A 14 de março de 1979, numa sala do Collège de France, decorria uma aula de Michel Foucault sobre Biopolítica. Nessa quarta-feira, o professor Foucault, entre muitas outras coisas, disse aos seus alunos o seguinte: “Ora, é evidente que não temos de pagar para ter o corpo que temos, ou que não temos de pagar para ter o equipamento genético que é o nosso. Isso tudo não custa nada. Bem, não custa nada – será mesmo? Podemos muito bem imaginar uma coisa dessas a acontecer (o que estou a fazer nem chega a ser ficção científica…)”.
É difícil imaginar como reagiram os alunos a estas afirmações. Mas, 46 anos depois, é seguro dizer que a política do corpo está, mais do que nunca, no centro da discussão cultural do Ocidente: a luta pelos direitos reprodutivos das mulheres; pela igualdade salarial entre géneros; a afirmação da comunidade trans e suas reivindicações; as tentativas de reduzir as horas da jornada de trabalho…Tudo isto tem, no seu âmago, o corpo humano e a sua respetiva valorização.
No mais recente filme de Bong Joon Ho – quem ainda se lembra da sua maravilhosa obra, Parasite – intitulado Mickey 17, o realizador aborda uma realidade distópica e futurista onde um Congressista americano com tiques ditatoriais e pouca apetência para vencer eleições decide iniciar um projeto de colonização de um planeta de gelo inabitado. Para este efeito, é lançada uma mega-campanha de recrutamento de pessoas com as mais variadas habilidades, de modo a garantir uma “sociedade perfeita”.
É aqui que entra a personagem protagonizada por Robert Pattinson, Mickey Barnes. O protagonista é um indivíduo sem nenhum talento em especial e atolado em dívidas por causa de um negócio ruinoso em que investiu com o seu amigo Timo, que já lhes estava a valer umas quantas visitas do gangue a que pediram o dinheiro emprestado. Por esses motivos, e sem ler as letras pequeninas do que estava a assinar, Mickey inscreve-se no programa de colonização como um “Descartável”. E o que é, então, um “Descartável”, nesta missão de anos? Alguém que serve somente para morrer vezes sem conta. Porém, há um catch: sempre que morre, Mickey é reimpresso por uma máquina capaz de fazer cópias integrais de corpos humanos, transmitindo a consciência do original para a cópia.
Esta produção de “Mickeys” faz com que a equipa de cientistas do projeto submeta este homem – o único “Descartável” na missão – às mais inusitadas situações: exposição a vírus letais, trabalhos extremamente perigosos, experiências mortais. Sempre com o mesmo fim: a morte.
É isto a vida de um “Descartável”: Mickey 1, Mickey 2, Mickey 3, Mickey 4, Mickey 5…Mickey 17, Mickey 18.
A mensagem de Bong Joon Ho parece clara: uma crítica ao capitalismo utilitarista – existe outro? – que vê no Ser Humano apenas o seu valor enquanto força de trabalho, enquanto produtor de algum valor – o corpo como uma máquina ao dispor de governos e empresas. Tudo isto apresentado num cenário futurista, com naves espaciais, num planeta de gelo com formas de vida inteligente. Mas basta olhar para lá dos efeitos especiais para ver a desumanização do corpo humano, a noção de material genético enquanto capital, uma ditadura que pretende controlar os corpos dos seus súbditos para criar um “planet of purity” como diz o Congressista Kenneth Marshall, e a perigosa obsessão com o “espécimen perfeito”.
No meio desta exposição de temas tão importantes e complicados, o realizador deixa também uma mensagem de esperança: todas as impressões de Mickey saem sempre com diferenças de personalidade em relação às cópias anteriores. Porventura, uma tentativa de Bong Joon Ho de nos mostrar que, apesar de toda a ciência de ponta, todos os cálculos corretos e métricas certinhas, o que é humano tem sempre algo de incontrolável e não reproduzível. Há em cada um algo de humanamente inabalável que sobrevive a cópias, mutações e fabricações.
No seu core, Mickey 17 é um filme sobre a condição humana, sobre o corpo humano e a respetiva existência do mesmo num sistema económico que vive para produzir, produzir, produzir.
O que teria achado Foucault deste filme?
Nota: a citação de Foucault pode ser encontrada no seu livro “Nascimento da Biopolítica”, na aula de 14 de Março de 1979.
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