Talvez a seguir a uma sentença de Stendhal, que não vem agora a propósito, o encapsular da vida como a vejo se pudesse resumir a uma mão-cheia de aforismos de Wilde e até sobretudo ao mais conhecido: “Consigo resistir a tudo menos à tentação.”
Mas não sendo pródigo em virtudes, se há tentação que nunca tive ou compreendi foi a de sucumbir àquele estado febril, à roleta de emoções que a vida e os livros dizem ser o vício do jogo.
Seguramente por vaidade, imaginar que o negócio da sorte pudesse favorecer o cliente sempre me pareceu parvoíce. Percebo, voltando a Wilde, a adição a vícios vários. Parece-me, aliás, das coisas mais humanas da vida, nada tenho de moralista, digo eu em causa própria. Mas dos casinos ao senhor dos copos a esconder a moeda na feira de Ponte de Lima, francamente, nunca achei surpresa que a “casa” ganhe sempre como na Roletemburgo imaginária de Dostoiévski.
Uma vez, no casino da Madeira, experimentei. Perdi cinco contos enquanto o diabo esfrega um olho e pareceu-me bem-merecido, mas seguramente não mora aqui, lá está, alma mais preparada do que a de Dostoiévski, de quem se diz que em 1863, quando viajava para Paris ao encontro de Paulina Suslova, a paixão da sua vida, sucumbiu com estrondo nas roletas dos casinos de Wiesbaden.
Dessa pequena (?) tragédia resultou um dos seus livros mais lidos, ditado em 26 dias a uma jovem estenógrafa, Ana Grigorievna, que viria a ser a sua segunda mulher: O Jogador, publicado no ano de 1866, o mesmo de Crime e Castigo.
Quando o li, um pouco mais tarde, era novo e mesmo que o jogo fosse só o pano de fundo de muitos “jogos”, a mim só me interessava o desfecho das tremuras do Alexei Ivanovitch na roleta por causa da Paulina. Os tremores do jogo podiam ser os de qualquer outra provação que rendesse dinheiro depressa. No mais que me lembro que a avó tenha perdido na roleta o que lhe queriam surripiar foi das fatias mais deliciosas da história.
De algum tempo para cá tenho, felizmente, sido obrigado a reparar que o jogo não é um vício romântico de uns quantos excêntricos e, convenhamos, é obviamente indiferente que eu o compreenda ou não. Existe e multiplica-se por aí uma adição de profundas consequências sociais que desgraça muito mais que as velhas ricas dos romances russos.
Em pouco tempo, um jogo com as piores características para favorecer a adição, barato e de “resultado imediato”, representa quase metade das receitas da Santa Casa da Misericórdia. A raspadinha, até o nome tem diminutivo para esconder a urtiga, tem sido coisa nova em dimensão e até em efeito.
Três quartos dos jogadores são da classe baixa ou média-baixa e não param de surgir fundadas evidências de fenómenos de dependência e ruína justamente entre os mais desprotegidos na vida, por via da emboscada que é fazer esfregar uma moeda num cartão para raspar as misérias da vida.
Naquelas democracias a que exigimos tudo nas redes sociais, tantos alertas seriam coisa de preocupar governantes. A ideia de que preocuparia especialmente os que se dizem de esquerda é, de resto, preconceito de que obviamente não partilho.
Por cá, nesta comédia em que vivemos, o Governo, que os “intelectuais” da cultura incensaram, vendo cair de podres os museus nacionais, ocorre-lhe resolver o problema não como obrigação de Estado através do Orçamento e, consequentemente, dos impostos que sempre garantem alguma redistribuição, mas nas moedas que os pobres perdem na tabacaria, lançando uma raspadinha nova. E a coisa avança sem haver quem se oponha.
Há horas de sorte mas, decididamente, não nos tem calhado a vez.
(Opinião publicada na VISÃO 1466 de 8 de abril)