Desde muito novos que estamos habituados a ouvir coisas como: “arruma o quarto, isto está uma desorganização que não se pode, se alguém vir isto é uma vergonha”, “arruma a tua secretária, é impossível encontrares alguma coisa aí nessa confusão”, “quarto arrumado, cabeça organizada.”
Ainda que de forma provavelmente inconsciente, sempre fomos educados no sentido de organizar o espaço da melhor forma, tanto por mera necessidade de arrumação, como pela imagem que uma casa ou uma secretária desorganizada passa para quem as vê.
É pena que, à medida que vamos crescendo, essa noção de espaço se limite mesmo à casa e ao local de trabalho e não à própria organização das nossas cidades. O caso de Lisboa é paradigmático.
Todo o cidadão que reside ou que, pelo menos, trabalha em Lisboa, depara-se, todos os dias com um ruído visual e olfativo que ultrapassa os limites da decência, bem como denota que os locais públicos estão em degradação do ponto de vista da utilização e vivência da experiência da cidade.
Tudo isto é comunicação. O espaço está em constante comunicação com os indivíduos que nele vivem e se movem.
Neste momento, Lisboa, com a falta de espaços públicos gratuitos que apresenta – é quase impossível, hoje, sair à rua e não gastar dinheiro -, os espaços verdes em deterioração apenas salvos por cidadãos bem intencionados que agem como guerrilheiros florestais, os passeios de dimensão mínima para os pedestres, os buracos de 50 em 50 metros, e até os cartazes de eleições políticas passadas (bem passadas…), está a dizer aos seus residentes e trabalhadores: “fujam, caso o lixo por todo o lado e o mau cheiro não vos seja suficiente para zarpar!”
Lisboa, sob a presidência de Moedas, passou a falar apenas para os turistas. A expulsão de pequenos negócios locais históricos e sua substituição por Ale-Hops, Tigers e Normals faraónicas dizem algo muito claro: Lisboa é agora um parque de diversões para o turismo. Em vez de apostar na cultura portuguesa, a presidência da Câmara opta por vender a cidade à plasticidade estrangeira.
Urge que se organize melhor o espaço da cidade de Lisboa para que a própria cidade comunique positivamente com os cidadãos. Lisboa está um caos e esse caos entranha-se no espírito das pessoas, no seu mood, e na sua disposição para investir a sua energia na cidade, para querer ficar e desenvolver trabalho aqui.
Lisboa está a arriscar-se a, seguindo este caminho provinciano de cedência total ao que é estrangeiro, deixar de ser uma cidade portuguesa culturalmente interessante pela sua particularidade para passar a ser uma Disneyland barata que se pode visitar em qualquer capital banal. Se é verdade que o turismo constitui uma fatia substancial nas receitas de todo o país – não exclusivamente Lisboa -, também é verdade que o que atrai os turistas para Lisboa não são as lojas a que podem ir em todos os países do mundo desenvolvido, mas sim o pequeno comércio, os restaurantes locais e a arte portuguesa.
Organizar melhor o espaço para comunicar mais eficazmente com aqueles que pela cidade se movimentam – uma ideia clara que, apesar de não ser tão simples assim, tem de ser concretizada.
É caso para dizer: “Câmara Municipal de Lisboa, é favor de arrumar melhor a sua cidade! Se alguém vir isto é uma vergonha!”
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