a adaptar-se a cada mercado. “Eu tenho a minha verdade”, dizem uns. “É a verdade dele”, encolhem-se outros. E o resultado é um conjunto de gente incomunicável. Um amontado de indivíduos que não chega a ser a soma das partes, que é só feito de fragmentos isolados. Cada um na sua. “Levem lá a bicicleta”, como se dizia antes, quando se queria acabar uma discussão, por enfado, sem abdicar do ponto em que se tinha começado.
Está, assim, cada um em cima da sua bicicleta. Muito contentes consigo próprios. Sem perceber que pedalam aceleradamente para o abismo, antes de uma passagem pela rotunda dos seus convencidos umbigos, cheios de nada e cotão.
Precisava de falar outra vez com aquela senhora, agradecer-lhe, sim, mas explicar-lhe que o que lhe ofereço não é “a verdade” e muito menos “a minha verdade”, mas apenas uma tentativa honesta de trazer para discussão elementos que me parecem fundamentais para que possamos voltar a pensar em conjunto.
Num momento em que basta bloquear nas redes sociais aqueles com quem não concordamos, em que as discussões se ficam pelo “gosto/não gosto”, em que somos constantemente inundados pelas ideias de quem acha isto ou aquilo, cheio de certezas absolutas para afirmar verdades relativas que são vendidas como definitivas, como poderemos voltar a ouvir aqueles com quem não concordamos? Como poderemos voltar a aceitar entrar na dança dos argumentos sem lhes pisarmos os pés, puxando-os para nós pelo ritmo das nossas razões, mas seguindo-lhes a coreografia do pensamento?
O facto é que estamos cansados. A sociedade da informação a toda a hora, das solicitações incessantes, do algoritmo da indignação que nos corrói, das tarefas que se fazem ao mesmo tempo, da exigência da produtividade e da perfeição está a afastar-nos da humanidade e da empatia. Lembram-se de como Elon Musk perorou contra a empatia? Para quem tem do mundo e dos outros uma visão utilitária, só a eficácia fria importa. E a eficácia pode ser um buldózer a esmagar os ossos dos mais fracos. Não importa. Não importa ser bom ou justo. Importa ter mais e arrasar tudo à nossa frente.
Ora, eu acho que a empatia é o início da construção de um dos mais importantes tijolos da civilização: a comunidade. Termos a disponibilidade de reconhecer o outro como igual é o ingrediente que faz de nós verdadeiramente humanos. Mais: é a única coisa que pode salvar o mundo das nossas pulsões de destruição. E é a única forma de sermos todos mais felizes.
É capaz de ser muito pretensioso dizer que o jornalismo é um pouco da cola que pode voltar a unir-nos. Correrei o risco de ser pretensiosa. E correrei também o risco (ainda maior) de parecer ingénua, porque me recuso a desistir. Já sei que me chegarão mensagens cheias de escárnio, comentários desdenhosos, dedos a apontar-me o lirismo incurável e a falta de realismo prático. Prefiro ver as coisas de outra forma: não há nada mais realista e pragmático do que procurar a salvação da espécie. E essa salvação só poderá vir pela reconstrução da ideia de comunidade. Não uma comunidade fechada sobre si mesma, bafienta, que afaste todos os que não são parecidos. Mas uma comunidade aberta à ideia de que podemos ser todos mais iguais nas nossas diferenças.
O que é que isso tem a ver com o jornalismo? Tudo. Porque o jornalismo dá-nos as ferramentas para perceber o mundo, ajuda-nos a entender os outros, mostra-nos o que alguns preferem esconder, revela o que não é óbvio e, acima de tudo, faz-nos pensar.
O ódio convive mal com o pensamento. O ódio é automático. O ódio é uma víscera em espasmos que se retrai e encolhe quando abrimos os olhos. Porque quando conseguimos ver o outro, o ódio começa a esfarelar-se. O ódio é uma coisa abstrata que vive mal com o concreto. E é por isso que tantos dos que odeiam “até” têm um amigo “que é preto ou cigano ou gay”. Porque é muito mais difícil odiar aqueles que conhecemos de perto e, vistos assim, são afinal tão humanos como nós.
Comecemos pelo básico: aceitar que a verdade existe, para lá da opinião, mas que ela é uma coisa complexa, a que se acede como quem monta um puzzle, com a paciência de encontrar os fragmentos e de os encaixar, com a disponibilidade para perceber que o que nos parece evidente pode estar errado. Sim, é difícil. Mas é fundamental.