1. Comemorar o 25 de novembro (25n) como se comemora o 25 de Abril (25A), de forma autónoma, desejadamente igual, como se ambas as datas tivessem a mesma importância objetiva e simbólica, em termos de conquista da liberdade e dignidade da nossa pátria, é uma espécie de tentativa de manipulação, para não dizer aldrabice histórica: colocar em plano idêntico duas datas que são a marca de dois acontecimentos muito diferentes em especial em relevância e significado nacional, democrático e patriótico. Às datas maiores da nossa história – 1383, 1640, 1820/22, 1910 – só uma se pode acrescentar: 1974.
Aquela lamentável vontade de “equiparação” resulta flagrante da resolução do Conselho de Ministros de 8 de setembro de 2025, criando, para comemorar o 25n, uma comissão tutelada pelo ministro da Defesa, com os seus presidente e vice-presidente” por ele nomeados, a composição que tem e competindo-lhe “dialogar” com a comissão das comemorações do 25A para “articular” os respetivos programas. Ou seja: como se estivéssemos perante duas realidades separadas ou separáveis e do mesmo valor. E é esta vontade que se concretiza com a próxima sessão no Parlamento, festejando o 25n com o mesmo “formato” da sessão do 25A.
2. Ora o 25 de Abril deu a liberdade e restituiu a dignidade a Portugal, pôs termo a 48 anos de ditadura (total ausência de liberdade, polícia política e seu rol de crimes gravíssimos, censura, partido único, prepotências de toda a ordem), pôs termo à guerra colonial, ao isolamento de Portugal no mundo, etc. O 25 de novembro pôs termo a vários meses de certa anarquia, de tentações totalitárias com ameaças a um objetivo principal do 25 de Abril, a democracia política/pluralista. Ou seja:
a) O 25 de Abril é a data substantiva, única, que foi e representa a mudança histórica do país, da tirania para a democracia: uma revolução a vários títulos exemplar, que constituiu um poderoso incentivo para o fim de outras ditaduras, como as da Espanha e da Grécia, sem prejuízo de inevitáveis ou evitáveis erros e excessos a mais pacífica das revoluções, também por isso como dos “cravos” conhecida e admirada em todo o mundo;
b) O 25 n é, seguindo a metáfora do 25 de Abril ser a substantiva, uma data adjetiva, tributária ou acessória do 25 de Abril: só foi (muito) importante por permitir manter e desenvolver o caminho e os objetivos da libertadora revolução do 25A, sem ameaças ou desvios de extrema-esquerda ou direita, num clima de “liberdade em segurança” (não por acaso o slogan de um dos cartazes de Ramalho Eanes nas presidenciais de 1976). Por isso, quando há cerca de um ano aqui escrevi sobre este mesmo tema, titulei a crónica “25 (A) só há um…”
Nesta ótica, sendo natural, devido, positivo, assinalar o 25n, devê-lo-ia ser de outro modo, no âmbito das comemorações oficiais do cinquentenário do 25A. Que se prolongam até 2026, pois é a aprovação da Constituição da República, a 2 de abril de 1976, que representa a consolidação/institucionalização dos seus grandes valores e princípios: todos os Direitos Humanos, democracia política e também social, cultural. O que está a suceder, graças ao PSD e seu governo, é uma “deturpação” do próprio 25n, valorizando-o à margem do 25A (ou até contra ele…), quando o 25n representou o restabelecimento e a vitória do essencial do 25A. Por isso se compreende, e mais do que se justifica, que os “capitães de Abril”, representados pela Associação 25 de Abril (A25A), se recusem a participar nessas comemorações e denunciem o que elas representam, com alguns visando mesmo com elas atacar a revolução libertadora (sem prejuízo de se admitir que alguém, porventura com tanto boa fé como ingenuidade, acredite nas boas intenções das comemorações e nelas colabore…)
Naquela Associação, aliás, estão ou estiveram (porque muitos, infelizmente, já nos deixaram) a quase totalidade dos dirigentes, operacionais e integrantes do “movimento dos capitães” e do MFA, que fizeram o 25A e foram os verdadeiros vencedores do 25n. Entre os quais, em posição de grande destaque, um dos fundadores e presidente da Associação, Vasco Lourenço – protagonista central, decisivo e sempre na primeira linha, que exatamente acaba de publicar o 1º volume das Memórias – o 25 de Novembro (Ed. Âncora), nas quais nos dá “a sua Verdade” sobre os acontecimentos e a que voltarei. em breve.
3. A questão da autonomização/valorização do 25 de Novembro em relação ao 25 de Abril teve natural presença na referida primeira candidatura de Eanes a PR. O que bem se compreende porque o 25n fora há poucos meses e as suas consequências estavam bem vivas – incluindo a de Eanes dele ter emergido como figura central, como tal nomeado por Costa Gomes e Conselho da Revolução chefe do Estado Maior do Exército, depois escolhido candidato presidencial pelos “nove” e seus mais próximos.
Assim sendo, e quando ainda estavam por cicatrizar muitas feridas causadas pelo PREC, havia quem quisesse, na comissão política a que pertenci, que Eanes aparecesse sobretudo como o candidato (vencedor) do 25 de novembro; e quem, como eu, tinha opinião contrária: Eanes devia ser, era, o candidato do 25 de Abril restaurado a 25 de novembro. Ou, numa fórmula que tinha implícito esse entendimento, o Candidato da Constituição. Quer dizer: o defensor intransigente dos valores, da letra e do espírito da nossa “Lei fundamental”, aprovada a 2 e entrando em vigor a 25 de abril de 1976, um mês e dois dias antes dessas inesquecíveis primeiras eleições livres e por sufrágio universal para um Presidente da República português.
Ora Eanes não hesitou, nunca quis, ou aceitou como alguns desejariam, ser o candidato do 25n (no entendimento do espírito que creio estar na base das atuais comemorações), e sempre proclamou/valorizou a fidelidade à Constituição, que jurou cumprir e fazer cumprir. Recordo que nas reuniões da candidatura, amiúde prolongando-se pela noite fora, às vezes aflorava essa orientação, de ser o Candidato da Constituição, com alguns questionando-a. Nessa altura, mesmo estando a “passar pelas brasas”, o Jorge Miranda, um dos chamados “pais da Constituição”, também da comissão política, e do PPD, tinha como que uma espécie de sino interior que o acordava e trazia para a defesa veemente dessa posição.
Muita pena que o PPD/PSD de hoje tantas vezes, inclusive neste caso das comemorações do 25n – claro que aproveitadas por quem não gosta do 25A ataca-o e até o injuria, como o Chega – pareça não ser o mesmo partido desse Jorge Miranda e de tantas outras destacadas personalidades que o fizeram.
4. Vivi muito por dentro todo esse período, do 25 de Abril ao 25 de novembro e depois dele. Como cidadão e sobretudo como jornalista, em particular de O Jornal. A minha intenção hoje era contar algumas histórias, creio que interessantes e algumas significativas do que foi esse período conturbado mas apaixonante. Creio que a coleção de O Jornal dessa época constitui um excelente testemunho de tudo que aconteceu. As três capas reproduzidas acima são uma amostra disso. A que tem Otelo e Vasco Lourenço na foi a que antecedeu o 25 de novembro, e para a qual, no dia 20, quando os dois eram protagonistas centrais do confronto à vista, em posições opostas, consegui que cada um me dissesse o que pensava do outro – ambos muito amigos e reconhecendo o papel fundamental de ambos na revolução. Têm de ficar para a próxima, as histórias…